Sunday, May 31, 2020

Um peixe em minha vida...

Experimentando o tal do "isolamento social" que se difundiu com o corona virus, recebo de um amigo das antigas um video relatando outro evento de grandes proporções que me impactou profundamente.
O tal video (link abaixo) pega o relato de alguém que esteve a bordo durante o primeiro acidente de grande porte ocorrido na plataforma de Enchova, PCE-1, em agosto de 1984. Entrei na Petrobras exatamente neste período (eu estava fazendo curso de formação em Macaé quando ocorreu este acidente), e posteriormente conheci muitos do que passaram por este evento lá a bordo.
...
Sobre o video, preciso destacar alguma inconsistência factual (a principal delas deve-se ao fato de somente ter morrido gente no "episódio" da queda da baleeira, ou seja, não relacionado diretamente com o acidente, mas um "sub acidente" dentro do evento principal). Outras inconsistências relevantes derivam do uso de imagens inadequadas, de outras unidades da Petrobras, e coisas do tipo, que podem levar a crer em desdobramentos que não correspondem aos fatos, mas que dentro do contexto apresentado não diminuiu em nada a emoção do relato, e especialmente as lembranças dos aprendizados (individuais e coletivos), e a construção histórica de nossas vidas, da Petrobras enquanto instituição, e sem medo de errar, da indústria do petróleo como um todo.
...
A PCE-1 foi meu principal local de trabalho por uns 5 anos, sendo que iniciei aos 21 anos de idade... Penso que a importância daquelas experiências vividas lá na minha formação profissional (inegável) e pessoal (que entendo como mais profunda ainda) foram co-fundadoras essenciais do ser que sou hoje. A vida nas plataformas naquela época, ainda antes do final da ditadura militar no Brasil e com  tecnologia de comunicações incipientes, tinha um distanciamento do mundo e um grau aventuresco que já funcionava como uma "cola social" daqueles grupos e das pessoas que ali se encontravam.
Para dar uma ideia aos mais jovens, não havia nem um telefone convencional para ligar para números domésticos, apenas para dentro da própria Petrobras; daí que para manter contatos pessoais falávamos uma ou duas vezes por semana via rádio, com direito a frases memoráveis como "te amo, meu amor, tenho muitas saudades.... câmbio!" 
Mas longe de ser por aí os fatores mais impactantes, ter vivido uma sociedade com tais características, que gostaria de destacar:
  • onde não circulava dinheiro, (exceção aos que fumavam, que compravam seus cigarros no "quiosque" que abria sob demanda, e quase mais nada que não fosse adquirido apenas uma vez durante uma jornada de 14 dias, tipo sandália havaiana, cortador de unha, etc)
  • cama, banho e comida estavam plenamente asseguradas
  • todos lá sem exceção tinham emprego formal e salário, 
  • todos se sentiam bem remunerados (assumo e uso esta generalização como ampla e quase incontestável, mas estou aberto à críticas se alguém percebe diferente)
  • a segurança a bordo era percebida ao mesmo tempo como inerente à atividade e transcendente à sociedade, especialmente neste período entre grandes acidentes da PCE-1 (outro evento de grandes proporções ocorreu em 1988)
  • todos tinham acesso á lazer, banho quente, e roupa lavada
paro por aqui por lembrar que as diferenças individuais vão se acentuando ao descer nesta lista, pois se ninguém mesmo usava dinheiro, já o lazer, por exemplo, era claramente "classista", reproduzindo assim a própria estrutura social da época, que, de forma simplificada, era composta de: um eng chefe, dois ou tres eng sub chefes, sete ou oito técnicos capatazes, uns setenta funcionários de remuneração variável entre técnicos e administrativos, outros setenta subalternos subcontratados cujo treinamento recebido era questionável e se sabiam subalternos (copeiros, cozinheiros, montadores de andaimes, pessoal da movimentação de carga, pintura e limpeza, etc). 

Nesta micro sociedade amadureci sob grandes responsabilidades, criando amizades atemporais, convivendo com diversos tipos de pessoas que nunca mais haveria de conviver sob circunstâncias tão próximas, e sem dúvidas, tão propícias a uma certa fraternidade e compaixão.
...
Daí revendo meus momentos ao assistir o relato, lembro de muita coisa que jaz nos fundamentos do que ora se apresenta novamente no enfrentamento coletivo do corona, atualmente no nível planetário (ou quase).
Vou destacar, pra tentar aprofundar adiante:
  1. a estrutura física disponível para emergências, sua adequação e o preparo do grupo para seu uso
  2. a estrutura da comunicação formal antes e depois dos acidentes
  3. a comunicação informal e seu impacto naquela sociedade e situação
  4. perfil sociográfico, exclusão relativa e "exo-exclusão"
  5. os vínculos afetivos que se criam em isolamento
  6. tabus e preconceitos, ontem e hoje
  7. traumas coletivos, medo e aprendizado








-----
1) Video: Escapando de uma plataforma de petróleo: https://youtu.be/N5NFSfw53cE (21/03/20202)
2) outra narrativa, mais técnica e mais isenta: http://inspecaoequipto.blogspot.com/2013/05/caso-016-plataforma-de-enchova-blow.html?m=1 (obs: contém link para reportagem da globo, que merece crítica particular não realizada aqui).

