Tuesday, October 20, 2026

ingenuidade, viés e preguiça: uma receita para a tristeza coletiva

Um querido de longa (longuíssima) data, que já havia sido levado pelo bolsonarismo pelo menos desde a época da facada, pela primeira vez num processo eleitoral vem me abordar, aparentemente querendo influenciar em minha decisão da escolha nesse segundo turno das eleições presidenciais de 2026.


caverna da urgeriça, em Portugal. Mina desativada de extração de walfrânio

Fiz como costumo fazer em meu estado maduro: propus debate de ideias, referências consistentes e abertura do coração e da mente para qualquer assunto. O que veio foi vociferação habitual: Lula é ladrão e corrupto, chefe da quadrilha que vem acabando com o país há décadas. Depois manda uma lista dos problemas sociais e políticos onde pensa que a conexão com Lula e de tal clareza que, aparentemente, nem se dá ao trabalho de ler com cuidado. Ali se misturam os problemas dos anões do orçamento e da forma de condução das casas legislativas entre 1999 e 2025 como se o presidente da república fosse realmente o responsável principal daquela caixa de pandora, sem nenhuma conexão histórica nem respeito aos dados e informações que possam suportar um debate elementar de ideias ou convergência de argumentos para a construção de uma plataforma de respeito mútuo e compreensão empática.


marco geodésico ao por do sol, em Portugal. Nesse dia levei meu vizinho para conhecer o local e
tive que ouvir que mudança climática não é e
nunca foi problema (afinal "sempre choveu na Terra")

Logo depois, uma mulher em sua fase madura, que vive com o filho adolescente num teto provido pela família, comida servida ao filho (e a ela mesma) por sua mãe, muitas vezes sem pronunciar nem mesmo um "muito obrigado por isso, mãe", e que diz que não gosta e não discutr política postar um video lá da primeira década dos anos 2000, onde um pastor (um pastor!), cristão (não tenho certeza se católico ou evangélico), cita Lula como patrocinador (e aparentemente único responsável) por um projeto para prestar o serviço de aborto pelo SUS. Esse pastor conclui que se Lula pensa assim, que siga para o quinto dos infernos... Caraca, que forte cena um pastor ocupar um púlpito para desejar e incentivar sua audiência a mandar um presidente eleito pelo povo para o inferno. Nem simbolicamente isso pode ser palatável. A menos que....

Em época de redes sociais e bolhas, cada um vê o que consegue ver, o que deseja ver e, principalmente, o que o algoritmo empurra nas telinhas, misturado com o que sai da telona, mesmo que em franca decadência mercadológica em relação àquelas. Daí retiro o conceito de "bolha" que cada um de nós se insere. Não é conceito meu, mas entendo e referencio em leituras e análises que sei interpretar. E justamente por saber interpretar, busco uma posição de distanciamento respeitoso, não só dos argumentos que são lançados nesse momento, como às pessoas que, estou cem porcento seguro, querem o bem para o país, a nação e o planeta, ainda que não pareçam ter consciência do impacto dessas decisões coletivas em outras coletividades e culturas distintas, como é nosso país gigante e super rico.

Só que nossa riqueza não é (e nunca foi) repartida de forma minimamente igualitária, resultando num país altamente diverso e profundamente desigual. Nós, cidadãos contemporâneos, poderíamos fazer alguma coisa para mudar isso, mesmo que a longo prazo? A vociferação e o comportamento de torcida não ajudam nesse caminho. Nem no controle dos incêndios e no processo de desertificação em curso que parecem não saber ao certo (ou talvez achem que é mesmo "tudo culpa do Lula").


Dolmen da orca, monumento pré-histórico (c. 6000AC), ainda não plenamente compreendido. 

Não tenho estômago e nem alegria em ver meu time de futebol ganhar por erros do juiz. Nem com gol de mão e coisas assim ("la mano de dios"?). E menos ainda paciência com os três aspectos que dão título ao artigo. A ingenuidade poderia até ser perdoada, caso se tratasse de ação com um mínimo de reflexão e desejo genuíno de entender o mundo. Não é isso que observo. Vejo uma ingenuidade preguiçosa e encostada em seu mundinho particular, zero de busca por uma leitura mais variada e mais ampla, sectarismo e mutismo, num caldo de pré depressão semi permanente (que deve ser creditada também ao Lula, claro).

