Friday, April 17, 2026

Deus versus Gaia

Onipotência versus onibenevolência... Muitas discussões estão emaranhadas aqui, quase todas difíceis, fugazes e escapadiças, além de fronteiriças às condições mais profundas dos debates sobre a razão geral relacionada à existência ("porque há algo no lugar do nada?"). Largo e profundo, portanto...

Agora que perdi meu pai, ascender(1) ao seu lugar enquanto referência e ao mesmo tempo observar meus irmãos e irmãs percorrendo seus percursos singulares desvela uma forma de existencialismo tardio que me encanta e assusta simultaneamente. Não sei se estou a criar categoria desnecessária (ou já criada), mas falo da existência precedendo a essência a partir de camadas sucessivas de "existências e essências" que nos elaboram e liquefazem dentro do cotidiano. E que na maturidade busca novas proporções e alquimias para seguir se constituindo.

Na maturidade desses tempos confusos, meu existencialismo barato diz que continuo elaborando minha essência a partir da minha existência, porém o psicologismo ainda mais barato assegura que quem sou está igualmente ancorado em quem fui até agora. Nada demais aqui, além do meu pouco compromisso com o arcabouço conceitual que me dei o direito de baratear.


Ainda não deu tempo de sentir saudades de meu pai, confissão que pode parecer demasiado dura. Mas o medo da morte tangibilizado por seu corpo inerte e sepultado segue me empurrando para uma ação heróica(2) que já não cabe mais em meus horizontes como cabia antes. A ação é a de todo dia - aliás, como sempre foi. Mas meu horizonte mudou - mais uma vez. Além disso o envelhecimento é inexorável e implacável: sinto todo dia uma retirada de energia vital maior do que consigo repor...

Já de minha mãe, Gaia revisitada, sinto imensas saudades. Também como confissão: seriam saudades que transcendem em muito a existência singular daquela que me deu à luz. Aquela saudade de simplesmente saber que aquela pessoa estaria ali, existindo, ainda que acolhimento e ninho para meu próprio crescimento eu não carregue aqui dentro de mim precisamente como recordação daquela criatura. Condições da existência social...

Mas isso tudo não exclui de forma alguma a existência como elaboradora da essência (pelo menos até algumas camadas razoavelmente profundas). Daí que minha existência sempre foi marcada pela observação do gigantesco contraste da existência de minha mãe e do meu pai. Também penso que nada de novo há aqui, senão as peculiaridades do ambiente social produzido pelas decorrências do encontro improvável desses dois, e a consequente procriação farta deles.

Escolho então uma perspectiva quase fenomenológica que permita encontrar-me como criança novamente frente ao contraste que aqui usei como título. Um poder que se pretende inquestionável encontrando um amor que se oferece como condição de existência do conjunto. Se Sartre dizia que "o inferno são os outros" Gaia diria que "os outros são a sua condição de existência". Mas... e o inferno, onde é que fica? Creio que pressinto com alguma exatidão onde cada um deles colocava essa resposta. E é quase certo que não era um lugar comum, apesar de ambos escolherem como resposta algum tipo de "lugar comum": o inferno da insuficiência material que a todos nos aflige, versus o inferno do mal absoluto, representado pela ação cruel, pela desatenção seletiva e o risco do desamor. Minha observação conduz inexoravelmente ao conflito religião x valores do capitalismo, do qual não proponho fuga. Porém tampouco compreender intelectualmente esse conflito resolve a questão, em qualquer linha de pensamento que eu tenha conhecimento.

Mas se Gaia traz um conforto biológico que o existencialismo de Sartre nega (a sensação de que pertencemos a algo maior, não por decreto divino, mas por destino biológico), essa condição atravessa e transcende a minha existência singular. E encontro nas minhas relações mais imediatas as novas condições de existência onde produzo minha essência. Meus irmãos e irmãs, minhas companheiras (atual e passadas), meus amigos e desafetos muito me dizem sobre isso tudo.

