O dinheiro é mesmo uma entidade foda! Em quase todos os sentidos, até no literal, desde que a Maria Madalena representou o resgate do que muito se chamou das mais antigas das profissões.
Trocar uma foda por comida é foda! E trocar comida por poder, não é? Pois tá tudo lá no Estomago, filme brasileiro sensacional de 2007, dirigido pelo Marcos Jorge.
O Giovani meio que adota o Raimundo Nonato - sem muita explicação dramatúrgica, mas dá a entender que Giovani reconhece um talento tão especial numa figura tão sem história, que resolve apostar nele para sua equipe de cozinheiros. E lá vai com ele para o mercado municipal de São Paulo (que em si mesmo já é uma foda!), apresentando os comerciantes, ensinando a negociar, a escolher materiais e mostrando que é foda naquelas coisas e naquela região - poder nas coisas pequenas, nas redes sociais das mesquinhezas, etc, etc.
No açougue o Giovani ensina sobre carne de vaca, dizendo que o coxão duro está pertinho da picanha, mas que tem muito maior valor, daí compara com a bunda da mulher e "seu valor". Bom de ver o Raimundo Nonato em sua simplicidade "desbundar" o Giovani pela desconstrução caipira dos termos que Giovani escolhe. Sinto que temos alguma chance ainda!
Este trecho do filme aprofunda uma faceta da relação que deixa muito espaço para o imaginário do espectador sobre como tanto o Giovani enxerga o RN, como vice versa. A dominação cultural e econômica que devem servir de referência não dão conta integralmente dos vazios que os afetos pedem para ocupar, e que, dada a intimidada mostrada, não pode ser transportada para outras áreas (nem tampouco interditadas) sem muita reflexão e construção psicológica do próprio espectador. Aqui existem riscos foda da identificação do espectador com um, com outro ou até com os dois, que podem deixar lacunas muito sérias para o desenrolar do filme, especialmente pelos afetos feridos. Sem deixar de registrar, entretanto, que estes efeitos são dramaturgicamente deslocados pelo álcool e seus efeitos.
Monday, January 7, 2019
Estomago 2
Uma questão em aberto desde sempre é a função da arte na sociedade. Ou para o ser humano.
Não tenho competência e nem lastro pra entrar nesta discussão de forma estruturada, mas sigo o caminho que meu coração (e meu estorvo) me possibilita, num mundo onde esta mesma discussão se faz sobreposta: o que é arte? Qual é a condição qualificadora para falar sobre arte?
dito isto, me permito considerar algumas obras com sendo "obra de arte" de relevância, seja pela sutileza da abordagem, seja pela criatividade que reconheço na obra, ou até simplesmente pelo potencial emoção que cativa em mim. E o filme Estomago em questão é mesmo muito especial para mim. Já seria mesmo que ninguém tivesse vindo até mim para comentar sobre um determinado personagem. Mas pelo tal comentário, me devolveu a vontade de rever, analisar, re-sentir (sem ressentir, não é?) as principais cenas do filme... E em filmes, até por ser um aficionado em cinema, que gosto de rever as obras de que gosto (Como Água para Chocolate, Asas do Desejo, Toy Story...), comecei a aprofundar nas observações da dramaturgia, da fotografia, do roteiro, do que a gente viu e não viu (Sexto Sentido), das deixas que o personagem (ou o roteirista?) vai picotando pelo caminho pra gente construir uma pessoa em nossa imaginação, que ao fim é tão de carne e osso quanto nós mesmos. Ah, o Raimundo Nonato...
Mas antes teve o Picasso, que o Giovani (dono do segundo restaurante que o RN foi trabalhar, e que o ensinava cuidadosamente a arte da culinária), que montando um prato, menciona Picasso pelas criações artísticas, mas que ao final resume em valor financeiro a tal criação: pela montagem criativa de elementos extraordinariamente "baratos", transforma numa sobremesa muito cara. Picasso? Dali? Arte? ...
Arte pra mim é, por exemplo, o uso da música no próprio filme Estomago, onde a associação do tema com a comida é levado a um ponto que eu admiro muito, no paralelo do comer a comida (o tema já estava estabelecido), e que repentinamente é mantida no ato do homem comendo a mulher, que por sua vez estava comendo algo de que já demonstrara adorar.... E a montagem... a fotografia... a cena é mostrada pelo close da bunda da Iria, num arriscado (e super bem sucedido) enlace de comida e dominação, arriscado pela interpretação possível de pornografia barata, em tempo de patrulhamento e retrocesso social contemporâneo.
A riqueza e ao mesmo tempo singeleza dos personagens e do roteiro, que coloca na prostituta Íria o principal elo de ligação entre os dois núcleos do filme: o lado de dentro e o lado de fora da prisão onde RN cumpre sua pena. E ainda num nível mais sutil, a ligação dramática dos amores do RN e suas carências e das razões de sua existência nos dois planos.
Gratidão pelo filme existir. Pelo amigo que me levou a assistir com este cuidado e atenção de reflexão. Ao RN que, ao deixar extravasar sua ira e revolta e, consequentemente, pagar por isso, me ajuda a sublimar as tantas vezes que o mundo de alguma forma me empurrou para uma atitude impensada, um gesto além da moral, uma atitude raivosa tantas vezes aflorada, mas que de alguma forma não veio á lume - ou não trouxe a consequência desastrosa como para o RN....