Já o viés assumido, ou seja, repassar malfeitos de um personagem público sem se preocupar se ali está mesmo um condensado baseado em fatos e apurações, isso me entristece e preocupa mais... Aceito bem que tais fatos sejam apurados por alguém de sua confiança, mas preciso das referências e das fontes para que não voltemos à arquibancada pra xingar o juiz... Ratinho como fonte e referência jornalística não dá pra respeitar. Considero que falta um mínimo de respeito por si mesmo e por sua própria capacidade cognitiva e intelectual. Preguiça, talvez? Aculturação algorítmica, talvez? 



uma das muitas, muitas lindas cachoeiras do estado do Espírito Santo. Mas como quase todas
está imunda por contaminação de esgotos, lavouras e dejetos de criação de rebanhos

Penso que essa nossa era será muito estudada no futuro, pela sociedade que deverá re-emergir na Terra após a catástrofe que já quase inevitavelmente irá se abater sobre nós, a começar pelos eventos climáticos extremos já em curso. Mas até mesmo isso não parece tema que possa ser conversado nem com um nem com outro desses interlocutores. Até pouquíssimo tempo atrás negavam que esse processo estivesse em curso. Agora não sei dizer. Vai ver agora pensam que isso também é tudo culpa do Lula....


Monday, September 21, 2026

Reificar a confiança

 Era das IA, fake news e pós lorota... há algum tempo já aparece a tal "pós-verdade" nos textos acadêmicos, mas também penso ser totalmente perceptível para qualquer olhadela cartesiana que a confiança anda abalada... 

O planeta Terra já foi plano como pizza, a vacina vem de não sei onde e contém não sei o que, mas, segundo alguns, melhor se afastar. E aquele episódio do seguro das torres gêmeas ter sido renovado no dia 10 de setembro de 2001 não ajuda mesmo a construir confiança nas narrativas, né não?

Depois, tem os cartórios (invensão de quem, hein?) onde se vai pra conferir a verdade sobre o que está escrito, sendo que alguém assina o selo que eu devo confiar agora? Quem chancela? O chanceler? Ou seja, a confiança que já foi o fio do bigode (machismo da porra), passou por acreditação formal na ISO 9000, palavra de honra e ainda "pergunta lá pra você ver!" agora vai mesmo se restringindo em círculos (mal) concêntricos. 

Digo mal porque há assimetria nesse processo. E assimetria pode ser exatamente o que regula as figurações sociais e as dinâmicas de seus processos principais.

A transição dos valores de confiança do núcleo mais imediato (família, amigos) para os mais amplos (coletividades, nações, empresas) passa por considerações de múltiplas disciplinas. Ética e moral são basares. Não cabe aqui o caminho, mas o atalho, talvez...

Pagar por informações é usual em nossa sociedade capitalista. Definir quais informações pode ser comercializadas e, principalmente, o valor que cada conjunto de informações representa em cada círculo de poder se apoia nos valores éticos e morais de cada sociedade. Mas sendo a nossa sociedade dita capitalista, resume-se ao valor definido pelo mercado, junto com os títulos das dívidas públicas ou privadas e o próprio valor das privadas.

Acrescente-se duas camadas: hipervigilância das zilhões de câmeras espalhadas pelo planeta (registro em vídeo aumenta a confiança? Big brother?) e a crise generalizada das instituições (STF, governo, banco, ONU) e teremos uma interessante receita analítica sobre o equilíbrio da sociedade, das sociedades.

E onde estará a confiança? Aliás, o que significa mesmo confiança?

Terreno da psicologia e da filosofia, que gosto e respeito (e confio, acrescento), precisamos refletir sobre seu significado, usos e decorrências. Mas também terreno das relações sociais, onde representa fator fundamental de qualquer ótica de coesão. No estruturalismo será a cola estrutural propriamente dita, nas práticas sociais regula o padrão que delimita campos e suas entradas, nas ciências políticas talvez seja mesmo seu objeto fundamental. Mas e para o uso imediato, tipo minha atuação no processo de escolha eleitoral?

Acho que estou arranhando a resposta..... 

Friday, September 18, 2026

O foco, o contexto e o singular

 Para qualquer lugar que eu olhe eu vejo mundo... E ao mesmo tempo me vejo.

