Monday, January 27, 2025

Mal estar na Ku-Ci: a franja e seu valor

Finalmente encontro a fundamentação que procurei durante longos anos: uma conjugação específica de conceitos e autores de referência que possam embasar (de forma suficientemente ampla e corajosa) o estudo da região fronteiriça entre o indivíduo singular e a coletividade que o acolhe e, simultaneamente, o restringe. A essa região chamo de "franja"

Pelo caminho do sociólogo Norbert Elias (1897-1990) se mostra a dupla de conceitos sociogênese e psicogênese, não como categorias antagônicas, mas complementares e mutuamente influenciados. De forma muito resumida, esses conceitos respondem pelos processos que, desde o nascimento, vão moldando os indivíduos singulares em suas características comportamentais e, ao mesmo tempo, os ambientes sociais ao quais pertencem, num processo histórico de longa duração, sem direção ou propósito pré definidos. As obras chaves aqui são O processo civilizador (1939), A sociedade dos indivíduos (1987), e Envolvimento e alienação (1983). Recontando a história das transformações sociais na Europa desde a era feudal, especialmente através da evolução dos costumes das classes dominantes, Elias constrói uma sociologia apoiada no próprio processo de mudança, no auto controle que deve restringir ações inadequadas e nos processos educacionais que vão incorporando o que vai se transformando em inadequado com o passar do tempo.  Várias outras obras de Elias acrescentam valor e interesse ao estudo, porém essas três são mesmo as que contém os elementos centrais e conceituais para o estudo que vislumbro.

Na outra vertente vem Sigmund Freud (1856-1939), nome que fala por si mesmo, e que já trabalhava no aprofundamento em estudos correlatos, ao buscar os mecanismos que fazem com que cada indivíduo singular se comporte como faz, bem como a estruturação psíquica dos processos interiores que possam ser vistos como gerais para todo ser humano. As obras Mal estar na cultura (1930) e O futuro de uma ilusão (1927) oferecem cuidadosas introduções ao tema, apresentando diversos aspectos do ambiente social que afetam o indivíduo singular em sua formação psíquica. Essas introduções, de leitura e digestão relativamente fácil, ao meu ver, poderiam ser oferecidas aos estudantes de sociologia como texto introdutório, de tão valiosas e acessíveis. Freud nos oferece, nessas obras - e certamente em muitas outras -, uma visão dos processos que são essencialmente oriundos das coletividades e que moldam as restrições que cada indivíduo singular terá que enfrentar em seu âmago, exatamente para exercer o pertencimento àquelas coletividades. Avança ainda sobre aspectos importantes de como se organizam e quais as energias psíquicas elementares que coadunam aqueles processos coletivos.

Ku-Ci foi a palavra que encontrei para representar a dificuldade de tradução das palavras em alemão kultur e civilisation (e que contrapõe as nossas equivalentes cultura e civilização). Essa dificuldade, expressa em diversos textos introdutórios e explicações dos tradutores, nos oferece um espaço de reflexão entre o que fazem de nós pelos processos das coletividades (que vou simplificar como civilização) e o que podemos, de forma autônoma e consciente, fazer de nós mesmos (simplificando: cultura). Esse espaço de reflexão podem ser representado exatamente através dos elementos que nos são legados pelos processos coletivos que nos possibilitaram (e nos limitaram a) ser quem somos singularmente.

Como mencionei antes, alguns tradutores e comentadores falam sobre essa dificuldade de tradução, não somente para o português, mas também para o inglês, posto que esses conceitos em alemão parecem distintos o suficiente para serem explicitados como aparte. Na outra margem daqui, o próprio Elias, em O processo civilizador, investe boas dúzias de páginas para, por ele mesmo, explicitar a distinção que cada uma dessas palavras representa na Alemanha e na contraparte comparada pelo francês e pelo inglês na França e na Inglaterra. Essa obra, publicada originalmente em 1939 e revisitada pelo autor em uma nova e longa introdução na edição de 1968, certamente contempla alguma coisa da visão de Freud, ali referenciado algumas vezes. Talvez seja importante ainda ressaltar que Freud, ele mesmo nessas duas obras, torna explícito que essa distinção no alemão entre cultura e civilização não tem relevância para suas elaborações, e que, para todos os fins podem ser conjugadas como integradas em um só conceito.