Friday, October 19, 2018
A era das decepções.... parte 2: a decepção e a "'decepação"
PS: (pre scriptum...): Todo o início deste texto foi escrito em 25/03/2018.
Me impressionei com a semelhança afetiva sobre o que busco tratar, que é a manipulação midiática do processo eleitoral brasileiro.
(daqui....)
Recentemente eu sofri uma grande decepção pessoal.
E no quadro atual das condições de vida que me encontro (nos encontramos?), isso falou alto dentro de minha alma e provocou um aprofundamento da depressão que me ronda. Talvez o caso não seja o principal fator a discutir aqui, mas o fator "decepção" em si ficou latejando dentro de mim num nível tal que, mesmo ao cabo do pedido de desculpas que se seguiu - aceito, claro, posto que genuíno, me sacudiu a um ponto de me colocar frente à este evento com um desejo de equidistância para um evento também recente onde eu decepcionei evidentemente outros...
(...)
Mas mesmo perdoando a ação realizada que gerou a decepção, ainda restava dentro de mim a realidade da decepção. Alguém (neste caso, alguém que amo) realizou uma ação que me decepcionou. Esta constatação colocou em curso dentro de mim uma revisão de momentos que me senti decepcionado (contei muitos) e dos que percebi a decepção que causei em alguém (contei muito menos). Logo a seguir notei que minha maior lista era a dos meus próprios casos, em que decepcionei-me a mim mesmo, assim pleonasticamente reforçado.
A decepção então me pareceu uma reação anímica / psíquica sobre expectativas que temos sobre determinado comportamento. E devido à constatação de que a expectativa pode estar numa condição mais ou menos consciente do indivíduo, oferece uma camada espessa deste desafio, que é a apuração individual sobre a expectativa: porque tivemos esta expectativa, como é/foi nossa relação com o decepcionante.
(...até aqui!)
Então, seguindo:
A mídia empurrou a Dilma - e o PT para uma condição de execração pelo mote da corrupção onde é absolutamente óbvio que não é exclusivo deste partido. Impeachment e seu golpe continuado com as evidências posteriores tão fartas da sua articulação nem entrarão aqui em consideração.
Procuro tentar compreender e agir pela compreensão sobre alguns encontros que tive nas últimas semanas sobre a possível escolha de Bolsonaro para presidente deste país. Importante destacar que estamos hoje a 9 dias do segundo turno, no dia onde fica claro que a própria mídia começa a se escancarar sobre o caixa2 do Bolsonaro pra disparar esta campanha / infâmia.
Eu nunca ajudei o PT a chegar no governo federal. Após a virada do Lulinha paz e amor e a postura conciliatória que permitiu sua eleição em 2002, considerei que não era isto que levaria à mudança necessária, tendo não votado desde 1998 até 2018 em praticamente nenhum pleito. Agora venho procurando o debate com pessoas próximas (amigo antigo, pedreiro, parente), buscando interlocução contando esta história de minhas escolhas, tendo recebido várias vezes a resposta de que
"- eu sim, votei no PT, e por isso mesmo nunca mais quero isso de novo!".
Espero ter conseguido deixar bastante exposto o tipo de decepção que pretendo me debruçar a partir daqui, sendo explicitado: a decepção com minha escolha passada por governantes dentro de um "processo democrático de escolha" (assim entre aspas exatamente pela forma de participação das forças que, numa simplificação possível, são as mesmas que conduziram o processo de afastamento de Dilma da presidência para entregá-la ao Temer, com os argumentos declarados naquela hora). Ou seja, foco no que vou chamar de "PT nunca mais" como sendo os que já votaram antes no PT, excluindo propositadamente os que nunca votaram no PT, posto que estes não se decepcionaram na mesma medida desta escolha.
Lembro da campanha presidencial de 1989 (Lula x Collor), a primeira em muitos anos e a primeira que participei, onde o mote incluiu "o amor vai vencer o ódio". Ali comecei a ver a questão de como a expectativa sobre os resultados se forja neste processo, e o conflito que se segue após a apuração, onde o eleito (qualquer um, exceto fascistas) precisará imediatamente compor com a parcela da sociedade que escolheu o candidato derrotado (deveria ser a "proposta derrotada", mas....). Aqui se inicia um processo de frustração enorme, onde o candidato ganhador (qualquer um, exceto fascistas, lembra?) precisa imediatamente após ter sido escolhido pela maioria, iniciar uma curva em direção às propostas derrotadas, para compor uma governabilidade possível sem aprofundar uma ruptura maior na continuidade de qualquer projeto de nação possível.
INTERVALO AQUI:
Daqui surgem dois caminhos excludentes entre si: seguiremos compondo uma nação possível como fazíamos até este momento ou faremos uma revolução? Pelos projetos eleitorais todos que participei a proposta revolucionária de mudança do sistema vigente nunca teve maior eco proporcional, e por isso vou seguir colocando esta perspectiva como minoritária, independente de minhas convicções, sabendo que teremos que voltar à esta questão na escolha de candidato que se declara fascista.
FIM DO INTERVALO.