Saturday, March 28, 2020

Agora já é gratidão ao Bolsonaro!

Pelo post anterior recebi basicamente dois tipos de resposta (obrigado a quem me respondeu, só faz sentido assim...):
1. "boa, bom texto!", e
2. "aquele imbecil genocida.... ainda vai capitalizar em cima disso depois"

Um único amigo comentou sobre o título provocador, mas eu espero ter me justificado como dedicatória daquele texto.

Para esse aqui, que dedico a quem quer um mundo mais legal do que isso (vou explicitar isso como declaração de princípios, mas será em outro texto), daí por exclusão o tal bozo está de fora com todos os que ainda o apoiam como líder. E vou ser direto. Mas antes preciso declarar que a postura 2 acima me deixa perplexo pela falta de ideias, de qualquer ideia para contrapor esta situação, neste mundo séc XXI, cheio de ferramentas, de gente bem pensante, e de História construída e a construir...

A postura escolhida pelo bozo (pedir a volta da normalidade contrariando tudo e (quase) todos) está de acordo com os princípios que eu identifico que ele prega. Não há novidade. E posso resumir tranquilamente que vejo o racional por trás da atitude e até onde ela tem fundamento, se não, vejamos:
1. pelos registros de consulta rápida, a única causa de morte direta associada ao crash de 1929  nos EEUU foi o aumento de suicídios, e mesmo assim nem tão pronunciado de forma a dizer que foi muito impactante enquanto resultado, mas definitivamente devido aoo aspecto tabu do tema.
2. Por outro lado, a tal da gripe espanhola da 1918-19 deixou em seu rastro alguma coisa entre 50 e 100 milhões de mortes - dependendo da fonte, metodologia de contagem, etc. Foi gente praca.
3. O virus de agora parece já ter mostrado que suas características e efeitos demográficos são bastante distintos do evento histórico "gripe espanhola" (seletividade etária, letalidade por faixa etária, etc),
4, portanto nada parece indicar que teríamos um impacto nem comparável com aquele por causa deste corona vírus de agora mesmo que todas as demais condições fossem similares,  ou seja, mesmo que voltemos a mais usual das normalidades.

Reconheço que os dados são os que estão disponíveis e que posso estar enganado com relação a isso, mas esta é uma leitura perfeitamente possível dos quadros e informações disponíveis.

Então aqui está o ponto de ligação: as estruturas de sustentação sociais hoje são muito diferentes das de 1929, especialmente ligadas à produção e distribuição de alimentos, e mais ainda, as interligações econômicas globalizadas, representadas por esta excrescência (praticamente) descontrolada chamada bolsa de valores. Um crash como aquele iria trazer perdas colossais para a população, centradas pela ótica do empobrecimento (vide crise de 2008 e aumento sério dos moradores sem teto nos EEUU, e outros impactos de perdas sociais).

Lembrando que estamos olhado em retrospectiva e pela ótica que pode ser encontrada nesta "liderança" que temos, certo?

Entretanto nada do que foi dito aí em cima diminui o horror humano que está por trás de muitas mortes. Podemos até encontrar muitos aspectos que aumenta o horror, como a seletividade etária atual ("alguns velhinhos vão morrer"), e seu quase não comentado corolário de que isso vai ajudar no equilíbrio das contas da previdência social... Aqui começa o caminho que vai levar ao título deste artigo.

A declaração do bozo contém uma assertiva forte relacionada com a perspectiva dele do valor da vida humana (já sabido), com o valor do respeito aos mais velhos (novidade) e essencialmente, com a decisão sobre o que devemos fazer sobre isso, pessoalmente e coletivamente. Ao deixar explícito esta questão, ele expõe não só estes valores, como a estrutura social de decisão que temos hoje, e por definição reflexiva, a estrutura que teremos que revisar ao final da crise.

Uma decisão social desta natureza pode ser encarada como uma "escolha de Sofia", (filme de 1982, veja nas notas), onde teremos que escolher entregar um valor para preservar outro, sendo que os dois valores são essenciais. Eu definitivamente não considero que estamos diante de uma "escolha de Sofia", mas entendo que algumas pessoas podem achar isso. E entendo também que haverá pessoas que defenderão isso sem ter que "entregar nada", e que portanto são apenas mal caráter, mesmo. Mas não deixo de reconhecer que este assunto pode (e deve!) ser debatido de forma consciente, adulta e consequente, sob pena de não estarmos construindo uma decisão social por vias decentes, mas sim permanecendo ao nível argumentativo empobrecido que já mostrou o que pode fazer, nas eleições de 2018.

Se ainda não me fiz claro no que penso, posso colocar a questão de outra forma: como equilibrar a equação entre as sentenças "o estado tem o direito de exigir que o cidadão sem sintomas fique em casa neste momento" e "entendo as formas de contágio, os riscos de exposição minha e dos outros e decidi não cumprir o isolamento" dentro do momento presente? É preciso ainda também assinalar que apenas nos países onde a liberdade é relativa (China, Taiwan, Korea) o isolamento teve eficácia - sendo compulsório...
Ou ainda: se o isolamento for compulsório, onde irá diferir de uma possível compulsoriedade de ida ao trabalho por todos? No consenso cartesiano?