Franja... terreno árido e difícil, posto que na fronteira entre disciplinas bem vigiadas e cujo contorno é, por definição, irregular e interpenetrado. Meu desejo é aprofundar a compreensão sobre esses (e outros aspectos) da relação entre o "eu" e "o(s) outro(s)", numa linha de estudos que passa pela leitura desses textos, seu cotejamento cuidadoso e, como método de estudo e expressão daquele desejo, a reflexão coletiva sobre aspectos que nos escapam mais fugazmente quando estamos a refletir sobre o outro de forma individual singularizada....

Agora busco o grupo que, como conjunto de indivíduos singulares possam (e desejem) formar uma coletividade de estudo sobre o tema. Tema essa que considero, por sua própria natureza e implicações, essencial para a vida em paz. Comigo mesmo e com o outro.

Aguardo com esperança e com fervor sua manifestação sobre o desejo de enfrentar esse caminho, mesmo que seja somente em parte.

Tuesday, January 14, 2025

Duzentos anos de solidão: dobrando a aposta

A morte de José Arcadio Buendía (no livro), com a intenssíssima chuva de flores que se seguiu sobre Macondo, em meu íntimo como que multiplicou a morte, não exatamente em quantidade, mas especialmente em qualidade.


A enxurrada de notícias e novidades da era midiática parece ter arrefecido as conversas sobre a série Cem Anos de Solidão, e em especial, para mim, sobre as críticas comparativas ao texto do Garcia Marquez. Alias, ainda não vi comentarios sobre o personagem Marquez (coronel Gerineldo Marquez, valente e sensível, apaixonado por Amaranta na maturidade).

O "museu de grandes novidades" contemporâneo, que já escanteou o próprio Cazuza para um passado quase remoto, incorpora a obra audiovisual do livro norol das produções recentes. De minha parte eu gostaria de saber o alcance da série no aspecto comparativo entre os que haviam lido o livro antes e os que enfrentavam a história como novidade (ou seja, não conheciam previamente o texto). Meu avô dizia que um bom livro se lia primeiro a cavalo (como num trote, de forma rápida), e depois, com mais vagar, fazendo uma leitura a pé, parando para ver a vista sempre que desejar. Assim a ansiedade de saber onde a história vai dar cede espaço para a degustação do caminho e das sutilezas que podem ser encontradas.

Eu venho andando pelas sendas do livro novamente. Degustação fina. Quase um tapa com luva de pelica na enxurrada midiática que mencionei acima. Não se degusta nada correndo (a não ser, talvez, o próprio ato de correr). E esse pensamento me trouxe outra obra emblemática, de peso equivalente: Mal estar na cultura, Freud (1930). Nos aproximamos dos cem anos de lançamento dessa segunda obra, e seu conteúdo parece tão atual (e mal digerido socialmente) quando deve ter sido à época. Em terceira releitura, é igualmente uma degustação fina, ainda que de outra espécie e safra. Cada parágrafo tem conteúdo e precisão, objetivo e propósito, e sem empolação alguma que dificulte seu entendimento. Apenas densidade e urgência que a maturidade de Freud (com 74 anos de idade) precisava como que exalar, numa espécie de consolidação superficial de suas observações sobre a sociedade daqueles indivíduos (com licença e apud Norbert Elias). 

Tanta coisa pra ler, tanto video pra assistir, e eu aqui, querendo caminhar lentamente por obras centenárias... Então ao revisitar a ligação dessas obras, e estabeleço outras tantas ligações: o centenário de meu pai e seu sistema de aprendizado pela perda; minha Macondo de todo dia, aqui ou em solo velho europeu, com suas guerras e fuzilamentos quase pueris; as estratégias humanas de fuga ao medo da finitude que a tudo perpassa; e, finalmente, Beto Guedes & Ronaldo Bastos numa obra que aprecio muito: O sal da terra, que contém uma visão de mundo maravilhosa (na ingenuidade própria da época de sua feitura) e tem um trecho assim:

"Vamos precisar de todo mundo,
Pra banir do mundo a opressão,
Para construir a vida nova,
Vamos precisar de muito amor."