Tentando não estender muito uma ideia que já dá um tratado, vou colocar foco na criação da expectativa no processo eleitoral e a participação da mídia não só na criação desta expectativa mas especialmente na forma que as ações posteriores são apresentadas e justificadas. Os "PT nunca mais" viveram uma onda de frustrações percebidas como decepção de tal forma aprofundadas dentro de si que se tornaram uma das maiores armas de disputa eleitoral. Aqui aparece exatamente o que quero tratar:
Como será o processo de decepção destes eleitores com os resultados eleitorais vindouros?
Vamos viver isto juntos e será muito rico em observações sociais, e como o texto já agigantou, vou encerrar destacando nossa participação no processo de criação das expectativas nas escolhas participativas. Como é inequívoco a presença da consciência individual sobre este processo talvez tenhamos aqui uma fronteira na construção do elemento social, e em outra direção é evidente que o quê está sendo apresentado não poderá ser entregue pelo candidato favorito*, uma onda gigantesca de decepção está gerada.
Venho tratando nosso momento usando a metáfora da tsunami de 2004, quando o mar, ao adentrar muitas centenas de metros, as pessoas na orla entraram alegremente para catar conchas. Aqui a tsunami está indicando fortemente que esta onda de decepção será devastadora, em qualquer cenário previsível.
E a decepação do título?
Esta nós estamos já vivenciando em muitas frentes, desde os direitos constitucionais extirpados pelos golpistas alegremente suportados por alguns destes decepcionados, até as liberdades mais fundamentais que, estando no foco e centro das discussões do #elenão não foram suficientes nem para abrir o diálogo com os meus amigos mencionados...
Me impressionei com a semelhança afetiva sobre o que busco tratar, que é a manipulação midiática do processo eleitoral brasileiro.
(daqui....)
Recentemente eu sofri uma grande decepção pessoal.
E no quadro atual das condições de vida que me encontro (nos encontramos?), isso falou alto dentro de minha alma e provocou um aprofundamento da depressão que me ronda. Talvez o caso não seja o principal fator a discutir aqui, mas o fator "decepção" em si ficou latejando dentro de mim num nível tal que, mesmo ao cabo do pedido de desculpas que se seguiu - aceito, claro, posto que genuíno, me sacudiu a um ponto de me colocar frente à este evento com um desejo de equidistância para um evento também recente onde eu decepcionei evidentemente outros...
(...)
Mas mesmo perdoando a ação realizada que gerou a decepção, ainda restava dentro de mim a realidade da decepção. Alguém (neste caso, alguém que amo) realizou uma ação que me decepcionou. Esta constatação colocou em curso dentro de mim uma revisão de momentos que me senti decepcionado (contei muitos) e dos que percebi a decepção que causei em alguém (contei muito menos). Logo a seguir notei que minha maior lista era a dos meus próprios casos, em que decepcionei-me a mim mesmo, assim pleonasticamente reforçado.
A decepção então me pareceu uma reação anímica / psíquica sobre expectativas que temos sobre determinado comportamento. E devido à constatação de que a expectativa pode estar numa condição mais ou menos consciente do indivíduo, oferece uma camada espessa deste desafio, que é a apuração individual sobre a expectativa: porque tivemos esta expectativa, como é/foi nossa relação com o decepcionante.
(...até aqui!)
Então, seguindo:
A mídia empurrou a Dilma - e o PT para uma condição de execração pelo mote da corrupção onde é absolutamente óbvio que não é exclusivo deste partido. Impeachment e seu golpe continuado com as evidências posteriores tão fartas da sua articulação nem entrarão aqui em consideração.
Procuro tentar compreender e agir pela compreensão sobre alguns encontros que tive nas últimas semanas sobre a possível escolha de Bolsonaro para presidente deste país. Importante destacar que estamos hoje a 9 dias do segundo turno, no dia onde fica claro que a própria mídia começa a se escancarar sobre o caixa2 do Bolsonaro pra disparar esta campanha / infâmia.
Eu nunca ajudei o PT a chegar no governo federal. Após a virada do Lulinha paz e amor e a postura conciliatória que permitiu sua eleição em 2002, considerei que não era isto que levaria à mudança necessária, tendo não votado desde 1998 até 2018 em praticamente nenhum pleito. Agora venho procurando o debate com pessoas próximas (amigo antigo, pedreiro, parente), buscando interlocução contando esta história de minhas escolhas, tendo recebido várias vezes a resposta de que
"- eu sim, votei no PT, e por isso mesmo nunca mais quero isso de novo!".
Espero ter conseguido deixar bastante exposto o tipo de decepção que pretendo me debruçar a partir daqui, sendo explicitado: a decepção com minha escolha passada por governantes dentro de um "processo democrático de escolha" (assim entre aspas exatamente pela forma de participação das forças que, numa simplificação possível, são as mesmas que conduziram o processo de afastamento de Dilma da presidência para entregá-la ao Temer, com os argumentos declarados naquela hora). Ou seja, foco no que vou chamar de "PT nunca mais" como sendo os que já votaram antes no PT, excluindo propositadamente os que nunca votaram no PT, posto que estes não se decepcionaram na mesma medida desta escolha.
