Monday, January 27, 2025

Mal estar na Ku-Ci: a franja e seu valor

Finalmente encontro a fundamentação que procurei durante longos anos: uma conjugação específica de conceitos e autores de referência que possam embasar (de forma suficientemente ampla e corajosa) o estudo da região fronteiriça entre o indivíduo singular e a coletividade que o acolhe e, simultaneamente, o restringe. A essa região chamo de "franja"

Pelo caminho do sociólogo Norbert Elias (1897-1990) se mostra a dupla de conceitos sociogênese e psicogênese, não como categorias antagônicas, mas complementares e mutuamente influenciados. De forma muito resumida, esses conceitos respondem pelos processos que, desde o nascimento, vão moldando os indivíduos singulares em suas características comportamentais e, ao mesmo tempo, os ambientes sociais ao quais pertencem, num processo histórico de longa duração, sem direção ou propósito pré definidos. As obras chaves aqui são O processo civilizador (1939), A sociedade dos indivíduos (1987), e Envolvimento e alienação (1983). Recontando a história das transformações sociais na Europa desde a era feudal, especialmente através da evolução dos costumes das classes dominantes, Elias constrói uma sociologia apoiada no próprio processo de mudança, no auto controle que deve restringir ações inadequadas e nos processos educacionais que vão incorporando o que vai se transformando em inadequado com o passar do tempo.  Várias outras obras de Elias acrescentam valor e interesse ao estudo, porém essas três são mesmo as que contém os elementos centrais e conceituais para o estudo que vislumbro.

Na outra vertente vem Sigmund Freud (1856-1939), nome que fala por si mesmo, e que já trabalhava no aprofundamento em estudos correlatos, ao buscar os mecanismos que fazem com que cada indivíduo singular se comporte como faz, bem como a estruturação psíquica dos processos interiores que possam ser vistos como gerais para todo ser humano. As obras Mal estar na cultura (1930) e O futuro de uma ilusão (1927) oferecem cuidadosas introduções ao tema, apresentando diversos aspectos do ambiente social que afetam o indivíduo singular em sua formação psíquica. Essas introduções, de leitura e digestão relativamente fácil, ao meu ver, poderiam ser oferecidas aos estudantes de sociologia como texto introdutório, de tão valiosas e acessíveis. Freud nos oferece, nessas obras - e certamente em muitas outras -, uma visão dos processos que são essencialmente oriundos das coletividades e que moldam as restrições que cada indivíduo singular terá que enfrentar em seu âmago, exatamente para exercer o pertencimento àquelas coletividades. Avança ainda sobre aspectos importantes de como se organizam e quais as energias psíquicas elementares que coadunam aqueles processos coletivos.

Ku-Ci foi a palavra que encontrei para representar a dificuldade de tradução das palavras em alemão kultur e civilisation (e que contrapõe as nossas equivalentes cultura e civilização). Essa dificuldade, expressa em diversos textos introdutórios e explicações dos tradutores, nos oferece um espaço de reflexão entre o que fazem de nós pelos processos das coletividades (que vou simplificar como civilização) e o que podemos, de forma autônoma e consciente, fazer de nós mesmos (simplificando: cultura). Esse espaço de reflexão podem ser representado exatamente através dos elementos que nos são legados pelos processos coletivos que nos possibilitaram (e nos limitaram a) ser quem somos singularmente.

Como mencionei antes, alguns tradutores e comentadores falam sobre essa dificuldade de tradução, não somente para o português, mas também para o inglês, posto que esses conceitos em alemão parecem distintos o suficiente para serem explicitados como aparte. Na outra margem daqui, o próprio Elias, em O processo civilizador, investe boas dúzias de páginas para, por ele mesmo, explicitar a distinção que cada uma dessas palavras representa na Alemanha e na contraparte comparada pelo francês e pelo inglês na França e na Inglaterra. Essa obra, publicada originalmente em 1939 e revisitada pelo autor em uma nova e longa introdução na edição de 1968, certamente contempla alguma coisa da visão de Freud, ali referenciado algumas vezes. Talvez seja importante ainda ressaltar que Freud, ele mesmo nessas duas obras, torna explícito que essa distinção no alemão entre cultura e civilização não tem relevância para suas elaborações, e que, para todos os fins podem ser conjugadas como integradas em um só conceito.

Franja... terreno árido e difícil, posto que na fronteira entre disciplinas bem vigiadas e cujo contorno é, por definição, irregular e interpenetrado. Meu desejo é aprofundar a compreensão sobre esses (e outros aspectos) da relação entre o "eu" e "o(s) outro(s)", numa linha de estudos que passa pela leitura desses textos, seu cotejamento cuidadoso e, como método de estudo e expressão daquele desejo, a reflexão coletiva sobre aspectos que nos escapam mais fugazmente quando estamos a refletir sobre o outro de forma individual singularizada....

Agora busco o grupo que, como conjunto de indivíduos singulares possam (e desejem) formar uma coletividade de estudo sobre o tema. Tema essa que considero, por sua própria natureza e implicações, essencial para a vida em paz. Comigo mesmo e com o outro.

Aguardo com esperança e com fervor sua manifestação sobre o desejo de enfrentar esse caminho, mesmo que seja somente em parte.