E não era exatamente isso que José Arcadio Buendía estava buscando quando saiu à procura de um lugar para se fixar após sua luta com Prudêncio Aguilar, que culminou com a fundação de Macondo?

Monday, January 13, 2025

Sabonete Phebo: lições & ilações

Equanimidade, igualdade, respeito às diferenças, autoridade e poder. O assunto é quente e escorregadio, posto que o respeito às diferenças esbarra mesmo na demanda pelo tratamento igualitário. O inferno é conseguir discernir bem onde e como isso se processa, e justamente naquela interface muito problematizável entre o “eu” e os outros, seja nas relações de um para um, de um para poucos ou nas de um para muitos.

De fato, essa interface pertence a um campo acinzentado, dominado academicamente pela psicologia. Entretanto seu processo de construção, assim como o propriamente do “eu” se ancora no ambiente social coletivo da criação, do aprendizado e das restrições impostas, que eu agora considero como parte do campo de estudo denominado controle social. 


Em minha história pessoal o sabonete Phebo é uma instituição. Seu cheiro muito peculiar não só rescende na casa toda, como denota um bom banho tomado, alguma aura de tradição e o simbolismo de uma coisa relativamente cara, cujo uso me era vedado na infância, posto que reservado exclusivamente para o uso de meu pai (e zelosamente guardado por minha mãe para que não se desviasse desse uso preconizado). Até hoje, marca agora internacionalizada e sabonete multi saborizado, segue sendo um símbolo de status que referencia um produto caro, ainda que não de segmento premium (ou de boutique), cujo acesso é possível para a classe média, ainda que com restrições para o uso do dia a dia. 

Ora, nem eu e, até onde eu saiba, nenhum de meus seis irmãos éramos muito chegados ao banho, atividade que consumia tempo precioso de descobrir a vida e por isso (antes da adolescência) era ação de se livrar rapidamente no menor tempo possível. Portanto o consumo familiar de sabonete para esse uso não deveria ser expressivo. Usava-se o palmolive mesmo, ou o gessy. Ou o que fosse o mais barato da época, e que concorria com o sabão de coco, que eu gostava como substituto no banho, mas que também tinha restrição de uso controlado – ainda que menos impositiva do que o odor de rosas da Phebo.

Hoje penso que compreendo a cabeça de meu pai e todas as suas possíveis justificativas para que seus produtos de higiene fossem diferenciados do restante de sua família. Não posso evitar o fato de que minha (ainda) maior mágoa com ele estar nessa área (limitava fortemente meu uso de fio dental como coisa cara), percebo que sua cegueira e burrice não o deixou ver que os custos de dentista e protético foram bem maiores do que os de fio dental e boa educação de saúde bucal. E, claro, dos meus afetos e de nossa relação pai-filho.

Entretanto essa relação pai-filho não era exclusiva: havia uma boa penca de outras singularidades em formação que já contavam com algum histórico em suas relações quando chegou minha vez. E, novamente claro, tinha minha mãe não só nessa mediação, mas principalmente contribuindo com ingredientes fundamentais para que algum equilíbrio fosse possível naquele conjunto de corações e mentes díspares, agitados, espertos e impulsivos. Sendo o caçula e ainda por cima recebendo o mesmo nome de nosso pai, não é difícil imaginar o quanto esse mundo já havia se transformado desde que o primeiro filho dessa união teve seus primeiros momentos de restrição e interdição.

E o que ainda segue me fascinando nisso tudo? Ora, naquele núcleo sempre houve diversos tipos de transgressão às regras específicas impostas por nosso pai, que podiam variar desde a grande desobediência de usar sua espingarda sem sua supervisão (que demandava ser guardada exatamente como encontrada para não suscitar nenhuma dúvida desta infração) até o furto ocasional de um de seus cigarros, que apesar de ocorrer de forma cuidadosamente furtiva, sempre resvalava na dúvida se aqueles eram contados e, portanto, o furto seria notado logo na sequencia. Portanto, na minha vez já eram fartamente conhecidos diversos mecanismos de burla, assim como muitos dos controles antes pesadamente impostos e punidos já estavam relativizados e/ou relaxados, ainda que não suspensos nem removidos.