Lembro da campanha presidencial de 1989 (Lula x Collor), a primeira em muitos anos e a primeira que participei, onde o mote incluiu "o amor vai vencer o ódio". Ali comecei a ver a questão de como a expectativa sobre os resultados se forja neste processo, e o conflito que se segue após a apuração, onde o eleito (qualquer um, exceto fascistas) precisará imediatamente compor com a parcela da sociedade que escolheu o candidato derrotado (deveria ser a "proposta derrotada", mas....). Aqui se inicia um processo de frustração enorme, onde o candidato ganhador (qualquer um, exceto fascistas, lembra?) precisa imediatamente após ter sido escolhido pela maioria, iniciar uma curva em direção às propostas derrotadas, para compor uma governabilidade possível sem aprofundar uma ruptura maior na continuidade de qualquer projeto de nação possível.
INTERVALO AQUI:
Daqui surgem dois caminhos excludentes entre si: seguiremos compondo uma nação possível como fazíamos até este momento ou faremos uma revolução? Pelos projetos eleitorais todos que participei a proposta revolucionária de mudança do sistema vigente nunca teve maior eco proporcional, e por isso vou seguir colocando esta perspectiva como minoritária, independente de minhas convicções, sabendo que teremos que voltar à esta questão na escolha de candidato que se declara fascista.
FIM DO INTERVALO.
Tentando não estender muito uma ideia que já dá um tratado, vou colocar foco na criação da expectativa no processo eleitoral e a participação da mídia não só na criação desta expectativa mas especialmente na forma que as ações posteriores são apresentadas e justificadas. Os "PT nunca mais" viveram uma onda de frustrações percebidas como decepção de tal forma aprofundadas dentro de si que se tornaram uma das maiores armas de disputa eleitoral. Aqui aparece exatamente o que quero tratar:
Como será o processo de decepção destes eleitores com os resultados eleitorais vindouros?
Vamos viver isto juntos e será muito rico em observações sociais, e como o texto já agigantou, vou encerrar destacando nossa participação no processo de criação das expectativas nas escolhas participativas. Como é inequívoco a presença da consciência individual sobre este processo talvez tenhamos aqui uma fronteira na construção do elemento social, e em outra direção é evidente que o quê está sendo apresentado não poderá ser entregue pelo candidato favorito*, uma onda gigantesca de decepção está gerada.
Venho tratando nosso momento usando a metáfora da tsunami de 2004, quando o mar, ao adentrar muitas centenas de metros, as pessoas na orla entraram alegremente para catar conchas. Aqui a tsunami está indicando fortemente que esta onda de decepção será devastadora, em qualquer cenário previsível.
E a decepação do título?
Esta nós estamos já vivenciando em muitas frentes, desde os direitos constitucionais extirpados pelos golpistas alegremente suportados por alguns destes decepcionados, até as liberdades mais fundamentais que, estando no foco e centro das discussões do #elenão não foram suficientes nem para abrir o diálogo com os meus amigos mencionados...
Tuesday, October 9, 2018
Estômago 1
Qual é o papel da arte?
(a continuar na análise do filme...)
Calma, calma.... não vou entrar aqui neste mérito, mas tudo o que aqui for dito sobre este filme (Estômago, 2007 www.imdb.com/title/tt1039960) terá como pano de fundo uma vontade infinita de discutir esta questão filosófica, desde sempre e para sempre!
Mas como qualquer filme - quanto mais um filme nacional. E arretado de bom como esse! - possibilita que a gente se encontre com nossos arquétipos sociais. E ainda mais: identificar os arquétipos que apoiam a construção dos nossos próprios, seja pela semelhança ou pelo contraste.
O que eu quero expor e debater aqui é a lente que nos conduz na identificação destes arquétipos, ao assistir um filme. Passando pela identificação consciente ("esse personagem parece com tal amigo") e indo até a repulsa de fácil percepção, onde pode ser até difícil distinguir nestas repulsas o que eu consigo identificar de repulsivo em mim mesmo, o que me repulsa nas áreas que considero não precisar nem ver, seja porque já "me livrei" daquela "repulsa original" ou porque seja simplesmente repugnante mesmo (será?).
Lembrei da cena onde a descrição da fonte de emanação do poder do personagem Bugio na cela da prisão foi descrita assim: "... manda nos outros porque faz umas coisas que nem sendo bem cruel mesmo as pessoas faz". Esta cena é encaixada logo após um close de repugnância alimentar, onde a comida está cheia de bichos no prato do personagem principal da trama, o Raimundo Nonato (daqui pra frente fica só RN, tá?).
Repulsa, repugnâncias e demais coisas execráveis... que fartura de material para análise e auto conhecimento numa obra de arte... Parafraseando o próprio filme, lembrei do quadro Guernica e o mal estar profundo e perturbador que senti após uns 45 minutos olhando diretamente para aquilo tudo que está lá. E olha que nem tem assim tantos elementos no quadro gigantesco do tal Picasso citado no filme.
E cá pra nós, não terá sido pra isso mesmo que o Picasso construiu aquela sua obra? Terá sido este o papel e significado desejado de Guernica? Picasso é foda!
(a continuar na análise do filme...)
Thursday, September 20, 2018
Risco e eu
Partamos de uma condição bem contemporânea da percepção
individual.