Me vejo vendo o mundo e o mundo olhando pra mim. Vejo o mundo e espero que o mundo me veja. Mas só às vezes. Em outras espero que o mundo não me veja. E o difícil mesmo é decidir sobre isso... Mas também só às vezes...

No difícil (e longo) processo de me tornar um indivíduo, eu vejo você. Que me alerta para a singularidade ser mais importante do que a individualidade. Semântica, talvez? (por que tudo junto se escreve separado e separado se escreve tudo junto?)

Indivíduo, ainda que fragmentário, quebradiço e espinhoso. Singular, certamente. Mas indivíduo em alguns dos espelhos que me olho. Romper e rejuntar, tarefa do indivíduo em construção )?( 

Singular sim, sempre. Afinal talvez se trate somente de uma manobra discursiva. Afinal singular não deixa brecha pra interpretar. Ou deixa? Já indivíduo me permite redividir e rejuntar, me sentir sem fissuras. Mas só depois de quebrar...

O exercício do foco e do contexto talvez tenha nome, sei não. Análise, interpretação, atenção concentrada, reflexividade, alteridade... Sabendo como o olho funciona fica até interessante pensar nisso: o olho só foca um quadradinho pequenininho, todo o resto é desfocado. Contexto, portanto.

Portanto quando eu foco pego um fragmento: do fato, da luz, do momento, da vida. Sempre somente da minha perspectiva. Mas o contexto, ah, o contexto.... Esse permite viajar em cinco dimensões, fácil, fácil

A transição do foco ao contexto é que contém a vida mental, assim me parece. E cada vez que tento retornar ao foco, muda o contexto. Ou não. Ou serei eu que não percebo? Ou tal Heráclito o rio mudou, mudei eu também 

Sou o que sou. Sou foco e contexto. Sou o que fui e o que serei. Sou o que você permite que eu seja, nesse contexto. Mas sou além, sou foco. Meu e de outrem


foco no fato
fogo fátuo
pego um pego
pego um fato
de fato um pego
um pego fátuo


pego macho


Thursday, April 30, 2026

da sensibilidade social à flexibilidade das instituições

Os conceitos que utilizo aqui estão estabelecidos e dicionarizados, mas ainda assim reconheço que há disputa acerca de suas significações e usos. Podemos fazer um giro sobre nós mesmos e arriscar uma abordagem propriamente institucional sobre isso tudo, nos termos mesmo da linguagem, exatamente na flexibilidade que toda linguagem exige e permite. 


No encontro entre o singular/individual e o coletivo/institucional sempre haverá uma lacuna importante (e inegável geradora de riqueza): ali se aninham a criatividade, a busca pelo singular e sua afirmação, e até a regulação da entrada pessoal para cada coletividade considerada. Porém há brechas institucionais que permitem variadas formas de corrupção ideológica - sendo terreno próprio da ideologia da corrupção que parece permear toda a estrutura do modo capitalista de produção, onde toda a riqueza deve escoar sempre do coletivo ao individuo. 

Até aqui já podemos notar que a flexibilidade que me utilizo para construir a ideia geral provavelmente será (corretamente) criticada com relação ao seu rigor científico e metodológico. Naturalmente que, estivéssemos num artigo acadêmico, eu deveria definir meu uso de cada um dos termos centrais que escolhi. Entretanto entendo que tal rigor também atua na própria construção coletiva de flexibilidade - e seu corolário em forma de travamento, enrijecimento ou endurecimento (todos esses termos como oposição à flexibilidade).

Numa outra entrada possível, a pergunta "como se estabelece os parâmetros de flexibilidade nas relações institucionais de uma sociedade?" pode oferecer perspectivas interessantes nesse debate. Fundamentalmente trata-se de condições dinâmicas, até certo ponto fugazes, diretamente relacionadas com as estruturas de poder e de hierarquia e inexoravelmente decorrentes dos processos sócio-históricos que lhe deram azo. Isso estabelece um grau de complexidade que não só não cabe nesse pequeno artigo, como se dobra sobre si mesmo (novamente) Os processos que refiro também podem ser analisados sob a ótica da suas flexibilidades inerentes, que refletem até certo ponto a própria condição coletiva de flexibilidade de cada instituição social. O dito popular no Brasil "Manda quem pode, obedece que tem juízo" diz muito sobre a variação de flexibilidade na estrutura hierárquica. Igualmente também o celebrado jeitinho brasileiro, indicativo de uso de soluções que se utilizam da flexibilidade sistêmica. Ambos deixam rastros na própria construção de onde explorar a flexibilidade e onde definitivamente não (a isso chamamos também de assumir riscos, mas não pretendo aprofundar mais esse tema aqui).