Daí que este momento grave e triste me possibilitou perceber com clareza onde quero atuar na vida acadêmica, na ligação de muitas áreas que sou afeito: "os mecanismos de decisão social e a participação do indivíduo, mediado pela percepção de risco". Muitas áreas se sobrepõem e se misturam neste tema, e ter clareza da temática vai possibilitar o desdobramento e aprofundamento nos mais diversos aspectos de estudo, aí incluídos História, Filosofia, Psicologia Social, Ciências Políticas, e claro Sociologia.

E onde tem gratidão?

Em três aspectos: além da visão pessoal desta descoberta, sinto gratidão pela expressão clara onde vejo nossa atuação em resposta aos amigos que estão na condição 2 lá de cima: considero evidente que ele nos deu elementos para aprofundar os mecanismos de participação nas decisões sociais mais imediatas, e daí que um montão dos conhecidos que escolheram o bozo podem ser chamados novamente ao debate, com muitos (espero eu) resgates ao trilho do pensar que foi embotado pelo anti petismo - e essencialmente até em convergência com o anti petismo, no sentido da urgência de se revisar os mecanismos de decisão social. E em terceiro lugar, um aspecto fundamental que decorreu da análise histórica pessoal dentro deste tema: houve uma eleição onde o mote era "a esperança vai vencer o medo". Eu acredito que isso contém o embrião e representa um pilar do que precisamos discutir: com medo temos um tipo de processo decisório. Com esperança, outro. O medo ganhou na eleição. Agora não podemos deixar que o discurso pobre e sem argumentos substitua e subverta nos mesmos moldes um processo decisório social de tamanha relevância. Sem paternalismos. Sem ingenuidade forçada. Sem desrespeito.

Notas
https://www.pnas.org/content/106/41/17290/tab-figures-data sobre suicídios em 1929
A escolha de Sofia, resumo: "A trama dirigida por Alan J. Pakula, a partir do romance de William Styron, conta a história de Sofia, uma polonesa que, sob acusação de contrabando, é presa com seus dois filhos pequenos, um menino e uma menina, no campo de concentração de Auschwitz durante a II Guerra. Um sádico oficial nazista dá a ela a opção de salvar apenas uma das crianças da execução, ou ambas morrerão, obrigando-a à terrível decisão." de https://gauchazh.clicrbs.com.br/geral/noticia/2015/08/o-que-significa-a-expressao-a-escolha-de-sofia-usada-pelo-secretario-giovani-feltes-4822225.html
https://noticias.uol.com.br/opiniao/coluna/2020/03/25/analise-quanto-a-tatica-politica-fala-de-bolsonaro-foi-perfeita.htm


Wednesday, March 25, 2020

Em defesa do Bolsonaro...

... ou a problemática da unanimidade.

Assistimos (quase todos) estarrecidos ao pronunciamento de Bolsonaro deste 24/03/2020, onde, a contra senso de toda a comunidade acadêmica e demais lideranças institucionais, minimiza o que a OMS já definiu como uma pandemia e que o mundo todo vem enfrentando com estratégia similar (isolamento social, etc). Em postura de ataque aos governadores, minimiza os efeitos do problema e recomenda o fim da quarentena / isolamento, reabertura de comércios e escolas, etc etc.

Vou deixar de lado a parte tragicômica de ter um "líder" com uma postura mal pesada, fora de contexto, descoordenado e  com aquele ar de pateta, fechando um pouco os olhinhos para ler o texto com a dificuldade de sempre, o que nos deixa aberta a possibilidade de ser pura deficiência visual, de leitura e compreensão do texto, ou o mais provável retardo entre a interpretação do texto pré-lido e a articulação vocabular, pretendo me focar no conteúdo daquela fala, e que contém elementos definidores das políticas em disputa e nas definições futuras em muitas esferas. Afinal ainda precisaremos decidir politicamento o que faremos disso tudo. Agora e sempre!

Do outro lado do mundo - e quase simultaneamente, o modelo seguido pelo bozo ensaia a mesma postura e conclusão, porém contendo elementos os elementos argumentativos que no pronunciamento não estão explicitados. Segundo El Pais (link abaixo), "Trump pretende afrouxar restrições": encerrar o isolamento - ou modificá-lo tecnicamente, conforme aparece em seu argumento -  e trazer de volta a normalidade social e econômica, mesmo tendo consciência de que isto custará vidas, pela racional compreensão de que os custos totais desta decisão já indicam que podem ser muito maiores do que sua compreensão dos valores das vidas humanas que serão perdidas).

Destaquei acima a dinâmica dos valores para que possamos aprofundar no que interessa: sendo a política uma atividade humana de decisão coletiva dos rumos daquela coletividade, estamos vivendo tempos interessantíssimos (pela pobreza e atraso inacreditáveis) no desenrolar das disputas, sem que o debate se aprofunde até um ponto que possamos efetivamente construir juntos uma decisão argumentada*. Afinal estamos falando de política, certo?