Então quais aspectos e razões levaram a que não houvesse o uso ocasional (ou simplesmente o furto) do precioso sabonete Phebo, e nem mesmo que isso fosse aventado naquela coletividade? E nem mesmo que esse assunto tenha chegado até hoje para nossa reflexão?

Ou ainda de outra forma: quais os atributos específicos e simbólicos que o sabonete Phebo tem e representa ainda naquela coletividade que nos podem servir de alimento no processo de retrospectiva e de aprendizado sobre o mundo coletivo e sobre aquela interface do “eu” aos outros, especialmente sobre as lutas pela igualdade e redução de iniquidade e o correlato respeito aos mecanismos de controle social que nos fazem sermos como somos coletivamente?


Tuesday, December 24, 2024

Feliz natal

 


xarope pra tosse
tosse pra cachorro
cachorro que aqui é cão
correndo atrás
do xarope pra tosse
...

onde vivo percebo que há uma mistura de alegria e tristeza pelo natal.

percebo também que sempre senti isso, mas somente aos poucos vejo esse sentimento se manifestar em outras pessoas. claro que sempre houve os que não gostam de natal e, principalmente, de fatores simbólicos cruciais aqui e ali envolvidos (e me irmano nesse sentimento)

então, como sempre fiz, reviso meus amores e deixo aqui uma cachoeira de afetos como representantes da parte que eu gosto do natal: desejo boas lutas pela construção da fraternidade, boas decisões nas relações imediatas, boas sortes no que não dependeu de suas decisões e serenidade na inexorável marcha para o amanhã junto de teus companheiros!!!

Monday, December 23, 2024

Macondo, Úrsula e Mascuito: o conflito que nos une

Dentro de cada um de nós vive Macondo, em um universo social que nos une e, ao mesmo tempo, transcende a nós todos em sua magia, fantasia e, principalmente, em sua realidade

É necessário iniciar esse texto considerando que nem todos nós já tivemos a experiência anterior da leitura da obra Cem Anos de Solidão. Portanto há alguma realidade em mim que compartilha uma Macondo com tantas diferentes pessoas; algumas também não tem a obra como referência. Mas como vou utilizar a obra como fio de costura dessa ideia, penso que para chegar lá não posso me perder nas entradas e saídas desse perigoso pântano de ideias solitárias. Ou melhor: do "paradoxo de vivermos nossa solitária trajetória imersa em tantas convivências". Demais isso. Adorei, obrigado Mileto.

Do ponto a partir do qual eu observo o universo, além do tempo, outra característica que me parece bastante universal é o conflito. Temos os grandes e os pequenos, curtos e longos, avassaladores e crônicos, angustiantes e apaixonados... enfim, me parece que eu usaria a tarde toda e ainda não poderia extinguir categorias para classificar toda a sorte de conflitos que se apresentam em nosso mundo. Assim, proponho um recorte rápido para possibilitar a viagem sem devaneios extras desnecessários: há os conflitos internos de cada um de nós, ligados ao que eu quero e que posso ou não posso, e às minhas reações sobre o que se espera de mim, campo da individualidade e que vou atribuir de forma simplificada à psicologia. E há os conflitos do mundo social, que abarcam toda a sorte das disputas, dos embates de opiniões, que envolvem a ordem estabelecida e os processos continuados que formataram os ambientes na configuração em que os encontramos (figuração, para citar Norbert Elias).

No caminho do herói o conflito é exatamente o ponto onde lhe é dado a chance de seu ato grandioso. Esse parece um raro ponto positivo para enaltecer a existência de conflitos, especialmente nos dias que correm, onde a escalada dos conflitos oferece uma atmosfera omnipresente de risco iminente de destruição, individual e coletiva. 

Os obras de arte podem trazer para a superfície dos afetos conscientes os conflitos que a todos nos une (um paradoxo, por sinal, delicioso). Em toda obra de dramaturgia, acompanhar o desenrolar dos conflitos é um poderoso gancho de identificação com a obra, seus personagens e situações. Creio que até aqui consegui um resumo bastante fidedigno sobre o impacto de Cem Anos de Solidão sobre mim: uma história sobre o tempo, sobre as relações em conflito e a solidão que ali se aninha, de forma inexorável, irremediável...