Numa revisitação arqueológica nem tão cuidadosa assim, contemplo mais uma vez a relação de meu pai e minha mãe, segundo as narrativas que me sobraram. Atração e repulsa, yin e yang, poder e amor que poderiam ter se complementado de forma menos turbulenta do que penso que foi. Mas foi o que pôde ser, a existência se fez enquanto a essência escorria no caudal do dia a dia, irrigando e alimentando novas singularidades de forma coletiva, coletivizado até certo ponto. Ou multi individualizado, conforme a escolha de perspectiva. Será que havia algum caminho diferente para a relação de meu pai com minha mãe?
A pergunta é totalmente retórica, sabemos. Ao mesmo tempo penso ser base de um importante exercício de aprendizagem. Singular, individual e coletivo, tudo ao mesmo tempo, como convém à interface entre Deus e Gaia

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1. ou ressignificar, ou transcender, ou relativizar, ou simplesmente tomar ciência de que não teremos mais a oportunidade presencial de travar as batalhas pai-filho que nos caracterizava

2. ação heróica pelo viés de Ernest Backer em seu Negação da morte (1972)

Saturday, April 11, 2026

A construção coletiva das memórias (ou: quanto tempo leva pra construir um "velho amigo"?)


Old Friends

cantado por Simon and Garfunkel


Old Friends, Old Friends

Sat on their park bench

Like bookends.

A newspaper blow through the grass

Falls on the round toes on the high shoes

Of the Old Friends.


Old Friends

Winter companions,

The old men

Lost in their overcoats,

Waiting for the sun.

The sounds of the city,

Sifting through trees

Settle like dust

On the shoulders

Of the Old Friends.


Can you imagine us

Years from today,

Sharing a park bench quietly?

How terribly strange

To be seventy.

Old friends

Memory brushes the same years

Silently sharing the same fears


Time it was and what a time it was.

It was a time of innocence,

A time of confidences.

Long ago it must be,

I have a photograph,

Preserve your memories,

They're all that's left you.

(tradução lá no final)

O ser humano imagina, e a imaginação pode ser vista como uma espécie de elo que liga o passado ao futuro. Acontece que o futuro não é mais como antigamente*, e parcelas cada vez maiores da população chega a idades avançadas - e com boa memória, previsivelmente.

Cada um (seja indivíduo ou singularidade) vai construindo suas memórias no ambiente social que compartilha, nas famílias e nas aldeias que cresceram absurdamente desde que a luz elétrica se espalhou pelo planeta. Como resultado a construção de memórias vai percorrendo processos que, se não são exatamente inovadores, certamente inclui aspectos inéditos na história humana. Mais camadas, em ritmos cada vez mais acelerados, com assuntos cada vez mais abrangentes e potencialmente mais profundos.

Se imaginarmos essas camadas como estratos compartilhados de memória pelos acontecimentos (locais, regionais ou globais), poderemos ter uma visão de memórias compartilhadas de eventos. E em cada um de nós, levando em consideração ou não o livre arbítrio, nossas memórias estão repletas dos afetos que formaram a parte de nossa história singular, por todo o espectro consciente, sub consciente e inconsciente. 

Os afetos e a história individual do aprendizado sobre eles são elementos fundamentais de nossa singularidade. Daí que os amigos de longa data ("old friends") são testemunhas e referências daquelas camadas que nos fazem ser quem somos, em qualidade, quantidade, profundidade e relevância das memórias compartilhadas.

Duas músicas marcaram minha adolescência no quesito "como serei eu ao ficar velho?": Beatles com When I'm sixty four que me colocava a imaginar minha vida aos 64 anos de idade, (também impulsionada pelo meu ano de nascimento 1964),  e àquela Old friends cantada por Simon and Garfunkel. Em algum momento me dei conta que era preciso definir a diferença entre colega e amigo; e mais ainda: identificar aquelas pessoas que considerava aqui dentro de mim como amigo.