Então ao assumir sua postura publicamente (e aqui sem aprofundar nos fatores estratégicos que bozo e sua equipe podem ter levado em consideração), o presidente (eleito, lembra?) explicita francamente - ainda que sem argumentar e, acredito eu, até sem entender direito - um conflito humano de imensa profundidade: as diferenças entre o valor da vida humana individual e o valor econômico da vida em grupo daquela coletividade. E, claro, as consequências relacionadas com as decisões a partir deste ponto.

Temos muitas entradas e conceitos, que poderiam ajudar a desenvolver a partir deste ponto. Por exemplo: "A sociedade de risco global" do alemão Ulrich Beck, detalha sobre como este assunto -  transnacional por princípio - vem evoluindo desde 1986, apoiado por de uma "irresponsabilidade organizada". Ou: uma revisita ao Leviatã de Thomas Hobbes, que pode ser enviesada pela substituição do ponto central relacionado ao poder concedido, para repor "evitar uma morte violenta" por "evitar uma morte hororrosa". Ou Karl Popper e seu paradoxo da tolerância. Recomendo vivamente estas leituras e de outras que possibilitem o desenvolvimento e aprofundamento destas aspectos, mas prefiro me arriscar na busca de uma via direta ao ponto que possa nos auxiliar neste momento.

Nossas decisões coletivas se baseiam em valores de fundo. Nossos processos atuais de escolha representativa estão repletos de situações que, ou escondem os valores de fundo, ou pior, os confrontam entre si de uma forma (deliberada, penso eu) a gerar confusão, ao invés de propiciar um amadurecimento coletivo sobre os conflitos que ali existem.

Neste momento onde a humanidade praticamento toda enfrenta uma pandemia, em que a taxa de fatalidade está claramente associada à população idosa e em fragilidade (sanitária e social), temos uma nova chance histórica de assistir ao desenrolar dos eventos e decisões políticas transnacionais que nos afetarão a todos - todos sem exceção, para buscar arranhar as superfícies deste debate e expor o que está sendo efetivamente decidido.

Vou tentar um exemplo prático: um candidato que se apresenta dizendo que a tortura é método válido (de investigação ou punição) traz no seu bojo (bozo?) uma clara sinalização sobre sua visão relativa ao valor da vida humana, mas não fala isso! O que é falado e que contém esta visão pode ser resumido em: <<não podemos mais tolerar "ladroagem", custe o que custar>>. Afinal a fala "Deveriam ter sido fuzilados uns 30 mil corruptos, a começar pelo presidente Fernando Henrique Cardoso" deixa isso bem evidente. Queira o eleitor dele, queira não, com o pueril argumento de que "ele fala isso mas não é assim que ele pensa..."

Aqui está o ponto chave que penso termos ganhado neste momento. Esse custe o que custar (no caso do exemplo acima poderia ser "algumas vidas humanas torturadas por engano") é que está em jogo. Agora e sempre! Só que antes eram "os corruptos", e agora são nossos pais, tios, avós... E certamente  "mais alguns dos nossos", que isso, no jargão militar, seria "danos colaterais". Aliás, dando crédito ao meu irmão, que ontem mencionou ter visto um artigo que falava sobre as estratégias militares de guerra, sociedades que participam(ram) mais regularmente em guerras e as possuem como legado histórico já tiveram que lidar mais abertamente com o "envio dos nossos jovens para a guerra como forma de preservar nossos valores e sociedade". Talvez por isso possa ser argumentado publicamente.
Também é necessário acrescentar a perspectiva de que, no Brasil, a percepção geral de guerra ainda parece carecer de uma sensação mais efetiva / afetiva que perpasse mais perceptivelmente as diversas classes sociais, seja pela "falta" da guerra interna histórica que ocorreu em outras sociedades, seja pela permanente "guerra interna" que praticamos e que banalizou um número enorme de perda de vidas em muitos contextos, e que aqui não podem ser relativizados: fome, falta de assistência médica, bala perdida, "bala achada" disparada pelas forças públicas, etc. 

Vou concluir resumindo minha visão do momento: a abordagem militarizada contém de forma inequívoca um componente de "valoração" da vida humana individual que precisa necessariamente ser posicionada abaixo do coletivo. Isso justifica parcialmente o mote "estamos em guerra contra as drogas". Mas estar em "guerra contra o virus" torna esse mote não só obsoleto em seu uso, mas também um cruel delator das opções na mesa. Contra tudo e contra todos, Bolsonaro fez publicamente sua opção.

E relembrando outros momentos onde fomos chamados à mudança de comportamento, houve um momento que o destaque era o "vibrião do cólera" e o seu combate, agora voltamos à cena, com o "histrião do corona"...



PS: dedico este texto aos colegas e conhecidos que em 2018 optaram e puseram suas expectativas e votos neste cidadão Bolsonaro. Junto a tantos outros que haviam votado antes no PT e se desiludiram, para os quais os argumentos sobre as fragilidades sociais desta opção eram rechaçados primariamente só pela oposição "ao que está aí", serão importantes agentes de transformação que será necessária à frente. Que a possibilidade de argumentação e a defesa da vida se encontrem de forma mais suave e coerente daqui pra frente!
E por isso, convido a comentários, discordâncias e sugestões para as transformações sociais que estamos sendo convidados a viver daqui pra frente.



