No encontro entre o singular/individual e o coletivo/institucional sempre haverá uma lacuna importante (e inegável geradora de riqueza): ali se aninham a criatividade, a busca pelo singular e sua afirmação, e até a regulação da entrada pessoal para cada coletividade considerada. Porém há brechas institucionais que permitem variadas formas de corrupção ideológica - sendo terreno próprio da ideologia da corrupção que parece permear toda a estrutura do modo capitalista de produção, onde toda a riqueza deve escoar sempre do coletivo ao individuo.
Até aqui já podemos notar que a flexibilidade que me utilizo para construir a ideia geral provavelmente será (corretamente) criticada com relação ao seu rigor científico e metodológico. Naturalmente que, estivéssemos num artigo acadêmico, eu deveria definir meu uso de cada um dos termos centrais que escolhi. Entretanto entendo que tal rigor também atua na própria construção coletiva de flexibilidade - e seu corolário em forma de travamento, enrijecimento ou endurecimento (todos esses termos como oposição à flexibilidade).
Numa outra entrada possível, a pergunta "como se estabelece os parâmetros de flexibilidade nas relações institucionais de uma sociedade?" pode oferecer perspectivas interessantes nesse debate. Fundamentalmente trata-se de condições dinâmicas, até certo ponto fugazes, diretamente relacionadas com as estruturas de poder e de hierarquia e inexoravelmente decorrentes dos processos sócio-históricos que lhe deram azo. Isso estabelece um grau de complexidade que não só não cabe nesse pequeno artigo, como se dobra sobre si mesmo (novamente) Os processos que refiro também podem ser analisados sob a ótica da suas flexibilidades inerentes, que refletem até certo ponto a própria condição coletiva de flexibilidade de cada instituição social. O dito popular no Brasil "Manda quem pode, obedece que tem juízo" diz muito sobre a variação de flexibilidade na estrutura hierárquica. Igualmente também o celebrado jeitinho brasileiro, indicativo de uso de soluções que se utilizam da flexibilidade sistêmica. Ambos deixam rastros na própria construção de onde explorar a flexibilidade e onde definitivamente não (a isso chamamos também de assumir riscos, mas não pretendo aprofundar mais esse tema aqui).
Cada um de nós, através do processo de socialização - e também em sua genética e biologia, carrega um atributo próprio de flexibilidade, parte de forma consciente e parte inconsciente. A própria dinâmica de reprodução social e reprodução cultural carrega uma parte tão evidente da construção da flexibilidade que parece lhe conter toda. Mas evidentemente que não, posto que as mudanças existem e são possíveis, desde qualquer perspectiva reformista bem contida até toda e qualquer ideia revolucionária que possa existir. Talvez uma espécie de brecha entre àqueles conceitos (singular/individual e coletivo/institucional). Brecha no universo conceitual, pois na vida prática real isso não se delimita materialmente; talvez apenas processualmente.
Decorre então que cada um de nós vai aprendendo a flexibilidade das instituições ao longo de sua experiência da vida, formando e conformando possibilidades, e assim, afetando as instituições de forma dinâmica e variada. As fases da vida tem influência gigante no comportamento individual com relação a isto, bem como a teia de relações sociais e institucionais presentes e/ou percebidas. Aqui entra com força o que chamo de sensibilidade social e seu também corolário: a intolerância.
Em nossos tempo de algoritmos e inteligência artificial a sensibilidade social, por exempolo no julgamento do que pode ser notícia e o que evidentemente é criação artificial, parece ao mesmo tempo mais frágil do que nunca e também mais plástico e moldável - exatamente sobrepondo o conceito de flexível que utilizo aqui. Decorre da física básica que o frágil não é flexível: frágil se quebra ao ser dobrado, flexível não. Por definição, frágil se relaciona à dureza: quanto mais duro, mais frágil. Onde e como estamos usando dureza e flexibilidade em nossas relações institucionais e individuais?
Como conclusão provisória desse espaço sugiro que estamos transferindo em larga medida as nossas flexibilidades individuais para as instituições, e recebendo delas a exigência de dureza na atuação social (e a consequente fragilidade decorrente). E dessa conclusão tiro ainda o que mais me dói na maturidade: ser duro nas relações imediatas acaba por ser confundido com crueldade e intolerância. E sabemos que as relações imediatas se constroem com flexibilidade e dureza conjugadas e arranjadas em seus padrões individuais e coletivos.
Se fui duro contigo, espero sinceramente não ter ido pelo caminho da crueldade. Porém considere que, nos tempos que correm, as pessoas podem ter uma tendência maior a não dizer as durezas da vida para salvaguardar relações. Mas isso não agrega flexibilidade a elas - e nem às relações.







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