Então revisito Macondo, assistindo aos conflitos agora expostos em video, mas os confrontando com aqueles mesmos conflitos narrados, ainda guardados nas minhas memórias, das leituras anteriores. E percebo o quanto a tensão existente em cada conflito foi relevante para minhas percepções e imaginações. É quase como o tensionamento único de uma corda que faz produzir uma determinada sonoridade e sua duração de ressonância. (A imagem de minha sinfonia pessoal de conflitos como metáfora de minha própria singularidade foi tão arrebatadora que tive que parar um pouco, saborear e escutatear sua ressonância...)


...

Uma vez tendo chegado ao ponto de minha reflexão, retorno à obra audiovisual e à você, leitor/a, para dedicar atenção a esse aspecto específico da obra. Os conflitos que encontrei na leitura do livro são contados de forma tão sensivelmente integrados aos atributos humanos de cada personagem, que suas resoluções se seguem sem produzir praticamente nenhum solavanco na fluidez da leitura. E nem havia me dado conta de quão sutil podem ter sido essas decisões nas definições da escrita. Agora percebo com clareza que o emaranhado de conflitos, diálogos, considerações e as seguintes resoluções de cada conflito da trama é fundamental para a riqueza da elaboração de cada personagem dentro de nós, seja pela identificação (positiva ou negativa) dentro do cenário do conflito, seja pela ressonância que cada conflito propõe dentro de nós (na melhor expressão da adrenalina que a vivência nos causa).

E ali está a Úrsula que ainda não havia reconhecido no filme: ao se posicionar como uma mulher forte e questionadora (muito mais do que a minha Úrsula), redesenha seus conflitos de forma a redesenhar-se a si própria até o limite de já ser, para mim, uma nova personagem. 

O obra escrita me permitiu atravessar por seus inúmeros conflitos, num ritmo em que as resoluções se faziam dentro de seus contextos sociais, acomodando os interesses em disputa, as verdades em rota de colisão, e, principalmente, as visões de futuro que cada personagem haveria de ter sobre as consequências na resolução de seus conflitos. Guardo minhas mágoas ou as devolvo? Brigo por meus ideais ou abdico? Caso com Pilar ou fujo de Macondo? Assumo minhas deformidades ou as escondo?

Partindo daqueles personagens e também da relação daqueles com muitos de meus queridos, percebi que a narrativa dos conflitos e o peso com que cada ação narrada nos atinge, pude mudar de forma profunda a análise e a identificação que tenho com cada personagem. E isso pode mudar tudo dentro da minha relação com a obra. 

E o Mascuito.... quem lembra do Mascuito?

Sunday, December 22, 2024

A franja e eu (ao amigo Mileto)

prólogo: texto (e sentimentos) em elaboração. Como se refere à relações e suas múltiplas decorrências, está aberto às transformações que virão justamente daí. Se estiver muito confuso, se for possível, me ajude...

... 

"meu" José Arcádio era diferente. Bem, digo era pois o vejo em pleno processo de transformação, em cada nova interação, em cada novo personagem e sua relação revisitada. 

Enquanto consigo manter uma espécie de registro mental disso, me sinto a ganhar esse novo José Arcádio, assim como a cada reencontro com cada um dos meus irmãos partilhamos as novas riquezas que a vida nos tem dado. Aqui penso que achei uma importante chave de minha relação com essa obra audiovisual: se consigo reter afetos que julgo importantes ainda na esfera da consciência, posso revisitar minhas relações ao longo da linha de um tempo - ainda que esse tempo seja só meu.


Pois cada irmão que convivo hoje existe em mim como o seu presente, mas também como em todos os episódios que construíram nossa história comum. Uma queda da árvore, um corte profundo, uma despedida ardida, uma bicicleta partilhada... todos e cada um desses eventos me tem a mim e ao outro na minha lembrança afetiva e histórica.