Notas e referências:
https://brasil.elpais.com/internacional/2020-03-25/trump-pretende-afrouxar-as-restricoes-antes-de-12-de-abril-enquanto-casos-de-covid-19-disparam-nos-eua.html
Política, na Wikipedia: (do Grego: πολιτικός / politikos, significa " de, para, ou relacionado a grupos que integram a Pólis ") denomina-se a arte ou ciência da organização, direção e administração de nações ou Estados; a aplicação desta ciência aos assuntos internos da nação (política interna) ou aos assuntos externos (política externa). Nos regimes democráticos, a ciência política é a atividade dos cidadãos que se ocupam dos assuntos públicos com seu voto ou com sua militância.
* chamo decisão argumentada pela ótica de Habermas do espaço social de discussão, ou ainda de Rorty e seu "ironismo liberal", como contraponto à decisão intempestiva, autoritária ou ditatorial, mesmo declarando aqui minha visão das limitações conceituais ou discordando destes autores sobre suas avaliações dos desdobramentos ou aplicabilidades de suas teorias.

Friday, June 28, 2019

A destruição dos Afetos (ou os afetos da destruição?)

Onde estará a origem dos afetos e sua consequente destinação na construção das nossas relações íntimas?

Falo do dinheiro. Nem quando falo do falo sinto ter tamanha abrangência na potencialidade do afeto destrutivo. Aqui já abandono o ramo do debate que tem representado em seu centro todas as formas de misoginia e dominação de gênero. Quero focar no papel representativo do dinheiro nos micro círculos de poder.

A óbvia e intrínseca relação dinheiro / poder está na base mesmo do que quero refletir, mas a camada afetiva individual que reage violenta e rapidamente quando o assunto dinheiro vem à tona me parece  estar engrossando de uma forma ainda mais geradora de couraça do que outras do time dos tabus gerais da humanidade. Ninguém parece indiferente ao assunto.

Não vou nem me atrever a passar pelo Freud, nem mesmo pelo seu tranquilo de ler Mal Estar na Cultura, pois o que quero  refletir hoje é sobre como uma noite ótima pode, em questão de minutos, deitar ralo afora os afetos de companheirismo, solidariedade e até mesmo de reconforto pelas boas conquistas da vida, pelo assinto mais árido, universal e pantanoso que enfrento.

A delicada e sutil teia de afetos que nos ligam uns aos outros, tem na expressão do dinheiro um papel ao mesmo tempo delicadíssimo e extremamente rude para sua sustentação. Como reforço destes afetos vem toda a emoção da solidariedade, da confiança de que não deixarei nada faltar pra você (e vice versa), e em seu bojo, todas as formas de medo da falta material que podemos imaginar, e nossas condições de enfrentarmos isso juntos. Porém não é preciso esticar quase nada este fio para que a sentença "o que é meu, é meu; e o que é seu, é seu!" logo esteja presente no destramar deste fio e sua quase imediata evaporação.

Esta faceta trágica (e até engraçada, sob certos pontos de vista), é que o dinheiro presente (esse que eu e você temos na carteira e no banco) difere muito do "dinheiro futuro", para fins da teia afetiva que nos liga.
A simplificação possível dos afetos presentes e futuros deste assunto talvez nos ajude a compreender uma parcela importante de nossas relações mais próximas. Pensar no que ainda terei que obrigatoriamente dividir com você no futuro atravessa nossa relação de confiança mútua sobre nosso comportamento naquele momento futuro, e implica em possíveis mudanças imediatas no nosso  comportamento presente, reconstruindo (e mais frequentemente até: redestruindo!) a teia dos nossos afetos mútuos.

Não ignoro as ligações fundamentais deste tema com as análises do sistema capitalista vigente e todas as suas interpretações possíveis, mas reconheço que não tenho competência para adentrar este campo. E ainda que eu não acredite que esta dinâmica de afetos possa ser fundamentalmente modificada pela extinção da propriedade privada dos meios de produção, percebo a possibilidade de que a teia dos afetos possa ser redesenhada, e as relações individuais e compartilhadas relativas ao dinheiro pode representar um caminho possível. Diria até inexorável enquanto a moeda for regulada por qualquer banco central. Mas aí já é outro tema que venho desenvolvendo: as moedas sociais.

Então, como conclusão temporária do tema destes afetos, compartilho duas perguntas essenciais:

  • Será que justamente o aspecto da relação individual com o dinheiro não será o de maior relevância para a mudança que precisamos nos campos das mudanças sociais? 
  • Como reforçar nossa ligação afetiva de forma saudável, se quando falamos de dinheiro o assunto por si só dispara todo um potente mecanismo de auto defesa e desafeto instantâneo?







Saturday, June 22, 2019

Fulton´s point. Ou o que eu vejo que você não vê - e vice versa

Cheguei na encruzilhada. Mais de uma vez. De novo...