Daí aparece um problema, qualquer problema, digamos eu
preciso de uma mala. Aqui já aparece uma diferença bem interessante das pessoas:
algumas pessoas aparentemente só se deram conta no momento em que notam que já
precisam da mala, e este tendem à lançar mão dos recursos que estiverem disponíveis
naquele momento. Outras pensam na mala ainda como dentro das possibilidades
futuras, toas as possibilidades e este quer ter uma mala de reserva pra qualquer
eventualidade.
Estes são extremos, mas sob tal perspectiva podemos pensar
que cada um de nós está mais perto de um destes pontos do que de outro. E mais,
para cada assunto pode haver uma diferença expressiva sobre esta proximidade.
Agora vamos para o campo das pessoas. Pense num pequeno
grupo, uma relação de duas pessoas, três, quatro pessoas no máximo. Cada um tem
percepção diferente com relação a isso. No campo das percepções teremos um
mundo inteiro, ela pode ser chamada de percepção do risco global do cenário, da
avaliação social do risco, e um monte doutras aspectos, mas prefiro deixar pra ver isso depois, e tentar
entrar em como estas percepções atuam em cada um e seu impacto bem notável na
fundamentação do medo.
Uma das correntes que puxa forte para um dos lados é o medo. Medo,
só isso. A psicologia tem muita pra ajudar aqui e eu ficarei raso, sob risco (?)
de levar pedrada. To nessa. Mas se colocarmos o medo lá na ponta, a gente acaba
achando mesmo o medo superior de todos, que deve ser mesmo o medo da morte. E na outra
ponta, aquela ponta de aventureiro que todos nós sentimos puxar lá dentro pra fazer alguma coisa arriscada, "o destemido aventureiro", que não tem medo de nada (ou pelo menos diz e aparenta
mesmo não ter medo de nada, afinal arquétipo que é).
Até aqui espero ter construído um cenário pra gente
prosseguir juntos....
1) Controle
vou escolher começar
pelo controle. Quem prevê uma coisa, que a partir de agora vou chamar de evento,
(no caso da mala, seria o evento final proposto “usar uma mala”), e deseja se
antecipar a ela, por qualquer razão assumida ou não, consciente ou
inconsciente, vai se deparar com a questão do controle.
Como já ficou textão, vou trocar logo a mala que eu queria
pela questão financeira num casal, pra gente ver onde isso pode parar.... As
decisões de quase todo dia podem ter impacto muito diferente nas maneiras de
cada um perceber seus medos e os do outro (e seus riscos), na tomada de decisão
em si, e especialmente sensível, ainda que pouco percebido, é na questão da
poupança e investimentos de qualquer recurso que se perceba escasso. E aqui o controle
aparece de forma tal que, por sua imersão e contundência nos mundos atuais de
concentração de riquezas, este passa a permear boa parte da relação do indivíduo,
consigo próprio, com parceiros, com os outros, com a própria vida....
Controlar ou não uma variável qualquer....? Fluir, fruir ou
influir...?
Monday, April 2, 2018
O mecanismo (... e a superfície discursiva)
O mecanismo que irei me referir talvez tenha melhor uso analítico do que o José Padilha propõe (e melhor: tentando ligar ao malfadado produto por ele criado). O que vou tentar abordar de forma curta, mas querendo mais (debate, aprofundamento, idéias, ação) é a atuação deliberada da indústria dominante da mídia na manutenção de uma massa de manobra mínima, de forma que possa influenciar decisivamente aos menores custos os movimentos da sociedade na direção de seus interesses.
Simplificando, mais ou menos assim:
1. convencer um monte de gente é complicado.
2. se eu mantenho dois grupos em confronto permanente, para atingir uma maioria simples sobre determinado assunto precisarei influenciar apenas uma pequena percentagem para definir a posição.
Não tenho bases acadêmicas sobre isso (agradeço desde já referências pelo sim e pelo não).
Desde antes das eleições de 2002 eu observo a cena com este conceito, e a observação deu bastante pistas sobre como isso vem sendo feito. Precisamos transitar com cuidado pois temos muitas (e relevantes) variáveis em campos bem estudados como comunicação, sócio política, psicologia social entre diversos outros. Entretanto neste mundo de fb e assemelhados (assimilados?) percebo que o desenvolvimento das idéias entre pares poderá ter impacto comparável com o aprofundamento acadêmico nas decisões sociais de ciclo curto (entre estes, as eleições deste nosso tipo de democracia). Assim, e ainda por não termos tempo de estudar tudo o que gostaríamos, pretendo deste espaço uma "ágora" de aprendizado coletivo sobre assuntos relevantes, numa abordagem um pouco abaixo da superfície, onde possamos nos sentir seguros em debater, se mover por arenas diferentes e colaborar no entendimento individual dos assuntos em pauta, convidando pares à reflexão, e assim colaborar para definir as posições individuais e um discurso não vociferante, não polarizante, através de um pouco mais de reflexão e consciência sobre o impacto de nossas escolhas, de nossas palavras e das forças que nos mantêm nesta superfície discursiva.
