Monday, January 13, 2025

Sabonete Phebo: lições & ilações

Equanimidade, igualdade, respeito às diferenças, autoridade e poder. O assunto é quente e escorregadio, posto que o respeito às diferenças esbarra mesmo na demanda pelo tratamento igualitário. O inferno é conseguir discernir bem onde e como isso se processa, e justamente naquela interface muito problematizável entre o “eu” e os outros, seja nas relações de um para um, de um para poucos ou nas de um para muitos.

De fato, essa interface pertence a um campo acinzentado, dominado academicamente pela psicologia. Entretanto seu processo de construção, assim como o propriamente do “eu” se ancora no ambiente social coletivo da criação, do aprendizado e das restrições impostas, que eu agora considero como parte do campo de estudo denominado controle social. 


Em minha história pessoal o sabonete Phebo é uma instituição. Seu cheiro muito peculiar não só rescende na casa toda, como denota um bom banho tomado, alguma aura de tradição e o simbolismo de uma coisa relativamente cara, cujo uso me era vedado na infância, posto que reservado exclusivamente para o uso de meu pai (e zelosamente guardado por minha mãe para que não se desviasse desse uso preconizado). Até hoje, marca agora internacionalizada e sabonete multi saborizado, segue sendo um símbolo de status que referencia um produto caro, ainda que não de segmento premium (ou de boutique), cujo acesso é possível para a classe média, ainda que com restrições para o uso do dia a dia. 

Ora, nem eu e, até onde eu saiba, nenhum de meus seis irmãos éramos muito chegados ao banho, atividade que consumia tempo precioso de descobrir a vida e por isso (antes da adolescência) era ação de se livrar rapidamente no menor tempo possível. Portanto o consumo familiar de sabonete para esse uso não deveria ser expressivo. Usava-se o palmolive mesmo, ou o gessy. Ou o que fosse o mais barato da época, e que concorria com o sabão de coco, que eu gostava como substituto no banho, mas que também tinha restrição de uso controlado – ainda que menos impositiva do que o odor de rosas da Phebo.

Hoje penso que compreendo a cabeça de meu pai e todas as suas possíveis justificativas para que seus produtos de higiene fossem diferenciados do restante de sua família. Não posso evitar o fato de que minha (ainda) maior mágoa com ele estar nessa área (limitava fortemente meu uso de fio dental como coisa cara), percebo que sua cegueira e burrice não o deixou ver que os custos de dentista e protético foram bem maiores do que os de fio dental e boa educação de saúde bucal. E, claro, dos meus afetos e de nossa relação pai-filho.

Entretanto essa relação pai-filho não era exclusiva: havia uma boa penca de outras singularidades em formação que já contavam com algum histórico em suas relações quando chegou minha vez. E, novamente claro, tinha minha mãe não só nessa mediação, mas principalmente contribuindo com ingredientes fundamentais para que algum equilíbrio fosse possível naquele conjunto de corações e mentes díspares, agitados, espertos e impulsivos. Sendo o caçula e ainda por cima recebendo o mesmo nome de nosso pai, não é difícil imaginar o quanto esse mundo já havia se transformado desde que o primeiro filho dessa união teve seus primeiros momentos de restrição e interdição.

E o que ainda segue me fascinando nisso tudo? Ora, naquele núcleo sempre houve diversos tipos de transgressão às regras específicas impostas por nosso pai, que podiam variar desde a grande desobediência de usar sua espingarda sem sua supervisão (que demandava ser guardada exatamente como encontrada para não suscitar nenhuma dúvida desta infração) até o furto ocasional de um de seus cigarros, que apesar de ocorrer de forma cuidadosamente furtiva, sempre resvalava na dúvida se aqueles eram contados e, portanto, o furto seria notado logo na sequencia. Portanto, na minha vez já eram fartamente conhecidos diversos mecanismos de burla, assim como muitos dos controles antes pesadamente impostos e punidos já estavam relativizados e/ou relaxados, ainda que não suspensos nem removidos.

Então quais aspectos e razões levaram a que não houvesse o uso ocasional (ou simplesmente o furto) do precioso sabonete Phebo, e nem mesmo que isso fosse aventado naquela coletividade? E nem mesmo que esse assunto tenha chegado até hoje para nossa reflexão?

Ou ainda de outra forma: quais os atributos específicos e simbólicos que o sabonete Phebo tem e representa ainda naquela coletividade que nos podem servir de alimento no processo de retrospectiva e de aprendizado sobre o mundo coletivo e sobre aquela interface do “eu” aos outros, especialmente sobre as lutas pela igualdade e redução de iniquidade e o correlato respeito aos mecanismos de controle social que nos fazem sermos como somos coletivamente?


1 comment:

  1. Como seu irmão, estou inserido nesse cenário, sendo burlado, impedido, emparedado e principalmente amedrontado, de cima pra baixo. E burlando, impedindo, emparedando e amedrontando pra baixo. Por sorte o medo não me paralisou, ao contrário me serviu como mola. Aprendi a enfrentá-lo pelas frestas e a burlar também.
    Infelizmente, amargo o desprazer de me reconhecer como o alvo primeiro para o papel do opressor, às vezes até ofuscando, ocupando o primeiro plano e deixando difuso o opressor que a mim também oprimia.
    Será eterna a busca da compreensão ampla e a tentativa de romper os elos das mágoas, para alcançar alguma sanidade, mesmo que fugaz.
    Para qualquer casal já seria muito difícil mediar aquele ambiente para prover alguma equidade, afinal são sete filhos em dez anos postos no mundo por um casal de absolutamente dissemelhantes.
    Significativo saber, somente agora, que o sabonete Phebo depois acabou entrando na minha lista de preferências, quase certo que inconscientemente, com base aí nesse cenário. Naquela ocasião nem gostava muito dele. Mais tarde encontrei motivos conscientes para afinal trazê-lo pra minha vida, pois era um sabonete amazônico, não cremoso, sem leite, talvez já glicerinado. Caminhos que a mente mente ou revela.
    Fico penalizado pelo fio dental. Teria até vontade de comprar caixas e caixas do seu preferido se acreditasse que serviria pra afagar seu coração.
    Pelo lado prático, atual, cuide dos dentes, são seus. Existem muitos recursos para reformá-los no que for preciso.

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