Monday, December 23, 2024

Macondo, Úrsula e Mascuito: o conflito que nos une

Dentro de cada um de nós vive Macondo, em um universo social que nos une e, ao mesmo tempo, transcende a nós todos em sua magia, fantasia e, principalmente, em sua realidade

É necessário iniciar esse texto considerando que nem todos nós já tivemos a experiência anterior da leitura da obra Cem Anos de Solidão. Portanto há alguma realidade em mim que compartilha uma Macondo com tantas diferentes pessoas; algumas que nem tem a obra como referência. Mas como vou utilizar a obra como fio de costura dessa ideia, penso que para chegar lá não posso me perder nas entradas e saídas desse perigoso pântano de ideias solitárias. Ou melhor: do "paradoxo de vivermos nossa solitária trajetória imersa em tantas convivências". Demais isso. Adorei, obrigado Mileto.

Do ponto a partir do qual eu observo o universo, além do tempo, outra faculdade que me parece bastante universal é o conflito. Temos os grandes e os pequenos, curtos e longos, avassaladores e crônicos, angustiantes e apaixonados... enfim, me parece que eu usaria a tarde toda e ainda não poderia extinguir categorias para classificar toda a sorte de conflitos que se apresentam em nosso mundo. Assim, proponho um recorte rápido para possibilitar a viagem sem devaneios extras desnecessários: há os conflitos internos de cada um de nós (ligados ao que eu quero e que posso ou não posso, e às minhas reações sobre o que se espera de mim, e que atribuo de forma simplificada ao campo da psicologia); e há os conflitos do mundo social, que abarcam toda a sorte das disputas, dos embates de opiniões, que envolvem a ordem estabelecida e os processos continuados que formataram os ambientes na configuração em que os encontramos (figuração, para citar Norbert Elias).

No caminho do herói, o conflito é exatamente o ponto onde lhe é dado a chance de seu ato grandioso. Esse parece um raro ponto positivo para enaltecer a existência de conflitos, especialmente nos dias que correm, onde a escalada dos conflitos oferece uma atmosfera omnipresente de risco iminente de destruição, individual e coletiva. 

Os obras de arte podem trazer para a superfície dos afetos conscientes os conflitos que a todos nos une (um paradoxo, por sinal, delicioso). Em toda obra de dramaturgia, observar e acompanhar o desenrolar dos conflitos é um poderoso gancho de identificação com a obra, seus personagens e situações. Creio que até aqui consegui um resumo bastante fidedigno sobre o impacto de Cem Anos de Solidão sobre mim: uma história sobre o tempo, sobre as relações em conflito e a solidão que ali se aninha, de forma inexorável, irremediável...

Então revisito Macondo, assistindo aos conflitos agora expostos em video, mas os confrontando com aqueles mesmos conflitos narrados, ainda guardados nas minhas memórias, das leituras anteriores. E percebo o quanto a tensão existente em cada conflito foi relevante para minhas percepções e imaginações. É quase como o tensionamento único de uma corda que faz produzir uma determinada sonoridade e sua duração de ressonância. (A imagem de minha sinfonia pessoal de conflitos como metáfora de minha própria singularidade foi tão arrebatadora que tive que parar um pouco saborear e escutatear sua ressonância...)


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Uma vez tendo chegado ao ponto de minha reflexão através do texto acima, retorno à obra audiovisual e à você, leitor/a, para dedicar atenção a esse aspecto específico da obra. Os conflitos que encontrei na leitura do livro são contados de forma tão sensivelmente integrados aos atributos humanos de cada personagem, que suas resoluções se seguem sem produzir praticamente nenhum solavanco na fluidez da leitura. E nem havia me dado conta de quão sutil podem ter sido essas decisões nas definições da escrita. Agora percebo com clareza que o emaranhado de conflitos, diálogos, considerações e as seguintes resoluções de cada conflito da trama é fundamental para a riqueza da elaboração de cada personagem dentro de nós, seja pela identificação (positiva ou negativa) dentro do cenário do conflito, seja pela ressonância que cada conflito propõe dentro de nós (na melhor expressão da adrenalina que a vivência nos causa).

E ali está a Úrsula que ainda não havia reconhecido no filme: ao se posicionar como uma mulher forte e questionadora (muito mais do que a minha Úrsula), redesenha seus conflitos de forma a redesenhar-se a si própria até o limite de já ser, para mim, uma nova personagem. 

O obra escrita me permitiu atravessar por seus inúmeros conflitos, num ritmo em que as resoluções se faziam dentro de seus contextos sociais, acomodando os interesses em disputa, as verdades em rota de colisão, e, principalmente, as visões de futuro que cada personagem haveria de ter sobre as consequências na resolução de seus conflitos. Guardo minhas mágoas ou as devolvo? Brigo por meus ideais ou abdico? Caso com Pilar ou fujo de Macondo? Assumo minhas deformidades ou as escondo?

Partindo daqueles personagens e também da relação daqueles com muitos de meus queridos, percebi que a narrativa dos conflitos e o peso com que cada ação narrada nos atinge, pode mudar de forma profunda a análise a a identificação que tenho com cada personagem. E isso pode mudar tudo dentro da minha relação com a obra. 

E o Mascuito.... quem lembra do Mascuito?

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