A novidade é que nem sempre me dei conta que atravessava uma encruzilhada. E você me ajudou a ver. Peguei caminhos, ás vezes diretos, as vezes transversos. Muitos deles pensando estar no teu caminho. Olhando para trás penso que muitos, mas muitos mesmo, segui na esperança de te encontrar lá...

Mas lá, onde?

E essa esperança de te encontrar me colocou frente à algumas negociações (comigo mesmo?), que me trouxeram novamente à encruzilhada, exatinho que nem no filme, daquele lote dos muitos filmes que também vi enquanto corria alegremente esperançoso atrás de você - de cara lembro logo de Zabriskie Point, Dersu Uzala, Annie Hall... E muitos outros vieram na sequência, mas agora já sem suas indicações explícitas, daí eu procurava onde achava que estariam as tuas dicas. Vi tudo que consegui do Woody Allen, do Almodovar, do Kurosawa, do Ken Loach... e quando me dei conta já não tinha certeza do lado da encruzilhada que estava.

E pelos caminhos desta vida, de carro, a pé, ou de bicicleta, segui buscando, e quase sempre em frente. Agora a pergunta essencial parece querer cobrar um pedágio atrasado: ao atravessar uma encruzilhada afobado, e seguir em frente sem perceber que é uma encruzilhada, dá que tipo de responsabilidade ao caminhante?

Na tal encruzilhada recente encontrei uns personagens razoavelmente bem definidos (arquétipos?) que vou precisar listar pra não esquecer: o noviço talentoso e ousado, o mestre preso injustamente, a mocinha devassa violada, o policial subalterno e corrupto, o branco blues star e seus patronos: o novo e o velho diabo, além de um punhado de personagens que deram carne e sangue de verdade para a trama.

E tramado estava, pois o enredo trata exatamente de destramar o trato com o diabo, há muito aceito e agora reclamado como inválido. Me parece que tem outras camadas de arquétipos aqui....

Ainda esta semana estava comentando fábulas, e em especial a formiga e a cigarra, relembrando como estas histórias atravessaram muitas gerações solidificando arquétipos e narrativas, aplainando sutilezas e carregando conteúdos morais "trans-culturalizados" com suas traduções e tradições centenárias - milenares, talvez? E pela minha insistência em frequentar a sala escura, renovada pelas fabulosas re-criações das netflixes contemporâneas, revejo a história centenária do cinema assumindo o papel de aplanador de sutilezas e ressignificante da moralidade. Isso me traz de volta ao assunto da encruzilhada.

Qual era o trato? Tem moralidade na proposta "fiz um trato com o diabo"? E numa perspectiva individual, qual foi o trato com o diabo que eu mesmo fiz nas minhas encruzilhadas da vida?

No filme em questão duas perspectivas brotam sozinhas: o velho em seu trato original da juventude queria fama; o novo, ao ser conduzido à encruzilhada como que encantado pela possibilidade da fama, faz seu trato para resgatar o velho, colocando sua alma em jogo.

Não tenho estofo para aprofundar aspectos psicológicos mais elaborados, mas aprecio que se faça. E penso reconhecer algumas coisas que não aparecem em nossos papos, algumas delas assustadoramente relevantes para mim. E essa relevância aumenta em destaque quando penso que você está vendo algo tão relevante quanto, e que eu não estou percebendo. Daí a relação entre o velho e o novo na encruzilhada não conterá também este ingrediente, de que um não vê o que o outro está vendo? E a validade do resgate não se apoia exatamente nesta possibilidade, visto que não há explicitação de arrependimento (que seria o caminho cristão do resgate por si só, certo?)?

Saio do cinema com vontade de debater, novamente rememorando quando éramos jovens, e os cineclubes brotaram nos oferecendo esta prática. Mas agora, travado pelos excessos argumentativos e a ideia da opressão que estes acabam por causar, prefiro escrever - ato solitário que procura solidariedade numa região de afetos distintos. E na solidariedade procurada, me aparece o diabo querendo levar as almas, a minha e a tua. Sou grato pelo teu esforço de ajuda, que pressinto, ainda que não fosse, pelo resgate coletivo deste diabão que se impõem também coletivamente.

Mas pressinto também que minha música pode ajudar no resgate, estarrecedor paralelo com o filme, apesar de lá haver perdedores explícitos personificados. Então me ofereço docilmente (e talvez sem acreditar nisso tudo, como o jovem personagem do filme) na entrega do meu melhor possível para enfrentar o desafio. E ao convocar o episódio de Adão e Eva mais uma vez ao nosso debate, que no filme pode estar representado como o aprendizado clássico pregresso do rapaz, mudo de papel para a cigana possuída (a cobra, talvez?) e ofereço a reflexão dos sentimentos paternos longevos e seus reflexos em nós. Haverá ainda reflexão possível nisto?

Por isso tudo, e pelo grande afeto que sempre surge em nossas conversas, peço ajuda para que me mostres o que vês que eu não vejo.







Friday, May 17, 2019

o chifre dos outros - por que me atingiria?

Um dia, um sábio irmão me disse, quando eu ainda era criança: "se eu encontrar a mulher de um amigo na rua com outro cara, eu não conto! Pois se contar perco o amigo...."

