Como quase todos nós, eu classifico o mundo. Há uma divisão quase sempre bem definida em meu campo de visão: tem os mais altos do que eu, os outros são mais baixos; tem os mais leves do que eu, os outros são mais pesados; tem os mais ricos do que eu, os outros são mais pobres...
Entrada provocativa para a perspectiva de riqueza que quero evidenciar. Para o presente caso escolho trabalhar com o conceito de empoderamento (ou seja, ganho de poder), que em nossa sociedade capitalista fica quase que sempre circunscrito na questão econômico-financeira. Reconheço sua relevância (até para nosso uso aqui), mas mais do que isso, busco a transcendência do poder para ultrapassar a linha do "eu posso ajudar você", mais do que pela doação de alguma grana, ou ainda pela sinalização de que posso ajudar você caso você precise (afinal as propagandas dos bancos há muitos anos se posicionam nesse lugar: um banco amigo, que vai te ajudar nos momentos difíceis - a que custo, hein?)
Agora quero retirar todo o aspecto material mais direto (não se trata mais de emprestar, ou mesmo dar algum dinheiro), e concentrar nas ajudas que fazem parte do que eu chamo de a parte mais nobre da teia de relações sociais: as contribuições positivas que recebi de você - e de quase todos os demais - com quem convivi esses anos todos. E que busquei repartir irmamente, como dizia minha mãe.
Daí retorno às proporções. Tenho três irmãos e três irmãs, assim como meus irmãos. Porém minhas irmãs já não tem a mesma sorte proporcional. Apesar de todos serem mais velhos do que eu, a idade já poderia nos unir mais do que separar. Mas tentar ajudar a todos se perde na balbúrdia infeliz do que, ao invés de se consolidar como um coletivo, se estilhaça a cada nova tentativa, em sete mil pedaços de singularidades travestidas de individualidades....
E seguindo nas proporções, nunca antes no mundo houve uma proporção tão grande de "mais velhos" do que mais novos: idosos e anciões agora são bastante comuns, alguns com cuidadores, outros não, mas sempre a necessitar de algum tipo de ajuda da coletividade, uns mais do que eu, outros menos. Eu ainda sigo tentando ajudar a quem reconheço com necessidade onde me sinto com alguma competência. Mas não é fácil.
Por esses dias me invadiu novamente uma sensação bem desconfortável, que faz parte do título desse texto: apesar de já ter tentando muitas vezes, agora sinto que não tenho mais como ajudar você. Mas dessa vez não me conformei. Deixei essa sensação fermentando dentro de mim, tentei trocar percepções com minha amada, matutei... Na tentativa de explicar, elaborei exemplos e alternativas, condições específicas e gerais, planos mirabolantes e conceitos psicológicos, autonomização e interdependências, utopias e distopias.

Nessa escala talvez a pergunta "como posso ajudar você hoje?" não só não faz sentido, como já participa até mesmo da força de repulsão, tornando a ajuda não só improdutiva, como muitas vezes impossível. Ou pior: se limitando ao (potencialmente) horroroso reducionismo de "será que dinheiro ajudaria?" ----
mandalas feitas em papel maché, e pintadas por Míriam Leite




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