Cada um de nós, através do processo de socialização - e também em sua genética e biologia, carrega um atributo próprio de flexibilidade, parte de forma consciente e parte inconsciente. A própria dinâmica de reprodução social e reprodução cultural carrega uma parte tão evidente da construção da flexibilidade que parece lhe conter toda. Mas evidentemente que não, posto que as mudanças existem e são possíveis, desde qualquer perspectiva reformista bem contida até toda e qualquer ideia revolucionária que possa existir. Talvez uma espécie de brecha entre àqueles conceitos (singular/individual e coletivo/institucional). Brecha no universo conceitual, pois na vida prática real isso não se delimita materialmente; talvez apenas processualmente.

Decorre então que cada um de nós vai aprendendo a flexibilidade das instituições ao longo de sua experiência da vida, formando e conformando possibilidades, e assim, afetando as instituições de forma dinâmica e variada. As fases da vida tem influência gigante no comportamento individual com relação a isto, bem como a teia de relações sociais e institucionais presentes e/ou percebidas. Aqui entra com força o que chamo de sensibilidade social e seu também corolário: a intolerância. 

Em nossos tempo de algoritmos e inteligência artificial a sensibilidade social, por exempolo no julgamento do que pode ser notícia e o que evidentemente é criação artificial, parece ao mesmo tempo mais frágil do que nunca e também mais plástico e moldável - exatamente sobrepondo o conceito de flexível que utilizo aqui. Decorre da física básica que o frágil não é flexível: frágil se quebra ao ser dobrado, flexível não. Por definição, frágil se relaciona à dureza: quanto mais duro, mais frágil. Onde e como estamos usando dureza e flexibilidade em nossas relações institucionais e individuais?

Como conclusão provisória desse espaço sugiro que estamos transferindo em larga medida as nossas flexibilidades individuais para as instituições, e recebendo delas a exigência de dureza na atuação social (e a consequente fragilidade decorrente). E dessa conclusão tiro ainda o que mais me dói na maturidade: ser duro nas relações imediatas acaba por ser confundido com crueldade e intolerância. E sabemos que as relações imediatas se constroem com flexibilidade e dureza conjugadas e arranjadas em seus padrões individuais e coletivos. 

Se fui duro contigo, espero sinceramente não ter ido pelo caminho da crueldade. Porém considere que, nos tempos que correm, as pessoas podem ter uma tendência maior a não dizer as durezas da vida para salvaguardar relações. Mas isso não agrega flexibilidade a elas - e nem às relações.

Friday, April 24, 2026

o orgânico, o humano e o sustentável

qual o futuro de qualquer presente?


A procura ininterrupta para entender o caminho, sua direção e inevitabilidades é uma artimanha humana cheia de coisas boas e ruins. Observar e participar da humanidade nesse contexto me catapulta e paralisa.

Primeiro porque, sendo humano, poderia então ter sido feito de outra forma. Assim como toda a humanidade, suas relações, gostos e... futuro. Depois, o abismo da singularidade me coloca frente a frente com a borda das demais singularidades, individualidades, coletividades e outras idades, em suas profundidades abissais misteriosas...

Amadurecer, como todo fruto, está inserido num contexto orgânico, que passou pelo florescimento, polinização e preparação. Ciclos que podem ser longos. Frutos que podem ser fartos. E nós mexemos nisso. No ciclo todo, todinho. Será que dá pra ficar sustentável? Mudando a horta ou a rega? O que enfim pode ser sustentável?

O que essa questão tem de provocativa não me interessa aqui. Mas o processo que liga o pensamento conceitual, sua elaboração singular e sua inserção nos coletivos - via de mão dupla por excelência - me lembra uma teia de interrelações sem fim, e que por seus nós pode ser representado pelo equilíbrio dinâmico da sustentação de cada um deles. Sustentável dinamicamente, portanto. Não é sem fim, muito menos moto perpétuo mágico ou misterioso. Sustentável enquanto a teia segue firme, nós se renovam, nós nos renovamos.