Reconheço que muita coisa mudou daqueles anos 1970/80 pra cá - inclusive eu. Mas me reconheço e me encontro comigo mesmo como partícipe e cocriador desse processo todo, e procuro então os meus velhos amigos - que também mudaram. Ou morreram...

Agora, às raias do tal sixty four, procuro e revejo na minha história quem são meus velhos amigos. E os meus processos de construção disso tudo, incluindo a descontrução de boa parte de alguns desses vínculos. Histórias quase sempre interessantes e também doídas, junto com aqueles que ficaram pelo caminho (Marília, Cláudio, Eduardo, Cunha, Matheus, Osvaldo... saudades e mistérios). Outros foram levados pelos abjetos bolsonaros, trumps & venturas da vida, ó horror. 

Portanto penso que se aproxima a hora de uma revisão afetiva e conceitual importante, cujo resultado talvez contenha o renovado processo auto reflexivo sobre para que estamos nesse mundo? E independente das possíveis respostas, a amizade e o processo dos velhos amigos são não só inescapáveis, como fundamentais no desenrolar da existência de cada um de nós.

Para uma conclusão (mesmo que temporária), resta aquele aspecto que é bom sempre deixarmos reservado, que é a possibilidade de eu considerar alguém um velho amigo e não ser por ele considerado da mesma forma - e vice versa, claro. 

Aos jovens então ofereço com carinho alguns conselhos contidos em Old friends: construa e preserve suas memórias desde sempre: elas serão o que vão restar a vocês. Aos demais, aproveito o clima dos Beatles e pergunto: temos frequentado algum banco de praça pra partilhar nossas lembranças com nossos velhos amigos?

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sobre a origem dessa ideia, Gemini disse: "essa frase é quase centenária e sua autoria original é amplamente atribuída ao poeta e filósofo francês Paul Valéry. Ele escreveu originalmente "Le problème de notre temps est que le futur n’est plus ce qu'il était" (O problema do nosso tempo é que o futuro não é mais o que costumava ser) por volta de 1937

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Velhos amigos


Velhos Amigos

Sentados em seu banco no parque

Como suportes de livros

Um jornal voando na grama

Cai nos cantos redondos dos sapatos

Dos velhos amigos


Velhos amigos

Companheiros de inverno

Os velhos

Perdidos em seus sobretudos

Esperando o sol

Os sons da cidade

Peneirado pelas árvores

Assentando como poeira

Nos ombros

Dos velhos amigos


Você pode nos imaginar

Anos à frente

Compartilhando um banco de jardim em silêncio?

Como é terrivelmente estranho

Ter setenta anos

Velhos amigos

A memória recupera os mesmos anos

compartilhando silenciosamente os mesmos medos


Tempo que se foi, e que tempo que se foi

um tempo de inocência

Um tempo de confidências

E por muito que esteja longe

Eu tenho uma fotografia

Preserve suas memórias

Eles são tudo o que resta pra você

Sunday, March 22, 2026

Proporções & contrastes: síndrome de Poliana, ou quando acho que já não tenho mais como ajudar você

Como quase todos nós, eu classifico o mundo. Há uma divisão quase sempre muito bem definida em meu campo de visão: tem os mais altos do que eu, os outros são mais baixos; tem os mais leves do que eu, os outros são mais pesados; tem os mais ricos do que eu, os outros são mais pobres...

Entrada provocativa para a perspectiva de riqueza que quero evidenciar. Para o presente caso escolho trabalhar com o conceito de empoderamento (ou seja, ganho de poder), que em nossa sociedade capitalista fica quase que sempre circunscrito na questão econômico-financeira. Reconheço a relevância dessa questão até para nosso uso aqui; mas mais do que isso, eu busco a transcendência do poder para ultrapassar a linha do "eu posso ajudar você", mais do que pela doação de alguma grana, ou ainda pela sinalização de que posso ajudar você caso você precise (afinal as propagandas dos bancos há muitos anos se posicionam nesse lugar: um banco amigo, que vai te ajudar nos momentos difíceis - a que custo, hein?).