A teoria em debate me deixa entrever que:
A) a decepção é um afeto fundamental na manutenção do status quo,
B) onde se consegue manter 2 grupos de tamanho relevante decepcionados com a mesma coisa, mas em condições de oposição raivosa, o trabalho de manipular uma parcela pequena para definir o destino desta coisa será menor do que o esforço de convencimento por argumentação (na verdade muito menor, e ainda mais flexível, posto a decisão pode estar à venda a qualquer momento, pelo maior lance), desde que eu possa influenciar este grupo numa ou noutra direção;
C) a profundidade da decepção individual mantém afastado uma parcela significativa que poderia contribuir no debate de forma mais franca e verdadeira;
D) o grau de desgosto (podemos pensar em raiva, pra facilitar) atua de forma e como que "balancear" as bordas deste tecido nas duas direções;
E) o tamanho do grupo a mover numa ou noutra direção será então proporcional à polarização desta trama, à rigidez dos posicionamentos individuais alinhados aos focos e a uma incerta flexibilidade / docilidade deste grupo reduzido;
F) a energia necessária para este convencimento também está relacionada com o que vou chamar de "grau individual de autonomia deliberativa", (sob o risco de vaias de toda espécie), e que procura representar quanto um indivíduo é apegado às suas convicções versus o influenciamento lateral pelos seus contatos - e portanto, agente redutor da exposição às mídias dominantes.
Acredito que aqui já chegamos numa profundidade suficiente para discutir a decepção como afeto fundamental neste processo: seja com candidato X, Y ou Z, seja com o sistema todo em si, seja como uma revisão do meu próprio comportamento na decisão passada sobre o meu voto de confiança em qualquer instância, posto que a decepção trata exatamente disto: coloquei meu voto de confiança aqui e me decepcionei.
E Kiko? Ainda não tenho claro o caminho, mas algumas luzes me guiam:
Simplificando, mais ou menos assim:
1. convencer um monte de gente é complicado.
2. se eu mantenho dois grupos em confronto permanente, para atingir uma maioria simples sobre determinado assunto precisarei influenciar apenas uma pequena percentagem para definir a posição.
Não tenho bases acadêmicas sobre isso (agradeço desde já referências pelo sim e pelo não).
Desde antes das eleições de 2002 eu observo a cena com este conceito, e a observação deu bastante pistas sobre como isso vem sendo feito. Precisamos transitar com cuidado pois temos muitas (e relevantes) variáveis em campos bem estudados como comunicação, sócio política, psicologia social entre diversos outros. Entretanto neste mundo de fb e assemelhados (assimilados?) percebo que o desenvolvimento das idéias entre pares poderá ter impacto comparável com o aprofundamento acadêmico nas decisões sociais de ciclo curto (entre estes, as eleições deste nosso tipo de democracia). Assim, e ainda por não termos tempo de estudar tudo o que gostaríamos, pretendo deste espaço uma "ágora" de aprendizado coletivo sobre assuntos relevantes, numa abordagem um pouco abaixo da superfície, onde possamos nos sentir seguros em debater, se mover por arenas diferentes e colaborar no entendimento individual dos assuntos em pauta, convidando pares à reflexão, e assim colaborar para definir as posições individuais e um discurso não vociferante, não polarizante, através de um pouco mais de reflexão e consciência sobre o impacto de nossas escolhas, de nossas palavras e das forças que nos mantêm nesta superfície discursiva.
A teoria em debate me deixa entrever que:
A) a decepção é um afeto fundamental na manutenção do status quo,
B) onde se consegue manter 2 grupos de tamanho relevante decepcionados com a mesma coisa, mas em condições de oposição raivosa, o trabalho de manipular uma parcela pequena para definir o destino desta coisa será menor do que o esforço de convencimento por argumentação (na verdade muito menor, e ainda mais flexível, posto a decisão pode estar à venda a qualquer momento, pelo maior lance), desde que eu possa influenciar este grupo numa ou noutra direção;
C) a profundidade da decepção individual mantém afastado uma parcela significativa que poderia contribuir no debate de forma mais franca e verdadeira;
D) o grau de desgosto (podemos pensar em raiva, pra facilitar) atua de forma e como que "balancear" as bordas deste tecido nas duas direções;
E) o tamanho do grupo a mover numa ou noutra direção será então proporcional à polarização desta trama, à rigidez dos posicionamentos individuais alinhados aos focos e a uma incerta flexibilidade / docilidade deste grupo reduzido;
F) a energia necessária para este convencimento também está relacionada com o que vou chamar de "grau individual de autonomia deliberativa", (sob o risco de vaias de toda espécie), e que procura representar quanto um indivíduo é apegado às suas convicções versus o influenciamento lateral pelos seus contatos - e portanto, agente redutor da exposição às mídias dominantes.
Acredito que aqui já chegamos numa profundidade suficiente para discutir a decepção como afeto fundamental neste processo: seja com candidato X, Y ou Z, seja com o sistema todo em si, seja como uma revisão do meu próprio comportamento na decisão passada sobre o meu voto de confiança em qualquer instância, posto que a decepção trata exatamente disto: coloquei meu voto de confiança aqui e me decepcionei.