À saída pela renovação sobra muita crítica, das fáceis às moralizantes desmoralizáveis, etc. Renovamos dentes, lentes, articulações. Só os ricos, talvez. Daqui a pouco dará pra fazer mais. Daqui a pouco não dá mais... Renovamos? Onde está o ponto?

...

Há coisas que ninguém fala pra você. Socialmente condicionado. Alguns falam coisas que não deveriam ser ditas, ou que poderiam bem ficar na gaveta. Onde se julga isso? Penso que esse julgamento reside exatamente nas singularidades dos pontos daquela rede que preparei como metáfora acima. Cada fala, cada afeto, cada ação ou atitude reflete em cada um dos nós, os endurecendo ou tornando-os mais flexíveis. Tudo na medida do orgânico em que a própria rede se fundamenta. 

Sobra nesse caminho que escolhi o que vou chamar de transitar pelos nós. A sustentação dessa teia está exatamente na qualidade e variedade dos nós onde se liga. Todos nós. Intransitivo. Apresentar o futuro tal Cassandra envolve não só ter visto o futuro, mas falar dele. E a maturidade me faz cassandrear por aí, resultado das muitas tramas que a vida me deu - e de algumas decisões que me permiti. Uma delas é ver com alguma clareza algumas das alavancas que nos permitem pensar e agir pelo amanhã. 

É preciso levar em consideração o contexto inegável da entropia: a energia do universo tende a se dispersar continuamente. E minha ação consciente procura foco e contexto: transitar pelas tramas da vida trocando afetos verdadeiros, buscando contribuir na construção singular e coletiva e alinhar os propósitos declarados às ações deliberadas. Isso inclui assumir alguns riscos de interpretação. Mas eu diria que nunca a ação ou desejo de enfraquecer os mais fracos, muito menos apoiar a chegada de novos poderosos por conluio ou interesse próprio, sejam eles da classe dos benefícios tangíveis ou não.

Transitar pelos nós também trata de revisitar, lubrificar, temperar e revenir o material dos quais são feitos, os nós - e nós. 

Friday, April 17, 2026

Deus versus Gaia

Onipotência versus onibenevolência... Muitas discussões estão emaranhadas aqui, quase todas difíceis, fugazes, além de fronteiriças às condições mais profundas dos debates sobre a razão geral da existência ("porque há algo no lugar do nada?"). Largo e profundo, portanto...

Agora que perdi meu pai, ascender(1) ao seu lugar enquanto referência e ao mesmo tempo observar meus irmãos e irmãs percorrendo seus percursos singulares desvela uma forma de existencialismo tardio que me encanta e assusta simultaneamente. Não sei se estou a criar categoria desnecessária (ou já criada), mas falo da existência precedendo a essência a partir de camadas sucessivas de existências e essências que nos elaboram e liquefazem dentro do cotidiano. E que na maturidade busca novas proporções e alquimias para seguir se constituindo. 

Na maturidade desses tempos confusos, meu existencialismo barato diz que continuo elaborando minha essência a partir da minha existência, porém o psicologismo ainda mais barato assegura que quem sou está igualmente ancorado em quem fui até agora. Nada demais até aqui, além do meu pouco compromisso com o arcabouço conceitual que me dei o direito de baratear.


Ainda não deu tempo de sentir saudades de meu pai, confissão que pode parecer demasiado dura. Mas o medo da morte tangibilizado por seu corpo inerte e sepultado segue me empurrando para uma ação heróica(2) que já não cabe mais em meus horizontes como cabia antes. A ação é a de todo dia - aliás, como sempre foi. Mas meu horizonte mudou - mais uma vez. Além disso o envelhecimento é inexorável e implacável: sinto todo dia uma retirada de energia vital maior do que consigo repor...

Já de minha mãe, Gaia revisitada, sinto imensas saudades. Ainda como confissão: seriam saudades que transcendem em muito a existência singular daquela que me deu à luz. O tipo de saudade de simplesmente saber que aquela pessoa estaria ali, existindo, ainda que acolhimento e ninho para meu próprio crescimento eu não carregue aqui dentro de mim como recordação daquela criatura. Condições da existência social...