A+B: quase sem perceber eu ando pelo mundo vendo com olhos de como eu poderia ajudar aquela pessoa? Percebo claramente um grupo bastante grande que não precisa de minha ajuda, aí incluídos os que não querem minha ajuda; tem os que consideram que eu não tenho como os ajudar, e tem ainda os que não aceitam ajuda de ninguém (ou pelo menos não pedem ajuda nunca, talvez pelo medo do efeito "custo do banco" nas relações sociais ultra individualizadas de nosso tempo). Porém ainda assim me percebo num conjunto de pessoas cuja proporção ao conjunto da humanidade está na posição de privilégio intenso: me sinto com poder de ajudar uma parcela enorme da população - seja da minha cidade, do meu bairro, do mundo... Mas consigo realizar muito pouco no dia a dia, além do elementar e essencial do ser cordial e de limpar o canto que sujou, o que não é e nunca foi ajudar alguém.

...

Agora  quero retirar todo o aspecto material mais direto (não se trata mais de emprestar, ou mesmo dar algum dinheiro). Quero concentrar nas ajudas que fazem parte do que eu chamo de a parte mais nobre da teia de relações sociais: as contribuições positivas que recebi de você - e de quase todos os demais - com quem cruzei e convivi esses anos todos. E que busquei repartir irmãmente, como dizia minha mãe.

Daí eu retorno às proporções que iniciei esse texto. Tenho três irmãos e três irmãs, assim como meus irmãos. Porém minhas irmãs já não tem a mesma sorte proporcional. Todos e todas nasceram antes de mim, e portanto a idade já poderia nos unir mais do que separar. Mas tentar ajudar a todos se perde na balbúrdia infeliz do que, ao invés de se consolidar como um coletivo, se estilhaça a cada nova tentativa, em sete mil pedaços de singularidades travestidas de individualidades....

E seguindo nas proporções: nunca antes no mundo houve uma proporção tão grande de "mais velhos" do que mais novos: idosos e anciões agora são bastante comuns, alguns com cuidadores, outros não, mas sempre a necessitar de algum tipo de ajuda da coletividade, uns mais do que eu, outros menos. Eu ainda sigo tentando ajudar a quem reconheço com necessidade, e onde me sinto com alguma competência. Mas não tem sido fácil.

Por esses dias me invadiu novamente uma sensação bem desconfortável, que faz parte do título desse texto: apesar de já ter tentando muitas vezes, agora sinto que não tenho mais como ajudar você. Mas diferente das outras vezes, dessa vez eu não me conformei. Mantive essa sensação fermentando dentro de mim, tentei trocar percepções com minha amada, matutei... Na tentativa de explicar, elaborei exemplos e alternativas, condições específicas e gerais, planos mirabolantes e conceitos psicológicos, autonomização e interdependências, utopias e distopias.

Cheguei talvez na "tríplice fronteira" do sistema eu-tu-mundo, onde as relações apresentam alguma coisa que pode se parecer com o que acontece no núcleo atômico: há uma poderosa força de atração que nos mantém juntos. Porém nas pequenas escalas dos núcleos singulares, há também a força de repulsão que é até bem mais conhecida: cargas de mesmo sinal se repelem. 


Nessa escala talvez a pergunta "como posso ajudar você hoje?" não só não faz sentido, como já modula até mesmo a força de repulsão, tornando a ajuda não só improdutiva, como muitas vezes contraproducente. Ou pior: se limitando ao (potencialmente) horroroso reducionismo do "será que dinheiro ajudaria?" 


Para encerrar escolhi a imagem da flauta e do chapéu na beira de um rio (no Caraça!), para simbolizar através da música a minha gratidão ao mundo pelas ajudas todas que recebi. Talvez não tenha sido de você de forma direta, talvez eu esteja enganado. Mas foram tantos e tantos os apoios que tive para que hoje eu possa dizer "eu toco flauta" que minha gratidão se expande ao infinito... Até encontrar aquela fronteira da minha dificuldade em poder ajudar você. 

