Onipotência versus onibenevolência... Muitas discussões estão emaranhadas aqui, quase todas difíceis, fugazes, além de fronteiriças às condições mais profundas dos debates sobre a razão geral da existência ("porque há algo no lugar do nada?"). Largo e profundo, portanto...
Agora que perdi meu pai, ascender(1) ao seu lugar enquanto referência e ao mesmo tempo observar meus irmãos e irmãs percorrendo seus percursos singulares desvela uma forma de existencialismo tardio que me encanta e assusta simultaneamente. Não sei se estou a criar categoria desnecessária (ou já criada), mas falo da existência precedendo a essência a partir de camadas sucessivas de existências e essências que nos elaboram e liquefazem dentro do cotidiano. E que na maturidade busca novas proporções e alquimias para seguir se constituindo.
Na maturidade desses tempos confusos, meu existencialismo barato diz que continuo elaborando minha essência a partir da minha existência, porém o psicologismo ainda mais barato assegura que quem sou está igualmente ancorado em quem fui até agora. Nada demais até aqui, além do meu pouco compromisso com o arcabouço conceitual que me dei o direito de baratear.
Ainda não deu tempo de sentir saudades de meu pai, confissão que pode parecer demasiado dura. Mas o medo da morte tangibilizado por seu corpo inerte e sepultado segue me empurrando para uma ação heróica(2) que já não cabe mais em meus horizontes como cabia antes. A ação é a de todo dia - aliás, como sempre foi. Mas meu horizonte mudou - mais uma vez. Além disso o envelhecimento é inexorável e implacável: sinto todo dia uma retirada de energia vital maior do que consigo repor...
Já de minha mãe, Gaia revisitada, sinto imensas saudades. Ainda como confissão: seriam saudades que transcendem em muito a existência singular daquela que me deu à luz. O tipo de saudade de simplesmente saber que aquela pessoa estaria ali, existindo, ainda que acolhimento e ninho para meu próprio crescimento eu não carregue aqui dentro de mim como recordação daquela criatura. Condições da existência social...
E isso tudo não exclui de forma alguma a existência como elaboradora da essência (pelo menos até algumas camadas razoavelmente profundas). Daí que minha existência sempre foi marcada pela observação do gigantesco contraste entre minha mãe e meu pai. Também penso que nada de novo há aqui, senão as peculiaridades do ambiente social produzido pelas decorrências do encontro improvável daqueles dois, e a consequente procriação farta deles.
Escolho então uma perspectiva quase fenomenológica que permita encontrar-me como criança novamente frente ao contraste que aqui usei como título. Um poder que se pretende inquestionável encontrando um amor que se oferece como condição de existência do conjunto. Se Sartre dizia que "o inferno são os outros" Gaia diria que "os outros são a sua condição de existência". Mas... e o inferno, onde é que fica? Creio que pressinto com alguma exatidão onde cada um deles colocava essa resposta. E é quase certo que não era um lugar comum, apesar de ambos escolherem como resposta algum tipo de "lugar comum": o inferno da insuficiência material que a todos nos aflige, versus o inferno do mal absoluto, representado pela ação cruel, pela desatenção seletiva e o risco do desamor. Minha observação conduz inexoravelmente ao conflito valores espirituais x valores do capitalismo, do qual não proponho fuga. Tampouco compreender intelectualmente esse conflito resolve a questão, em qualquer linha de pensamento que eu tenha conhecimento.
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1. ou ressignificar, ou transcender, ou relativizar, ou simplesmente tomar ciência de que não teremos mais a oportunidade presencial de travar as batalhas pai-filho que nos construiu enquanto existiu
2. ação heróica pelo viés de Ernest Becker em seu Negação da morte (1972)


existirmos a que será que se destina
ReplyDeleteonde queres revolver sou coqueiro
de perto ninguém é normal
... ou não.