E Kiko? Ainda não tenho claro o caminho, mas algumas luzes me guiam:
- a vociferação corrente (em qualquer das direções) parece colaborar e muito nesta situação, diminuindo a energia necessária para controlar um grupo de tamanho relevante;
- este processo parece realimentar ciclos polarizantes, cujo destino na maior parte das vezes tem cunho fascista (ou extremista, como dizem alguns);
- numa perspectiva global (ou nacional), que contenha um número muito grande de indivíduos, haverá sempre novos entrantes no processo e mudanças de opinião de lado a lado, e o enrijecimento da polarização é interessante para retardar a mudança de sua própria estrutura
- o grupo que detêm a maior força no design do processo da decepção -coletiva e individual, e ainda na sua condução coletiva- terá enorme influência nas decisões públicas (portanto políticas), sob o menor custo possível sempre que dois grupos hostis entre si se equivalham em proporção.
Ficaram de fora para exploração futura:
Os processos que demandam maioria qualificada, como são afetados nestas perspectiva?
E o que eu faço agora que a maior parte de meus contatos polarizados no fb já foram "expurgados"?
Sunday, March 25, 2018
A era das decepções - o que sobra depois da decepção?
Alguém que amo me decepcionou. Depois pediu desculpas -que aceitei, incluindo uma declaração de que o desculpava por o amar. Mas confesso que, ainda assim, sigo como que se estivesse encantado pelo sentimento da decepção...
Então me encontro na bifurcação: amo e quero conviver, mas não tenho vontade de me sentir decepcionado novamente, e daí procuro evitar a convivência.
Sem ingenuidades sobre as razões e fundamentos das decepções (que deverão ser tratados oportunamente), o caso é que alguém que amo fez alguma coisa que me ofendeu profundamente, por violar um princípio que eu considero (ou considerava até então) "sagrado" entre nós. E em seu pedido de desculpas o que veio foram as fundamentações de sua atitude onde, aqui numa super simplificação, o motivador de sua atitude que me decepcionou foi uma ofensa à ele -na verdade até bem pior: uma ofensa ao seu filho. Acho que dá pra encaixar aqui, ainda que não declarada assim, uma clara decepção que causei em meu amado neste episódio.
Outro alguém que amo me pergunta: "agora não é exatamente a hora do exercício da empatia e compaixão?"
Compaixão, no Aurélio sec XXI: "Pesar que em nós desperta a infelicidade, a dor, o mal de outrem; piedade, pena, dó, condolência." Não me sinto em falta de compaixão. A quantidade de vezes que choro ao me deparar com o sofrimento alheio e tal que as vezes acho que sofro de excesso, ou de falta de escoamento mais sadio para isto.
Não há falta de compaixão. O pesar que segue dentro da minha alma é enorme, apesar de o aceite do pedido de desculpas me ser sincero e profundo. E também sigo profundamente afetado pela dor que sinto ao perceber a dor dele e a dor deste seu filho, e em razão da qual, de uma forma ou de outra, sempre procurei nortear minhas atitudes dentro destas relações. Mas algo dentro ainda dói latejante.
Se realmente dei causa a uma ofensa (da qual também já pedi desculpas), a dor aparece onde fiz alguma coisa com determinado propósito e fui recebido com a percepção quase oposta ao propósito inicial, e portanto, desajeitado que sou, não tenho ânimo pra voltar a conviver antes de me melhorar a este respeito.
Se, por outro lado, a ofensa que senti veio por desajeito de meu amado, e ele tem uma justificativa aceitável pra ela (no caso a retribuição de uma ofensa), me envergonho ainda mais pela percepção de que meu amado me vê como alguém capaz de fazer alguma coisa reprovável com seu filho, ao ponto de o descontrolar.
Minha visão do perdão, alimentada pela antroposofia, pode ser vista mais ou menos assim: perdoar significa assumir o carma do outro, liberando forças espirituais cósmicas para tarefas voltadas ao futuro, e não compensatórias do passado. Não me sinto em falta de perdão. Desejo mesmo que ele siga em paz e serenidade pelo seu caminho, e onde for possível pra mim, assumir seu carma onde nosso encontro o pede, e mais ainda: quero fazê-lo. E talvez não fosse esta mesmo a intenção inicial da atitude que acabou gerando todo este imbroglio?
Então o que sobra depois da decepção?
Depois da decepção sobra inequivocamente o amanhã e todas as armadilhas das novas decepções que virão.
Para mim e este amado, resiste a necessidade de uma revisão em nosso acordo de convivência, onde as ofensas sejam melhor evitadas; e se percebidas, melhor enfrentadas. Mas até aqui ficamos apenas nas atitudes geradoras das decepções, enquanto ofensas percebidas. E todas as expectativas que formam a base das decepções?
Se não há desejo de conviver, talvez o tempo demande outras perspectivas. Talvez a vontade kantiana de enfrentar o dragão apesar do desejo contrário a isso seja o combustível pra o passo decisivo. Talvez somente a terapia possa dar conta desta situação.
Pra mim sobra o paradoxo da necessidade inexorável de entender melhor isso, talvez escrever mais, estudar mais, enfim, me preparar melhor para viver em um mundo onde eu acreditei que estaríamos sempre em processo de melhora continuada, e... me decepcionei!
Do livro O significado oculto do perdão, Sergei Prokofieff, Ed Antroposófica:
"Ao abordar aqui o tema do perdão, objeto de pregações geralmente religiosas, Sergei Prokofieff extrapola o mero âmbito da salvação pessoal para adentrar o do individualismo ético, caracterizado por Rudolf Steiner em A FILOSOFIA DA LIBERDADE.