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mandalas feitas em papel maché, e pintadas por Míriam Leite 

Thursday, January 1, 2026

Controle Social: algumas considerações iniciais

O cerne do meu tema de pesquisa acadêmica era(?) controle social. Porém, como em muitas outras ocasiões em minha vida, o que me parecia de significado óbvio, se mostrou não só dúbio, como multivariado em perspectivas e pontos de vista. Agora me concentro somente na expressão "controle social".

Desde então venho aguardando oportunidades de reflexões (se possível coletivas), para o encaixe da relevância do meu tema dentro da vida social que levo. Expressões como "pânico moral", "polarização na política" e "comportamento de manada" são de uso quase corrente, e na perspectiva que busco, podem ser consideradas como partes inerentes de controle social. É necessário que se ressalte logo a distinção que faço no uso dessa expressão com outros contextos, como por exemplo em controle social dos meios de comunicação, cuja característica principal seria o resultado de uma ação social coordenada até a condição de controle. Inequivocamente são interligadas, mas prefiro diferenciar esses significados, na esperança de evitar ambiguidade de interpretação, especialmente nos reinos da semiologia e da ideologia.

Dentro do recorte que estudo controle social se refere ao conjunto de mecanismos que ordenam e enquadram o comportamento de indivíduos e grupos sociais em suas atuações distintas, com seus limites explícitos ou tácitos, as sanções -leves ou pesadas- às condições de desvio, reguladas pelos núcleos sociais que participam. Uma certa tecnicidade inevitável(?), pois agora pretendo cair dentro dos assuntos sem dó nem piedade...


A) um breve olhar para o sistema carcerário comparado: Foucault, Goffman, os doidos e os pretos brasileiros em tempo pós Bolsonaro

Alguns filmes dos países ditos do primeiro mundo passaram a conter episódios onde os protagonistas cumpriram algum (usualmente pouco) tempo na prisão. Descontando todos os fatos subjacentes, e em especial os critérios que podem levar pessoas à prisão por pouco tempo, esses protagonistas retornam ao convívio social com problemas sérios (já os tinham antes da prisão, quase sempre). Mas retornam e são pessoas "retratáveis" pelo filme, em seu ajuste / desajuste social histórico e peculiar.

As prisões brasileiras seguem cada vez mais abarrotadas de pobres, em sua grande maioria pretos, que nem julgados foram. Uma parcela enorme destes foram enquadrados ou por pequenos furtos ou tráfico de drogas de pouca monta.

Nesse brevíssimo recorte, como o mecanismo de supressão da liberdade (prisão) atua como ferramenta de controle social em duas sociedades distintas como, digamos, Brasil e Portugal?

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B) a evolução do sistema de classificação indicativa das produções audiovisuais desde a segunda metade do séc XX

Eu era criança e a ditadura exigia um certificado de classificação pelo então "departamento de censura", que era o orgão que decidia não só a faixa etária do que era permitido ou proibido, e fazia parte de um sistema onde até mesmo se o produto audiovisual poderia ser exibido (e no extremo, se seus autores seriam interrogados, torturados ou mortos!). 

O Brasil mudou um bocado. A ditadura militar chegou ao fim, tivemos uma nova constituição federal. A produção audiovisual evoluiu, proliferou e globalizou relativamente: a Índia foi - não sei se ainda é - a maior produtora de títulos para exibição, cuja disseminação para outros países é limitada pela cultura e também pelo idioma. Netflix tornou-se senão a maior certamente uma das maiores produtoras de conteúdo do planeta. E ajudou a padronizar a faixa superior esquerda da tela com as referências ao conteúdo do que deve ser regulado pela audiência no controle do que será exibido e assistido.



Friday, August 8, 2025

“sabe dos riscos?”

Num vídeo curto de uma pessoa um pouco agitada que recebi recentemente surge a pergunta "seu filho de treze anos sabe dos riscos que corre nas ruas?". Nesse ponto muitas considerações se faz necessário.


