Friday, April 17, 2026

Deus versus Gaia

Onipotência versus onibenevolência... Muitas discussões estão emaranhadas aqui, quase todas difíceis, fugazes e escapadiças, além de fronteiriças às condições mais profundas dos debates sobre a razão geral relacionada à existência ("porque há algo no lugar do nada?"). Largo e profundo, portanto...

Agora que perdi meu pai, ascender(1) ao seu lugar enquanto referência e ao mesmo tempo observar meus irmãos e irmãs percorrendo seus percursos singulares desvela uma forma de existencialismo tardio que me encanta e assusta simultaneamente. Não sei se estou a criar categoria desnecessária (ou já criada), mas falo da existência precedendo a essência a partir de camadas sucessivas de "existências e essências" que nos elaboram e liquefazem dentro do cotidiano. E que na maturidade busca novas proporções e alquimias para seguir se constituindo.

Na maturidade desses tempos confusos, meu existencialismo barato diz que continuo elaborando minha essência a partir da minha existência, porém o psicologismo ainda mais barato assegura que quem sou está igualmente ancorado em quem fui até agora. Nada demais aqui, além do meu pouco compromisso com o arcabouço conceitual que me dei o direito de baratear.


Ainda não deu tempo de sentir saudades de meu pai, confissão que pode parecer demasiado dura. Mas o medo da morte tangibilizado por seu corpo inerte e sepultado segue me empurrando para uma ação heróica(2) que já não cabe mais em meus horizontes como cabia antes. A ação é a de todo dia - aliás, como sempre foi. Mas meu horizonte mudou - mais uma vez. Além disso o envelhecimento é inexorável e implacável: sinto todo dia uma retirada de energia vital maior do que consigo repor...

Já de minha mãe, Gaia revisitada, sinto imensas saudades. Também como confissão: seriam saudades que transcendem em muito a existência singular daquela que me deu à luz. Aquela saudade de simplesmente saber que aquela pessoa estaria ali, existindo, ainda que acolhimento e ninho para meu próprio crescimento eu não carregue aqui dentro de mim precisamente como recordação daquela criatura. Condições da existência social...

Mas isso tudo não exclui de forma alguma a existência como elaboradora da essência (pelo menos até algumas camadas razoavelmente profundas). Daí que minha existência sempre foi marcada pela observação do gigantesco contraste da existência de minha mãe e do meu pai. Também penso que nada de novo há aqui, senão as peculiaridades do ambiente social produzido pelas decorrências do encontro improvável desses dois, e a consequente procriação farta deles.

Escolho então uma perspectiva quase fenomenológica que permita encontrar-me como criança novamente frente ao contraste que aqui usei como título. Um poder que se pretende inquestionável encontrando um amor que se oferece como condição de existência do conjunto. Se Sartre dizia que "o inferno são os outros" Gaia diria que "os outros são a sua condição de existência". Mas... e o inferno, onde é que fica? Creio que pressinto com alguma exatidão onde cada um deles colocava essa resposta. E é quase certo que não era um lugar comum, apesar de ambos escolherem como resposta algum tipo de "lugar comum": o inferno da insuficiência material que a todos nos aflige, versus o inferno do mal absoluto, representado pela ação cruel, pela desatenção seletiva e o risco do desamor. Minha observação conduz inexoravelmente ao conflito religião x valores do capitalismo, do qual não proponho fuga. Porém tampouco compreender intelectualmente esse conflito resolve a questão, em qualquer linha de pensamento que eu tenha conhecimento.

Mas se Gaia traz um conforto biológico que o existencialismo de Sartre nega (a sensação de que pertencemos a algo maior, não por decreto divino, mas por destino biológico), essa condição atravessa e transcende a minha existência singular. E encontro nas minhas relações mais imediatas as novas condições de existência onde produzo minha essência. Meus irmãos e irmãs, minhas companheiras (atual e passadas), meus amigos e desafetos muito me dizem sobre isso tudo.

Numa revisitação arqueológica nem tão cuidadosa assim, contemplo mais uma vez a relação de meu pai e minha mãe, segundo as narrativas que me sobraram. Atração e repulsa, yin e yang, poder e amor que poderiam ter se complementado de forma menos turbulenta do que penso que foi. Mas foi o que pôde ser, a existência se fez enquanto a essência escorria no caudal do dia a dia, irrigando e alimentando novas singularidades de forma coletiva, coletivizado até certo ponto. Ou multi individualizado, conforme a escolha de perspectiva. Será que havia algum caminho diferente para a relação de meu pai com minha mãe?
A pergunta é totalmente retórica, sabemos. Ao mesmo tempo penso ser base de um importante exercício de aprendizagem. Singular, individual e coletivo, tudo ao mesmo tempo, como convém à interface entre Deus e Gaia

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1. ou ressignificar, ou transcender, ou relativizar, ou simplesmente tomar ciência de que não teremos mais a oportunidade presencial de travar as batalhas pai-filho que nos caracterizava

2. ação heróica pelo viés de Ernest Backer em seu Negação da morte (1972)

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