Um querido de longa (longuíssima) data, que já havia sido levado pelo bolsonarismo pelo menos desde a época da facada, pela primeira vez num processo eleitoral vem me abordar, aparentemente querendo influenciar em minha decisão da escolha nesse segundo turno das eleições presidenciais de 2026.
Fiz como costumo fazer em meu estado maduro: propus debate de ideias, referências consistentes e abertura do coração e da mente para qualquer assunto. O que veio foi vociferação habitual: Lula é ladrão e corrupto, chefe da quadrilha que vem acabando com o país há décadas. Depois manda uma lista dos problemas sociais e políticos onde pensa que a conexão com Lula e de tal clareza que, aparentemente, nem se dá ao trabalho de ler com cuidado. Ali se misturam os problemas dos anões do orçamento e da forma de condução das casas legislativas entre 1999 e 2025 como se o presidente da república fosse realmente o responsável principal daquela caixa de pandora, sem nenhuma conexão histórica nem respeito aos dados e informações que possam suportar um debate elementar de ideias ou convergência de argumentos para a construção de uma plataforma de respeito mútuo e compreensão empática.

marco geodésico ao por do sol, em Portugal. Nesse dia levei meu vizinho para conhecer o local e
tive que ouvir que mudança climática não é e
nunca foi problema (afinal "sempre choveu na Terra")
Logo depois, uma mulher em sua fase madura, que vive com o filho adolescente num teto provido pela família, comida servida ao filho (e a ela mesma) por sua mãe, muitas vezes sem pronunciar nem mesmo um "muito obrigado por isso, mãe", e que diz que não gosta e não discutr política postar um video lá da primeira década dos anos 2000, onde um pastor (um pastor!), cristão (não tenho certeza se católico ou evangélico), cita Lula como patrocinador (e aparentemente único responsável) por um projeto para prestar o serviço de aborto pelo SUS. Esse pastor conclui que se Lula pensa assim, que siga para o quinto dos infernos... Caraca, que forte cena um pastor ocupar um púlpito para desejar e incentivar sua audiência a mandar um presidente eleito pelo povo para o inferno. Nem simbolicamente isso pode ser palatável. A menos que....
Em época de redes sociais e bolhas, cada um vê o que consegue ver, o que deseja ver e, principalmente, o que o algoritmo empurra nas telinhas, misturado com o que sai da telona, mesmo que em franca decadência mercadológica em relação àquelas. Daí retiro o conceito de "bolha" que cada um de nós se insere. Não é conceito meu, mas entendo e referencio em leituras e análises que sei interpretar. E justamente por saber interpretar, busco uma posição de distanciamento respeitoso, não só dos argumentos que são lançados nesse momento, como às pessoas que, estou cem porcento seguro, querem o bem para o país, a nação e o planeta, ainda que não pareçam ter consciência do impacto dessas decisões coletivas em outras coletividades e culturas distintas, como é nosso país gigante e super rico.
Só que nossa riqueza não é (e nunca foi) repartida de forma minimamente igualitária, resultando num país altamente diverso e profundamente desigual. Nós, cidadãos contemporâneos, poderíamos fazer alguma coisa para mudar isso, mesmo que a longo prazo? A vociferação e o comportamento de torcida não ajudam nesse caminho. Nem no controle dos incêndios e no processo de desertificação em curso que parecem não saber ao certo (ou talvez achem que é mesmo "tudo culpa do Lula").
Não tenho estômago e nem alegria em ver meu time de futebol ganhar por erros do juiz. Nem com gol de mão e coisas assim ("la mano de dios"?). E menos ainda paciência com os três aspectos que dão título ao artigo. A ingenuidade poderia até ser perdoada, caso se tratasse de ação com um mínimo de reflexão e desejo genuíno de entender o mundo. Não é isso que observo. Vejo uma ingenuidade preguiçosa e encostada em seu mundinho particular, zero de busca por uma leitura mais variada e mais ampla, sectarismo e mutismo, num caldo de pré depressão semi permanente (que deve ser creditada também ao Lula, claro).
Já o viés assumido, ou seja, repassar malfeitos de um personagem público sem se preocupar se ali está mesmo um condensado baseado em fatos e apurações, isso me entristece e preocupa mais... Aceito bem que tais fatos sejam apurados por alguém de sua confiança, mas preciso das referências e das fontes para que não voltemos à arquibancada pra xingar o juiz... Ratinho como fonte e referência jornalística não dá pra respeitar. Considero que falta um mínimo de respeito por si mesmo e por sua própria capacidade cognitiva e intelectual. Preguiça, talvez? Aculturação algorítmica, talvez?

uma das muitas, muitas lindas cachoeiras do estado do Espírito Santo. Mas como quase todas
está imunda por contaminação de esgotos, lavouras e dejetos de criação de rebanhos
Penso que essa nossa era será muito estudada no futuro, pela sociedade que deverá re-emergir na Terra após a catástrofe que já quase inevitavelmente irá se abater sobre nós, a começar pelos eventos climáticos extremos já em curso. Mas até mesmo isso não parece tema que possa ser conversado nem com um nem com outro desses interlocutores. Até pouquíssimo tempo atrás negavam que esse processo estivesse em curso. Agora não sei dizer. Vai ver agora pensam que isso também é tudo culpa do Lula....