E isso tudo não exclui de forma alguma a existência como elaboradora da essência (pelo menos até algumas camadas razoavelmente profundas). Daí que minha existência sempre foi marcada pela observação do gigantesco contraste entre minha mãe e meu pai. Também penso que nada de novo há aqui, senão as peculiaridades do ambiente social produzido pelas decorrências do encontro improvável daqueles dois, e a consequente procriação farta deles.

Escolho então uma perspectiva quase fenomenológica que permita encontrar-me como criança novamente frente ao contraste que aqui usei como título. Um poder que se pretende inquestionável encontrando um amor que se oferece como condição de existência do conjunto. Se Sartre dizia que "o inferno são os outros" Gaia diria que "os outros são a sua condição de existência". Mas... e o inferno, onde é que fica? Creio que pressinto com alguma exatidão onde cada um deles colocava essa resposta. E é quase certo que não era um lugar comum, apesar de ambos escolherem como resposta algum tipo de "lugar comum": o inferno da insuficiência material que a todos nos aflige, versus o inferno do mal absoluto, representado pela ação cruel, pela desatenção seletiva e o risco do desamor. Minha observação conduz inexoravelmente ao conflito valores espirituais x valores do capitalismo, do qual não proponho fuga. Tampouco compreender intelectualmente esse conflito resolve a questão, em qualquer linha de pensamento que eu tenha conhecimento.

Mas se Gaia traz um conforto biológico que o existencialismo de Sartre contorna (a sensação de que pertencemos a algo maior, não por decreto divino, mas por destino biológico), essa condição atravessa e transcende a minha existência singular. E encontro nas minhas relações mais imediatas as novas condições de existência onde sigo produzindo minha essência. Meus irmãos e irmãs, minhas companheiras (atual e passadas), meus amigos e desafetos muito me dizem sobre isso tudo - e sobre mim.

Numa revisitação arqueológica nem tão cuidadosa assim, contemplo mais uma vez a relação de meu pai e minha mãe, segundo as narrativas que me sobraram. Atração e repulsa, yin e yang, poder e amor que poderiam ter se complementado de forma menos turbulenta do que penso que foi. Mas foi o que pôde ser: a existência se fez enquanto a essência escorria no caudal do dia a dia, irrigando e alimentando novas singularidades de forma coletiva, coletivizado até certo ponto. Ou multi individualizado, conforme a escolha de perspectiva. Será que haveria algum caminho diferente para a relação de meu pai com minha mãe?
Agora que ambos se foram a pergunta é totalmente retórica, sabemos. Ao mesmo tempo penso ser base de um importante exercício de aprendizagem. Singular, individual e coletivo, tudo ao mesmo tempo, como convém à interface entre Deus e Gaia

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1. ou ressignificar, ou transcender, ou relativizar, ou simplesmente tomar ciência de que não teremos mais a oportunidade presencial de travar as batalhas pai-filho que nos construiu enquanto existiu

2. ação heróica pelo viés de Ernest Becker em seu Negação da morte (1972)

Saturday, April 11, 2026

A construção coletiva das memórias (ou: quanto tempo leva pra construir um "velho amigo"?)


Old Friends

cantado por Simon and Garfunkel


Old Friends, Old Friends

Sat on their park bench

Like bookends.

A newspaper blow through the grass

Falls on the round toes on the high shoes

Of the Old Friends.


Old Friends

Winter companions,

The old men

Lost in their overcoats,

Waiting for the sun.

The sounds of the city,

Sifting through trees

Settle like dust

On the shoulders

Of the Old Friends.


Can you imagine us

Years from today,

Sharing a park bench quietly?

How terribly strange

To be seventy.

Old friends

Memory brushes the same years

Silently sharing the same fears


Time it was and what a time it was.

It was a time of innocence,

A time of confidences.

Long ago it must be,

I have a photograph,

Preserve your memories,

They're all that's left you.

(tradução lá no final)

O ser humano imagina, e a imaginação pode ser vista como uma espécie de elo que liga o passado ao futuro. Acontece que o futuro não é mais como antigamente*, e parcelas cada vez maiores da população chega a idades avançadas - e com boa memória, previsivelmente.

Cada um (seja indivíduo ou singularidade) vai construindo suas memórias no ambiente social que compartilha, nas famílias e nas aldeias que cresceram absurdamente desde que a luz elétrica se espalhou pelo planeta. Como resultado a construção de memórias vai percorrendo processos que, se não são exatamente inovadores, certamente inclui aspectos inéditos na história humana. Mais camadas, em ritmos cada vez mais acelerados, com assuntos cada vez mais abrangentes e potencialmente mais profundos.