Ressaltando o fato de que perdoar significa assumir o carma do outro, liberando forças espirituais cósmicas para tarefas voltadas ao futuro, e não compensatórias do passado, o Autor nos faz refletir sobre o quinhão de egoísmo que normalmente alimenta as ofensas e ressentimentos alegados na recusa em perdoar.
Dando vários exemplos de pessoas que foram capazes de perdoar em situações terríveis, ele desafia a coragem para a auto-superação e o sincero empenho no desenvolvimento humano geral, com base no amor e na liberdade."
Então me encontro na bifurcação: amo e quero conviver, mas não tenho vontade de me sentir decepcionado novamente, e daí procuro evitar a convivência.
Sem ingenuidades sobre as razões e fundamentos das decepções (que deverão ser tratados oportunamente), o caso é que alguém que amo fez alguma coisa que me ofendeu profundamente, por violar um princípio que eu considero (ou considerava até então) "sagrado" entre nós. E em seu pedido de desculpas o que veio foram as fundamentações de sua atitude onde, aqui numa super simplificação, o motivador de sua atitude que me decepcionou foi uma ofensa à ele -na verdade até bem pior: uma ofensa ao seu filho. Acho que dá pra encaixar aqui, ainda que não declarada assim, uma clara decepção que causei em meu amado neste episódio.
Outro alguém que amo me pergunta: "agora não é exatamente a hora do exercício da empatia e compaixão?"
Compaixão, no Aurélio sec XXI: "Pesar que em nós desperta a infelicidade, a dor, o mal de outrem; piedade, pena, dó, condolência." Não me sinto em falta de compaixão. A quantidade de vezes que choro ao me deparar com o sofrimento alheio e tal que as vezes acho que sofro de excesso, ou de falta de escoamento mais sadio para isto.
Não há falta de compaixão. O pesar que segue dentro da minha alma é enorme, apesar de o aceite do pedido de desculpas me ser sincero e profundo. E também sigo profundamente afetado pela dor que sinto ao perceber a dor dele e a dor deste seu filho, e em razão da qual, de uma forma ou de outra, sempre procurei nortear minhas atitudes dentro destas relações. Mas algo dentro ainda dói latejante.
Se realmente dei causa a uma ofensa (da qual também já pedi desculpas), a dor aparece onde fiz alguma coisa com determinado propósito e fui recebido com a percepção quase oposta ao propósito inicial, e portanto, desajeitado que sou, não tenho ânimo pra voltar a conviver antes de me melhorar a este respeito.
Se, por outro lado, a ofensa que senti veio por desajeito de meu amado, e ele tem uma justificativa aceitável pra ela (no caso a retribuição de uma ofensa), me envergonho ainda mais pela percepção de que meu amado me vê como alguém capaz de fazer alguma coisa reprovável com seu filho, ao ponto de o descontrolar.
Minha visão do perdão, alimentada pela antroposofia, pode ser vista mais ou menos assim: perdoar significa assumir o carma do outro, liberando forças espirituais cósmicas para tarefas voltadas ao futuro, e não compensatórias do passado. Não me sinto em falta de perdão. Desejo mesmo que ele siga em paz e serenidade pelo seu caminho, e onde for possível pra mim, assumir seu carma onde nosso encontro o pede, e mais ainda: quero fazê-lo. E talvez não fosse esta mesmo a intenção inicial da atitude que acabou gerando todo este imbroglio?
Então o que sobra depois da decepção?
Depois da decepção sobra inequivocamente o amanhã e todas as armadilhas das novas decepções que virão.
Para mim e este amado, resiste a necessidade de uma revisão em nosso acordo de convivência, onde as ofensas sejam melhor evitadas; e se percebidas, melhor enfrentadas. Mas até aqui ficamos apenas nas atitudes geradoras das decepções, enquanto ofensas percebidas. E todas as expectativas que formam a base das decepções?
Se não há desejo de conviver, talvez o tempo demande outras perspectivas. Talvez a vontade kantiana de enfrentar o dragão apesar do desejo contrário a isso seja o combustível pra o passo decisivo. Talvez somente a terapia possa dar conta desta situação.
Pra mim sobra o paradoxo da necessidade inexorável de entender melhor isso, talvez escrever mais, estudar mais, enfim, me preparar melhor para viver em um mundo onde eu acreditei que estaríamos sempre em processo de melhora continuada, e... me decepcionei!
Do livro O significado oculto do perdão, Sergei Prokofieff, Ed Antroposófica:
"Ao abordar aqui o tema do perdão, objeto de pregações geralmente religiosas, Sergei Prokofieff extrapola o mero âmbito da salvação pessoal para adentrar o do individualismo ético, caracterizado por Rudolf Steiner em A FILOSOFIA DA LIBERDADE.
Ressaltando o fato de que perdoar significa assumir o carma do outro, liberando forças espirituais cósmicas para tarefas voltadas ao futuro, e não compensatórias do passado, o Autor nos faz refletir sobre o quinhão de egoísmo que normalmente alimenta as ofensas e ressentimentos alegados na recusa em perdoar.
Dando vários exemplos de pessoas que foram capazes de perdoar em situações terríveis, ele desafia a coragem para a auto-superação e o sincero empenho no desenvolvimento humano geral, com base no amor e na liberdade."
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