Gosto de viver o tempo. E de pensar junto também com Heráclito, Agostinho, Caetano, Einstein, Elias sobre o tempo. Uma qualidade da vida que a todos afeta e que me parece uma das mais universais quanto à individualidade da compreensão. Em nossos dias, todo mundo sabe o que é o tempo. Em seu próprio saber, é certo, mas todos sabemos o que é o tempo (enquanto não tivermos que explicar, não é?)

Ao sentir então um José Arcádio se transformando (e transformando a mim também), através de sua relação com uma Úrsula (que até o momento não reconheço em absoluto), percebo um novo interstício a explorar com calma, cuidado e saboreio. Estou a chamar de franja a região espaço-temporal onde ficam como que acumuladas as reservas que precisamos para buscar compreender as coisas, e que podemos então considerar como "uma câmara de dúvidas".

Ao ponto: nas relações que observamos entre as outras pessoas, há sempre a possibilidade de uma compreensão frouxa a respeito do que ocorre ali. Essas observações precisam inexoravelmente guardar uma reserva para confirmação pelo tempo futuro sobre o que aconteceu ali. É claro que me refiro ao além do factual e da mera análise descritiva: se não somos mais o mesmo e nem o rio é o mesmo quando mergulhamos pela segunda vez, busco pelo que foi transformado em mim e no rio.

E quando colocamos a perspectiva das relações entre as outras pessoas, essa franja segue por caminhos muito misteriosos, posto que envolve não só a compreensão mútua entre eu e o outro, mas entre o outro e o terceiro. E vice versa. E essa imagem que cria entre o outro e o terceiro - para além da terceira margem do rio, me parece um espaço de muitos universos a explorar. Mas também um espaço profundamente reflexivo e solitário. E assim vejo um importante contributo que essa versão audiovisual me trouxe: que solidão!


Friday, December 20, 2024

Quantas vezes quero ler uma obra antes de.... (para o amigo Guilherme Buendia)



Acredito que a discussão sobre transposição de uma obra da literatura para o audiovisual já deve ter sido bastante presente, mas hoje abriu-se novo capítulo em meu horizonte. A criatividade exigida pelo sorver de uma obra (que delícia: sorver) parece estar associada a um certo conteúdo interior de cada indivíduo, onde a magia da descoberta de cada história talvez passe por um caldeamento único e singular dentro de cada alma, cada espírito, até que alcance seu cérebro - e daí retorna ao pensamento coletivo recriado, revivido e reproduzido em forma de afetos e lembranças.

Ocorre que obras literárias demandam que o córtex visual e auditivo do leitor sejam acionados pela própria criação adicional paralela à obra (como será a expressão facial de tal ou tal personagem? Qual será o tamanho daquela sala? Como será o tom da voz de Úrsula?). Toda essa fabricação interior de imagens e sons (imaginação) se acrescenta ao material fornecido pelo autor em sua história. Temos então, para cada leitor, uma Macondo com suas características específicas: cores e movimentos que variam ao passar do tempo pela pena do autor, mas que também se desenvolvem a partir do que foi elaborado parcialmente pelo próprio leitor no desenrolar da trama original. 

A enxurrada audiovisual de nossos tempos (especialmente as de curta e curtíssima duração) acrescentam muitas possibilidades e confirmações sobre como o mundo é e como é visto por outras pessoas. Recriações audiovisuais de eventos e situações históricas são muitas vezes criticadas a respeito da exatidão histórica das roupas e ambientes, dos trejeitos e adereços, etc. Os diálogos propriamente ditos quase sempre precisaram ser adaptados, uma vez que também quase sempre já haviam sido "atualizados" em suas sucessivas edições literárias, para manter os padrões ortográficos vigentes, etc etc. A esse aspecto específico talvez precisemos de outros debates, e fica como indício da importância da fala na (re)criação dos afetos singulares.

Excetuando-se os diálogos, todos os demais aspectos que mencionamos são como que soterrados pelas obras audiovisuais: tudo que minha própria mente havia criado das deliciosamente difíceis leituras dos Cem Anos de Solidão, a partir da obra literária original são como que confrontados com as recriações feitas pela produção do audiovisual. Até ontem, por tudo que assisti de audiovisual e por tudo que li como obra literária e suas adaptações, havia julgado que somente uma transposição que "testemunhei" contribuiu efetivamente com alguma coisa para o crescimento da obra literária: A insustentável leveza do ser, livro de Milan Kundera, filme de Philip Kaufman (recomendo muito tanto o livro como o filme, mas sugiro que leia essa crônica até o final para decidir a ordem e o tempo a dedicar a esse processo). 