Vendo o desenrolar deste governo "idiota útil"* que somos, penso nos (ex-?)amigos que declararam voto no atual idiota inútil na presidência, à época ainda como um mero "#elenão", em desesperança sangrenta a caminho.

Eu vejo três possibilidades clássicas para o amigo traído da história: A) nunca descobrir, daí segue como traído. Ou ainda, tomar conhecimento da situação, por si, pela própria mulher ou por outrem, e daí: B) desistir da relação, ou C) seguir na relação. É fundamental frisar que escolhe-se seguir na relação por muitos e diversos fatores quase sempre profundamente misturados entre si, desde a comodidade para evitar mudanças, até o orgulhoso pacto de tentar uma relação transcendente aos padrões - e será que já não havia este pacto antes do tal flagra? De qualquer forma, fora o pacto preexistente, que não se aplica em nosso caso de estudo à frente, existirá uma perda a enfrentar.

...

Ligando os pontos acima, penso nestes amigos e imagino seus sentimentos mais íntimos. Claro que ainda tenho uma reduzida esperança de poder conversar com estes, ainda que eu precise admitir que, numa visão pragmática do paradoxo do Karl Popper*, ainda não consigo nem pensar em interagir com estes.... Talvez o que sinto seja mesmo aparentado com àquela sensação do primeiro encontro com o amigo supostamente traído, logo após o tal flagra hipotético da historinha acima..

Eu costumava chamar isto de "vergonha alheia", mas as eleições que levaram o Bolsonaro ao poder tornaram este termo meio inútil, posto que elevou a vergonha à "padamares" impensáveis, a tal ponto de reverter a decisão antológica de nunca mais precisar mudar o lado da rua para evitar alguém, como um "ex-conge" assumido, por exemplo. Imagino hoje que alguns daqueles sentem seus "chifres eleitorais" já crescidos e vistosos e procurem uma auto avaliação que possibilitem sua circulação nas ruas sem nenhum tipo de constrangimento ou vergonha da relação estabelecida. Porque, ao meu ver, não se trata de "arrependimento". Arrependimento vem de um acordo aberto que não tenha dado certo. O candidato #elenão não trazia acordos para a mesa, nem fazia debates e nem apresentava planos de governo, confere? Portanto o que quero evidenciar aqui prefiro qualificar como vergonha: "sinto vergonha disto que fiz no passado!", e isto tem um sinônimo forte: desonra.

Pressinto que não são todos aqueles os amigos que sentem -e mesmo ainda que só um pouquinho, esta sensação de desonra. Mas tenho uma esperança! Pois neste caso as alternativas seriam ainda mais doloridas e afastadoras: assumir mais claramente o declarado gosto pela tortura, o racismo explícito e o egoísmo doentio do "farinha pouca meu pirão primeiro" mesmo estando de prato cheio até a borda.  E por isso considero que praticamente todos aqueles estão nos diversos estágios da tomada de consciência da desonra. Vou pegar emprestado o modelo de Kubler-Ross sobre o caminho de como lidar com as perdas:

  1. Negação: "Isto não pode estar a acontecer."
  2. Raiva: "Por que eu? Não é justo."
  3. Negociação: "Deixe-me viver apenas até ver os meus filhos crescerem."
  4. Depressão: "Estou tão triste. Porquê me hei-de preocupar com qualquer coisa?"
  5. Aceitação: "Vai tudo ficar bem.", "Eu não consigo lutar contra isto, é melhor preparar-me."

Por um caminho tortuoso cheguei onde queria: tirando os assumidos torturadores e demais "armamentistas" de plantão, creio que a enorme maioria de nós estamos atravessando estes estágios, qualquer quer que tenha sido nossa escolha nas últimas eleições, e temo que apesar de nossas escolhas terem sido diferentes - e até opostas, nas eleições, estejamos chegando juntos em um enorme grupo na fase da depressão, sem perspectivas sobre como seguir nos cenários que podem ser vislumbrados. "Kübler-Ross originalmente aplicou estes estágios para qualquer forma de perda pessoal catastrófica", e isso se aplica a mim, ou seja, eu me reconheço numa perda pessoal catastrófica. Desta forma, o "chifre dos outros" já me atingiu, e em cheio...


PS importante:
primeiro não quero polemizar sobre todo o preconceito capitalista patriarcal que o conceito "chifre" pode trazer, mas a sensação que pode estar acompanhada no qeu usei como exemplo. depois me coloco também na situação simétrica e me imagino criando vergonha alheia em muitas (mas muitas mesmo), inclusive uma antológica que vivi com o mesmo irmão quando era igualmente criança, e para quem peço perdão e compreensão pelos caminhos obtusos e idiotas que tomamos na vida...

* obrigado ao Bob Fernandes pelo vídeo de hoje, e pelo esclarecimento lógico para nominar abertamente o atual presidente, aqui: 
https://www.youtube.com/watch?v=EAJE0X8r1oI&feature=youtu.be

Falei de Karl Popper aqui:
http://pedrogmfontes.blogspot.com/2018/02/desservico.html

Kubler-Ross, da wikipedia:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Modelo_de_K%C3%BCbler-Ross


Wednesday, May 1, 2019

AlgoRítmico: do ritmo ao algoritmo

Da Wikipedia: "Em ciência da computação, um algoritmo é uma sequência finita de ações executáveis que visam obter uma solução para um determinado tipo de problema."