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Aquele vídeo curto pregava, curto e grosso, a obediência do adolescente ao seu tutelar responsável, atenção e cumprimento de regras, etc Sendo uma simplificação bastante rápida, nem quero entrar aqui agora no conceito de “controle social” e nem na pedagogia em si, (tão maltratada, coitada!), posto que ambos abrem uma das brechas preferidas da contemporaneidade, que é a da ideologia. Já ideologia é um conceito e uma ideia que eu gosto de transitar com alguma tranquilidade... Mas simplificar a resposta por "subordinação" me lembra bem a expressão “um tiro no próprio pé”, pois a adolescência implica em uma condição (necessária até) da exploração aos limites (no caso, limites corporais, sociais, intelectivos, afetivos, etc). 

No campo da pedagogia, creio que necessitamos sim debater educação, até de forma permanente, e especialmente sob a ótica de uma educação coletiva de forma mais ampla, completa e amorosa. E pensando assim, confesso uma parte acanhada de mim que passa a maioria absoluta do tempo pensando e buscando agir como educador (seja lá o que isso possa representar aqui, ou no mundo – portanto de cunho social por excelência).

Falamos da educação e da adolescência. Faltam risco, comunicação e ideologia, certo?

Os riscos na adolescência são, de certa forma, mais relacionados com as incertezas do que risco genérico. E incertezas de naturezas diversas e em mudanças específicas não convergentes: o meio ambiente em que cada um transita, o mix contemporâneo do mundo virtual com as realidades subjacentes, os algoritmos e seus impactos imediatos, controle da comunicação não só pelos poderosos, mas também e até que ponto desconhecido, pelos próprios algoritmos em si e seus comparsas das big techs... Ou por outro lado: os atuais riscos da adolescência não serão melhor mitigados pelo aumento da subordinação aos adultos. Urge nova organização e, principalmente, compreensão sobre esses riscos e seus impactos sociais no mundo conectado. Aqui eu paro de falar sobre riscos, para não arriscar ficar chato demais....


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Agora vou buscar um ponto de conexão entre a situação presente (de receber uma mensagem como video curto – ou no caso, uma quase enxurrada deles) e o próprio assunto trazido pela pessoa agitada, que era, agora de forma estruturada, a condição dos adolescentes em relação aos riscos aos quais eles e elas estão expostos nas ruas de hoje em dia.

Trazer um assunto, qualquer assunto, e em qualquer meio ou mídia, sem uma abordagem crítica, pode até ajudar pelas possíveis novas informações e dados, mas pode também, ao mesmo tempo, confundir e atrapalhar. Nos dias de hoje, no mínimo tirando nosso tempo e inundando nossas mentes com informação que nem conseguimos processar direito. Essa é também uma das formas de embotar nossa capacidade crítica sobre qualquer coisa: inunda de informação, mistura verdade com causos e opiniões, tempera bem com a proporção de medo que o motivo pede (e os interessados possam e queiram pagar). Daí o medo passa a fazer reflexivamente parte dos próprios riscos que descreve, procura alertar e mitigar. E o medo é um afeto importante, mas totalmente deformado exatamente pela estrutura dos riscos que nas sociedades contemporâneas, se configuram e são propagandeados com diversos interesses misturados – numa mistura muito peculiar como alavanca de lucro inerente ao modo de produção capitalista.

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E deixando para depois o momento de teorizar sobre os riscos, penso que, de certa forma, é exatamente a evolução da dimensão crítica que poderia ser talvez a melhor resposta para a pergunta original ("sabe dos riscos?"). E assim penso ter chegado ao último ponto dos pensamentos de hoje: a ideologia dominante e aspectos de nosso comportamento social. Com frequência eu me pergunto o quão suscetível alguém precisa ser para abraçar (e seguir abraçando) a causa do terraplanismo? Ou negar com veemência os indícios e fatos relacionados ao aquecimento global e sua conexão com insegurança climática e aceleração dos eventos de catástrofe de “causas naturais”?

