A morte de José Arcadio Buendía (no livro), com a intenssíssima chuva de flores que se seguiu sobre Macondo, em meu íntimo como que multiplicou a morte, não exatamente em quantidade, mas especialmente em qualidade.
A enxurrada de notícias e novidades da era midiática parece ter arrefecido as conversas sobre a série Cem Anos de Solidão, e em especial, para mim, sobre as críticas comparativas ao texto do Garcia Marquez. Alias, ainda não vi comentarios sobre o personagem Marquez (coronel Gerineldo Marquez, valente e sensível, apaixonado por Amaranta na maturidade).
O "museu de grandes novidades" contemporâneo, que já escanteou o próprio Cazuza para um passado quase remoto, incorpora a obra audiovisual do livro norol das produções recentes. De minha parte eu gostaria de saber o alcance da série no aspecto comparativo entre os que haviam lido o livro antes e os que enfrentavam a história como novidade (ou seja, não conheciam previamente o texto). Meu avô dizia que um bom livro se lia primeiro a cavalo (como num trote, de forma rápida), e depois, com mais vagar, fazendo uma leitura a pé, parando para ver a vista sempre que desejar. Assim a ansiedade de saber onde a história vai dar cede espaço para a degustação do caminho e das sutilezas que podem ser encontradas.
Eu venho andando pelas sendas do livro novamente. Degustação fina. Quase um tapa com luva de pelica na enxurrada midiática que mencionei acima. Não se degusta nada correndo (a não ser, talvez, o próprio ato de correr). E esse pensamento me trouxe outra obra emblemática, de peso equivalente: Mal estar na cultura, Freud (1930). Nos aproximamos dos cem anos de lançamento dessa segunda obra, e seu conteúdo parece tão atual (e mal digerido socialmente) quando deve ter sido à época. Em terceira releitura, é igualmente uma degustação fina, ainda que de outra espécie e safra. Cada parágrafo tem conteúdo e precisão, objetivo e propósito, e sem empolação alguma que dificulte seu entendimento. Apenas densidade e urgência que a maturidade de Freud (com 74 anos de idade) precisava como que exalar, numa espécie de consolidação superficial de suas observações sobre a sociedade daqueles indivíduos (com licença e apud Norbert Elias).
Tanta coisa pra ler, tanto video pra assistir, e eu aqui, querendo caminhar lentamente por obras centenárias... Então ao revisitar a ligação dessas obras, e estabeleço outras tantas ligações: o centenário de meu pai e seu sistema de aprendizado pela perda; minha Macondo de todo dia, aqui ou em solo velho europeu, com suas guerras e fuzilamentos quase pueris; as estratégias humanas de fuga ao medo da finitude que a tudo perpassa; e, finalmente, Beto Guedes & Ronaldo Bastos numa obra que aprecio muito: O sal da terra, que contém uma visão de mundo maravilhosa (na ingenuidade própria da época de sua feitura) e tem um trecho assim:
"Vamos precisar de todo mundo,
Pra banir do mundo a opressão,
Para construir a vida nova,
Vamos precisar de muito amor."
E não era exatamente isso que José Arcadio Buendía estava buscando quando saiu à procura de um lugar para se fixar após sua luta com Prudêncio Aguilar, que culminou com a fundação de Macondo?
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