Evitando me repetir sobre a importância da imaginação para o ser humano (onde minha referência principal é mesmo Rudolf Steiner), quero frisar a importância das vivências da infância na contação de histórias como fator de equipamento cognitivo e afetivo, para, a partir daí, fazer o salto direto para a leitura de livros como motor e engrenagem da imaginação humana (que está presente não só no ato de contar, mas também na recepção da contação de histórias, seja na infância, seja na vida adulta). E uma imagem, uma vez vista e elaborada, passa para a categoria de "lembrança". A imagem imaginada, além de passar para "lembrança" depois de anteriormente imaginada, vai sempre precisar passar pela reconstrução imaginativa em seu acesso posterior.

Aí vem o filme e retira de nós a possibilidade imaginativa, fornecendo os elementos perceptivos, sociais e ambientais que fazem as referências para elaboração e construção daquelas imagens, agora praticamente estéreis daquele tipo de imaginação a que me referi antes (a criação da imagem e do quadro imagético cujas raízes procuram o subjetivo e o singular, que por sua vez, procura algo do universal para sua própria referência).

Isso posto, hoje me aconteceu de ver uma obra que abriu-me nova percepção sobre o assunto: a série Cien Años de Soledad, acho que produzida mesmo pela Netflix. Todos os personagens duramente elaborados, confusamente distribuídos ao longo do tempo, meu e do livro, deliciosamente misturados pela repetição pantanosa dos nomes através das gerações, profundamente humanizados em mim em suas aparições, intercursos, ausências, forças e fraquezas, de repente me são servidos assim, inteirinhos na interpretação dos criadores audiovisuais, como que a me roubar minhas recordações latentes, latejantes e lá existentes.

Mas num esforço deliberado para reter as imagens minhas mesmas, produzidas, recriadas e relembradas pelas tantas releituras da obra, (e de certa forma facilitada pelo formato presente de mini série e suas interrupções), achei uma espécie de interstício nas camadas imaginativas. Talvez isso seja comum para algumas pessoas, especialmente as criadoras de conteúdo, talvez não. Mas para mim foi surpreendente -e muito bom- poder reter a imaginação anterior, mesmo vendo a imagem de um novo José Arcádio Buendia, tê-lo em múltiplas versões imaginárias, onde as anteriores não tenham sido completamente soterradas pelas agora fornecidas em excelente qualidade de produção audiovisual. 

Toda essa forma de arqueologia mental deve ser objeto da psicologia e de ainda de outras áreas, e que vou adorar escutar de quem souber e quiser me falar a respeito. Meu ponto aqui é sobre aquele interstício que possibilitou que eu retivesse minha imaginação anterior, mesmo agora vendo o filme. Penso que isso só foi possível para mim pela experiência da leitura pelejada e repetida dessa obra. Não tenho conta das vezes que reli. Nem todas as vezes foram releituras completas (sou chegado a abrir numa página aleatória e ler tantas páginas quanto aprouver, sejam 3 ou 4, sejam 50 ou cem...). Mesmo assim, a sedimentação das imaginações anteriores pareceu se revestir como uma forma de impermeabilização das camadas imaginadas, que como que as protegeu e isolou. Daí as decorrências da pergunta-título: como será o processo dessa impermeabilização para cada um de nós? Quantas repetições de leitura teriam sido necessárias para essa percepção? 

E a partir de agora: será que quero ver uma obra literária transcrita para o audiovisual antes de ler a obra? Quantas vezes? E ainda outras que não param de surgir: quem pode ser, para mim, referência opinativa sobre o tipo de obra que afeta o interstício? E mais, muito mais, que vem à minha mente para esse debate. Vou ficar feliz em encontrar quem se identificou com essas considerações e queira conversar a respeito. Você já leu o livro Cem anos de solidão?