Por ideologia, então, adoto a abordagem do Karl Mannheim: ideologia como produto das condições sociais e históricas, com características que tanto podem ser manipuladas para conduzir a ordem social vigente, como para possibilitar sua transformação. Na obra de Mannheim, dentro desse contexto, situam-se ainda a utopia, a construção de uma (ou mais) visão(ões) de mundo, e o princípio de que o conhecimento é situado, ou seja, é sempre condicionado pela posição social e histórica dos indivíduos que o produzem. 

Para lidar com essas complexidades das sociedades contemporâneas, respeitando valores como liberdade e respeito ao ser humano, será indispensável o amadurecimento de um senso crítico, entendido como a capacidade de filtrar e avaliar com alguma rapidez as informações que nos chegam, bem como questionar sua origem e, sempre que possível, avaliar se tem alguém interessado em ganhar alguma coisa no circuito onde as informações circulam. Daí somente depois de um “intervalo crítico”, decidir e proceder ao compartilhamento nos fóruns adequados ao nível crítico possível de cada mensagem.

Se trouxermos isso para a vida cotidiana, o “pensamento crítico” não é apenas desconfiar de informações ou ideias, mas reconhecer o pano de fundo histórico e relacional que molda até mesmo o modo como pensamos. É um exercício de perceber que o “óbvio” é quase sempre produto de um processo social longo — e que o próprio ato de criticar está inserido nessa teia.

Não será fácil. Mas penso ser mesmo o caminho para um equilíbrio qualquer no futuro. E quem sabe menos riscos para o mundo, para nossos adolescentes e nossos anciãos. Ou pelo menos que tais riscos restantes sejam mais interessantes, não é?


Monday, June 9, 2025

Fluxo: o relativo, o ralativo e...

 na luta pela existência singular, mas também na luta pelo mundo melhor que possa revestir nossa vida no planeta, me encontro mais uma vez com o termo fluxo de caixa....

O conceito está solidamente ancorado na economia: trata-se de uma visão analítica e descritiva sobre tudo o que entra e tudo o que sai no processo da vida econômica de uma entidade. Daí estabelece-se alguns critérios fundamentais sobre a continuidade da vida em análise: será sustentável se ao longo do tempo sair menos do que entra, possibilitando poupança, investimento e também segurança para os tempos bicudos vindouros.

Para viver no mundo que vivo, preciso estar atento ao meu fluxo de caixa, com as expectativas que me incorporam, meus compromissos assumidos, meus desejos e medos, etc. Tudo relativo a todas as minhas relações com o mesmo mundo em que vivo (e também bastante ralativo, posto que há contato, e havendo contato, há atrito...)

Fico muito impressionado ao tentar entender o jeito como as pessoas que convivo tratam seus dinheiros. E me impressiona ainda mais pensar no recorte social que se faz ao pensarmos em todas as pessoas do mundo sob a ótica de quem tem / quem  não tem uma reserva de poupança na vida.

E por conta disso, acabei pensando que o fluxo tem muitas outras camadas e significados. Dentre esses todos possíveis, pensei também no fluxo dos afetos que nos perpassam todos os dias, todos os momentos, em todas as nossas relações...

Daí cheguei ao que talvez seja o ponto de encontro disso aqui: o fluxo da caixa toráxica! Cuide bem do seu e daqueles das suas relações!

Wednesday, May 28, 2025

Consciência dos Riscos

Tempo passado e tempo futuro
Permitem apenas um pouco de consciência.
Estar consciente não é estar no tempo
Mas somente no tempo pode o momento no roseiral,
O momento no caramanchão com a chuva batendo,
O momento com as correntes de ar e as fumaças na igreja.
Ser lembrado; envolvido com passado e futuro.
Somente através do tempo o tempo é conquistado. 
T.S.Eliot 1935


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Um semestre de volta ao cotidiano no Brasil, e já me pego em alguns momentos de meditação sobre as diferenças e semelhanças da vida cá e lá. Não tem sido um exercício fácil, uma vez que isso envolve uma grande complexidade de fatores. E ainda mais: além do desafio da comparação estruturada entre duas culturas com imbricações profundas (Brasil e Portugal, no caso),  a própria dinâmica da relação entre essas duas culturas parece seguir aumentando tanto em complexidade, como em velocidade de transformação. Pense nisso...

local: gruta que chora. (eu também!)

