Saturday, April 11, 2026

A construção coletiva das memórias (ou: quanto tempo leva pra construir um "velho amigo"?)


Old Friends

cantado por Simon and Garfunkel


Old Friends, Old Friends

Sat on their park bench

Like bookends.

A newspaper blow through the grass

Falls on the round toes on the high shoes

Of the Old Friends.


Old Friends

Winter companions,

The old men

Lost in their overcoats,

Waiting for the sun.

The sounds of the city,

Sifting through trees

Settle like dust

On the shoulders

Of the Old Friends.


Can you imagine us

Years from today,

Sharing a park bench quietly?

How terribly strange

To be seventy.

Old friends

Memory brushes the same years

Silently sharing the same fears


Time it was and what a time it was.

It was a time of innocence,

A time of confidences.

Long ago it must be,

I have a photograph,

Preserve your memories,

They're all that's left you.

(tradução lá no final)

O ser humano imagina, e a imaginação pode ser vista como uma espécie de elo que liga o passado ao futuro. Acontece que o futuro não é mais como antigamente*, e parcelas cada vez maiores da população chega a idades avançadas - e com boa memória, previsivelmente.

Cada um (seja indivíduo ou singularidade) vai construindo suas memórias no ambiente social que compartilha, nas famílias e nas aldeias que cresceram absurdamente desde que a luz elétrica se espalhou pelo planeta. Como resultado a construção de memórias vai percorrendo processos que, se não são exatamente inovadores, certamente inclui aspectos inéditos na história humana. Mais camadas, em ritmos cada vez mais acelerados, com assuntos cada vez mais abrangentes e potencialmente mais profundos.

Se imaginarmos essas camadas como estratos compartilhados de memória pelos acontecimentos (locais, regionais ou globais), poderemos ter uma visão de memórias compartilhadas de eventos. E em cada um de nós, levando em consideração ou não o livre arbítrio, nossas memórias estão repletas dos afetos que formaram a parte de nossa história singular, por todo o espectro consciente, sub consciente e inconsciente. 

Os afetos e a história individual do aprendizado sobre eles são elementos fundamentais de nossa singularidade. Daí que os amigos de longa data ("old friends") são testemunhas e referências daquelas camadas que nos fazem ser quem somos, em qualidade, quantidade, profundidade e relevância das memórias compartilhadas.

Duas músicas marcaram minha adolescência no quesito "como serei eu ao ficar velho?": Beatles com When I'm sixty four que me colocava a imaginar minha vida aos 64 anos de idade, (também impulsionada pelo meu ano de nascimento 1964),  e àquela Old friends cantada por Simon and Garfunkel. Em algum momento me dei conta que era preciso definir a diferença entre colega e amigo; e mais ainda: identificar aquelas pessoas que considerava aqui dentro de mim como amigo.

Reconheço que muita coisa mudou daqueles anos 1970/80 pra cá - inclusive eu. Mas me reconheço e me encontro comigo mesmo como partícipe e cocriador desse processo todo, e procuro então os meus velhos amigos - que também mudaram. Ou morreram...

Agora, às raias do tal sixty four, procuro e revejo na minha história quem são meus velhos amigos. E os meus processos de construção disso tudo, incluindo a descontrução de boa parte de alguns desses vínculos. Histórias quase sempre interessantes e também doídas, junto com aqueles que ficaram pelo caminho (Marília, Cláudio, Eduardo, Cunha, Matheus, Osvaldo... saudades e mistérios). Outros foram levados pelos abjetos bolsonaros, trumps & venturas da vida, ó horror. 

Portanto penso que se aproxima a hora de uma revisão afetiva e conceitual importante, cujo resultado talvez contenha o renovado processo auto reflexivo sobre para que estamos nesse mundo? E independente das possíveis respostas, a amizade e o processo dos velhos amigos são não só inescapáveis, como fundamentais no desenrolar da existência de cada um de nós.

Para uma conclusão (mesmo que temporária), resta aquele aspecto que é bom sempre deixarmos reservado, que é a possibilidade de eu considerar alguém um velho amigo e não ser por ele considerado da mesma forma - e vice versa, claro. 

Aos jovens então ofereço com carinho alguns conselhos contidos em Old friends: construa e preserve suas memórias desde sempre: elas serão o que vão restar a vocês. Aos demais, aproveito o clima dos Beatles e pergunto: temos frequentado algum banco de praça pra partilhar nossas lembranças com nossos velhos amigos?

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sobre a origem dessa ideia, Gemini disse: "essa frase é quase centenária e sua autoria original é amplamente atribuída ao poeta e filósofo francês Paul Valéry. Ele escreveu originalmente "Le problème de notre temps est que le futur n’est plus ce qu'il était" (O problema do nosso tempo é que o futuro não é mais o que costumava ser) por volta de 1937

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Velhos amigos


Velhos Amigos

Sentados em seu banco no parque

Como suportes de livros

Um jornal voando na grama

Cai nos cantos redondos dos sapatos

Dos velhos amigos


Velhos amigos

Companheiros de inverno

Os velhos

Perdidos em seus sobretudos

Esperando o sol

Os sons da cidade

Peneirado pelas árvores

Assentando como poeira

Nos ombros

Dos velhos amigos


Você pode nos imaginar

Anos à frente

Compartilhando um banco de jardim em silêncio?

Como é terrivelmente estranho

Ter setenta anos

Velhos amigos

A memória recupera os mesmos anos

compartilhando silenciosamente os mesmos medos


Tempo que se foi, e que tempo que se foi

um tempo de inocência

Um tempo de confidências

E por muito que esteja longe

Eu tenho uma fotografia

Preserve suas memórias

Eles são tudo o que resta pra você

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