Num mundo filtrado, o facebook escolhe o que eu vejo.
Escolhia, não escolhe mais... 
e enquanto ele escolhia, eu encolhia!

Dia primeiro de maio, dia bem significativo para implementar um projeto de dois anos, que de certo modo parece contrariar certas tendências: encerrar minha conta do fb. 
Nem quero trazer à discussão esta decisão (afinal, eu publiquei 10 vezes esta intenção no próprio fb e não houve nenhuma - insisto: zero! respostas ou comentários sobre isto), mas usar meu e o teu tempo para refletir e aprofundar não só o papel das mídias sociais, como principalmente redefinir o tempo que nos consome em frente aos aparelhos eletrônicos e minhas fontes de informação e trocas afetivas. 
Será bom reviver minha decisão de, em 1996, retirar a TV de casa, objeto do qual nunca senti nenhuma falta em casa. Na época, junto com cortar o consumo de açúcar, eu era meio que um ET considerado muito esquisito. Acho que nunca deixei mesmo de ser esquisito, mas com o tempo passei a encontrar mais e mais gente que havia cortado o açúcar, e em seguida a TV. Passei a me sentir mais como um esquisito com pitadas de visionário.... Mas precisamos reconhecer o quanto os streams de video estão a desafiar a todos nós com flixs e flits diversos a nos afogar em séries, quase todas interessantes e bem feitas, mas que ao fim e ao cabo o que nos acrescentaram?

Do título, vou pescar o processo de como o fb (com referência, mas certamente não só ele) acaba ditando meu ritmo de todo dia, e acredito no teu também, se não todo, ao menos em parte. E claro que reconheço que não é exatamente o fb, ele é só talvez o melhor e mais abrangente exemplo. 
Os smartphones por si mesmo já são uma praga contemporânea, que sabidamente* podem filmar e gravar tudo que "assistem". O que mais me assusta - e fascina. ao mesmo tempo, é ver que pouca gente (eu generalizaria como "ninguém" mesmo) parece estar muito disposto a combater isto (já temos tanta coisa pra combater, não é?). 

Meu desejo é (re)criar um ritmo mais humano para mim e para quem desejar partilhar estas energias (re)criadoras. Daí este blog que já existia antes, vem bem a calhar como uma plataforma de contato aos que estão / estarão distantes. Mas já sofreu críticas duras (infelizmente não quanto ao conteúdo, pois eu sou do tipo de pessoa que gosta de criticas, especialmente as duras...). Mas exatamente por tentar trazer o conteúdo do fb para fora daquela plataforma, que vai aos poucos se transformando numa espécie de repositório de nossas coisas pelo conteúdo e pelas conexões que ali estão.

Mas eu não quero mais que o algoritmo "traga uma solução para um determinado tipo de problema" na minha comunicação. Até porque hoje eu tenho plena convicção de que o tal (algoritmo) opera não só com interesses escusos (semi)ocultos, como - pior, é manipulável por fora do sistema, pelo sistema maior (teoria da conspiração? Se for, prefiro correr o risco de remar contra a maré do que repetir o "eu te disse!" cruel e odiento....)

Então te convido a ...

  • manter contato, por aqui, por ali ou acolá (meu email é o mesmo há décadas)
  • escrever seus textos. Compartilhar o dos outros pode ser muito bom, mas desenvolver a escrita é melhor!
  • visitar outras fontes, na própria fonte ao invés de internamente ao fb. Daí dá pra perceber que não só o teu próprio "algoritmo" é mais eficaz, como principalmente que nós vamos quase sempre nas mesmas fontes e de lá vai ser mais fácil (eu acredito) ver que estamos só nas mesmas fontes - que afinal é o que o fb acaba fazendo como filtro pra nós mesmos
  • estudar filosofia e sociologia, outra vez na contramão, não é? E enquanto o rolo não passa, meu querido professor Clovis de Barros Filho está fartamente no youtube auxiliando aos que não tem os livros, ou matrícula na universidade ou ainda tempo para outra forma de aprendizado....
  • ler um livro ao menos entre cada série que assistas (melhor ainda: pelo menos um capítulo entre cada episódio, mas aí já é pedir demais, né?)
  • ligar para um amigo diferente e falar, de voz falada, e de tempo de escuta, ao menos uma vez por semana.
  • se apaixonar pela vida e pela humanidade, que me parece ser a fonte de energia essencial para resistir à barbárie à vista.
  • Resistir à barbárie. Com humanidade. Com decisão. Com cautela. Com amor. 


O próximo desafio agora será retornar ao modelo mais simples de smartphone, e tirar o sofá do George Orwelll da sala... 
E como não estou mais lá, que tal deixar de vez em quando um comentário aqui (ou me mande um email), pra isso não ficar sendo um palanque, e sim uma roda de conversa, hein?

* licença duplo sentido