Se imaginarmos essas camadas como estratos compartilhados de memória pelos acontecimentos (locais, regionais ou globais), poderemos ter uma visão de memórias compartilhadas de eventos. E em cada um de nós, levando em consideração ou não o livre arbítrio, nossas memórias estão repletas dos afetos que formaram a parte de nossa história singular, por todo o espectro consciente, sub consciente e inconsciente. 

Os afetos e a história individual do aprendizado sobre eles são elementos fundamentais de nossa singularidade. Daí que os amigos de longa data ("old friends") são testemunhas e referências daquelas camadas que nos fazem ser quem somos, em qualidade, quantidade, profundidade e relevância das memórias compartilhadas.

Duas músicas marcaram minha adolescência no quesito "como serei eu ao ficar velho?": Beatles com When I'm sixty four que me colocava a imaginar minha vida aos 64 anos de idade, (também impulsionada pelo meu ano de nascimento 1964),  e àquela Old friends cantada por Simon and Garfunkel. Em algum momento me dei conta que era preciso definir a diferença entre colega e amigo; e mais ainda: identificar aquelas pessoas que considerava aqui dentro de mim como amigo.

Reconheço que muita coisa mudou daqueles anos 1970/80 pra cá - inclusive eu. Mas me reconheço e me encontro comigo mesmo como partícipe e cocriador desse processo todo, e procuro então os meus velhos amigos - que também mudaram. Ou morreram...

Agora, às raias do tal sixty four, procuro e revejo na minha história quem são meus velhos amigos. E os meus processos de construção disso tudo, incluindo a descontrução de boa parte de alguns desses vínculos. Histórias quase sempre interessantes e também doídas, junto com aqueles que ficaram pelo caminho (Marília, Cláudio, Eduardo, Cunha, Matheus, Osvaldo... saudades e mistérios). Outros foram levados pelos abjetos bolsonaros, trumps & venturas da vida, ó horror. 

Portanto penso que se aproxima a hora de uma revisão afetiva e conceitual importante, cujo resultado talvez contenha o renovado processo auto reflexivo sobre para que estamos nesse mundo? E independente das possíveis respostas, a amizade e o processo dos velhos amigos são não só inescapáveis, como fundamentais no desenrolar da existência de cada um de nós.

Para uma conclusão (mesmo que temporária), resta aquele aspecto que é bom sempre deixarmos reservado, que é a possibilidade de eu considerar alguém um velho amigo e não ser por ele considerado da mesma forma - e vice versa, claro. 

Aos jovens então ofereço com carinho alguns conselhos contidos em Old friends: construa e preserve suas memórias desde sempre: elas serão o que vão restar a vocês. Aos demais, aproveito o clima dos Beatles e pergunto: temos frequentado algum banco de praça pra partilhar nossas lembranças com nossos velhos amigos?

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sobre a origem dessa ideia, Gemini disse: "essa frase é quase centenária e sua autoria original é amplamente atribuída ao poeta e filósofo francês Paul Valéry. Ele escreveu originalmente "Le problème de notre temps est que le futur n’est plus ce qu'il était" (O problema do nosso tempo é que o futuro não é mais o que costumava ser) por volta de 1937

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Velhos amigos


Velhos Amigos

Sentados em seu banco no parque

Como suportes de livros

Um jornal voando na grama

Cai nos cantos redondos dos sapatos

Dos velhos amigos


Velhos amigos

Companheiros de inverno

Os velhos

Perdidos em seus sobretudos

Esperando o sol

Os sons da cidade

Peneirado pelas árvores

Assentando como poeira

Nos ombros

Dos velhos amigos


Você pode nos imaginar

Anos à frente

Compartilhando um banco de jardim em silêncio?

Como é terrivelmente estranho

Ter setenta anos

Velhos amigos

A memória recupera os mesmos anos

compartilhando silenciosamente os mesmos medos


Tempo que se foi, e que tempo que se foi

um tempo de inocência

Um tempo de confidências

E por muito que esteja longe

Eu tenho uma fotografia

Preserve suas memórias

Eles são tudo o que resta pra você