O ambiente social que me sinto retornando nesse ano de 2025 tem como um dos alicerces o contínuo embate entre o direito de matar e o direito de viver*. Ainda que bastante simplificado, pode-se ver isso no conteúdo midiático a praticamente qualquer hora, qualquer dia. E num recorte também simplificado, podemos rapidamente notar o quanto as preocupações e os medos do cotidiano atuam na conformação das sociedades. 

Pronto: acho que montei uma moldura razoável onde pretendo pintar o quadro da "consciência dos riscos"

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1) Durante a infância (além dos riscos estritamente biológicos, genéticos, etc), nossos riscos são os que passam pelos filtros dos nossos cuidadores. Seu conteúdo é representado tanto pelo que fica retido nesses filtros, como pelo que passa através deles. Toda sorte de riscos permeia o processo de individuação das singularidades existenciais, desde as doenças autoimunes às contagiosas, os riscos do ambiente - imediatos ou globais, os riscos de perda dos afetos e de pertencimento, etc, e ainda a imensa gama dos riscos que os jogos e seu aprendizado nos proporcionam enfrentar, conscientemente ou não.

2) A adolescência marca a transição daquele filtro dos riscos, paulatinamente para o cuidar de si, sendo mesmo um fator chave no processo de autonomização: o adulto em preparação deve ser o próprio regulador dos riscos que participa, cria e assume. Isso se aplica tanto em sua singularidade e vida individual como, principalmente, em todas as coletividades que integra. 

3) Enfim, o agora adulto vai ser o agente social que vive os riscos no seu dia a dia: suas relações imediatas do cotidiano, suas fragilidades pessoais, suas necessidades de exposição e conquistas, etc. A atuação singular aqui poderá ser tão variada como o são cada singularidade humana, e isso já se amplia para um quadro demasiadamente complexo... 

Contudo eu acredito que podemos traçar um painel sobre a consciência que cada singularidade desenvolve sobre os riscos que participa. Certamente falo de um painel dinâmico, multifacetado e bastante complexo. 

Risco já se encontra bastante complexificado nas ciências sociais. A fronteira com a psicologia e outras ciências humanas certamente acrescenta ainda mais complexidade. Porém ao mesmo tempo oferece uma possibilidade de conexão dita ontológica (com ontologia aqui quero referir ao estudo e definição do que existe e do que é real; portanto encampa tanto o ambiente da existência social como o potencialmente vasto mundo interior de cada singularidade). 

Sentenças como "correr um risco calculado" ou "fazer o exame de risco cirúrgico" se integram ao cotidiano com significados tão imediatos para cada um, que dão a impressão de compreensão íntima e não ambígua. Mas a ambiguidade está pronta para se espalhar, tanto para dentro de cada um (endógeno) como para cada ambiente social onde aparece. 

Sobre o que chamei de endógeno não pretendo adentrar agora, pois penso ser assunto da psicologia: o que se entende por correr riscos, onde isso encontra meus medos, etc. Entretanto - e aqui mora o perigo! - exatamente na fronteira desse endógeno com os ambientes sociais é onde se processa boa parte dos fatores que alimentam, atenuam, evidenciam ou mitigam os riscos a que estamos sujeitos.

Tanto há para desenvolver a partir daqui que me sinto ao mesmo tempo motivado a seguir construindo (um livro?), mas também acanhado por ser um campo multidisciplinar em que tenho pouca bagagem para me apoiar. O que gosto mesmo é de pensar junto e de elaborar isso na fronteira mesmo do singular ao coletivo. 

Onde será que isso vai dar...?