Tuesday, January 14, 2025

Duzentos anos de solidão: dobrando a aposta

A morte de José Arcadio Buendía (no livro), com a intenssíssima chuva de flores que se seguiu sobre Macondo, em meu íntimo como que multiplicou a morte, não exatamente em quantidade, mas especialmente em qualidade.


A enxurrada de notícias e novidades da era midiática parece ter arrefecido as conversas sobre a série Cem Anos de Solidão, e em especial, para mim, sobre as críticas comparativas ao texto do Garcia Marquez. Alias, ainda não vi comentarios sobre o personagem Marquez (coronel Gerineldo Marquez, valente e sensível, apaixonado por Amaranta na maturidade).

O "museu de grandes novidades" contemporâneo, que já escanteou o próprio Cazuza para um passado quase remoto, incorpora a obra audiovisual do livro norol das produções recentes. De minha parte eu gostaria de saber o alcance da série no aspecto comparativo entre os que haviam lido o livro antes e os que enfrentavam a história como novidade (ou seja, não conheciam previamente o texto). Meu avô dizia que um bom livro se lia primeiro a cavalo (como num trote, de forma rápida), e depois, com mais vagar, fazendo uma leitura a pé, parando para ver a vista sempre que desejar. Assim a ansiedade de saber onde a história vai dar cede espaço para a degustação do caminho e das sutilezas que podem ser encontradas.

Eu venho andando pelas sendas do livro novamente. Degustação fina. Quase um tapa com luva de pelica na enxurrada midiática que mencionei acima. Não se degusta nada correndo (a não ser, talvez, o próprio ato de correr). E esse pensamento me trouxe outra obra emblemática, de peso equivalente: Mal estar na cultura, Freud (1930). Nos aproximamos dos cem anos de lançamento dessa segunda obra, e seu conteúdo parece tão atual (e mal digerido socialmente) quando deve ter sido à época. Em terceira releitura, é igualmente uma degustação fina, ainda que de outra espécie e safra. Cada parágrafo tem conteúdo e precisão, objetivo e propósito, e sem empolação alguma que dificulte seu entendimento. Apenas densidade e urgência que a maturidade de Freud (com 74 anos de idade) precisava como que exalar, numa espécie de consolidação superficial de suas observações sobre a sociedade daqueles indivíduos (com licença e apud Norbert Elias). 

Tanta coisa pra ler, tanto video pra assistir, e eu aqui, querendo caminhar lentamente por obras centenárias... Então ao revisitar a ligação dessas obras, e estabeleço outras tantas ligações: o centenário de meu pai e seu sistema de aprendizado pela perda; minha Macondo de todo dia, aqui ou em solo velho europeu, com suas guerras e fuzilamentos quase pueris; as estratégias humanas de fuga ao medo da finitude que a tudo perpassa; e, finalmente, Beto Guedes & Ronaldo Bastos numa obra que aprecio muito: O sal da terra, que contém uma visão de mundo maravilhosa (na ingenuidade própria da época de sua feitura) e tem um trecho assim:

"Vamos precisar de todo mundo,
Pra banir do mundo a opressão,
Para construir a vida nova,
Vamos precisar de muito amor."

E não era exatamente isso que José Arcadio Buendía estava buscando quando saiu à procura de um lugar para se fixar após sua luta com Prudêncio Aguilar, que culminou com a fundação de Macondo?

Monday, January 13, 2025

Sabonete Phebo: lições & ilações

Equanimidade, igualdade, respeito às diferenças, autoridade e poder. O assunto é quente e escorregadio, posto que o respeito às diferenças esbarra mesmo na demanda pelo tratamento igualitário. O inferno é conseguir discernir bem onde e como isso se processa, e justamente naquela interface muito problematizável entre o “eu” e os outros, seja nas relações de um para um, de um para poucos ou nas de um para muitos.

De fato, essa interface pertence a um campo acinzentado, dominado academicamente pela psicologia. Entretanto seu processo de construção, assim como o propriamente do “eu” se ancora no ambiente social coletivo da criação, do aprendizado e das restrições impostas, que eu agora considero como parte do campo de estudo denominado controle social. 


Em minha história pessoal o sabonete Phebo é uma instituição. Seu cheiro muito peculiar não só rescende na casa toda, como denota um bom banho tomado, alguma aura de tradição e o simbolismo de uma coisa relativamente cara, cujo uso me era vedado na infância, posto que reservado exclusivamente para o uso de meu pai (e zelosamente guardado por minha mãe para que não se desviasse desse uso preconizado). Até hoje, marca agora internacionalizada e sabonete multi saborizado, segue sendo um símbolo de status que referencia um produto caro, ainda que não de segmento premium (ou de boutique), cujo acesso é possível para a classe média, ainda que com restrições para o uso do dia a dia. 

Ora, nem eu e, até onde eu saiba, nenhum de meus seis irmãos éramos muito chegados ao banho, atividade que consumia tempo precioso de descobrir a vida e por isso (antes da adolescência) era ação de se livrar rapidamente no menor tempo possível. Portanto o consumo familiar de sabonete para esse uso não deveria ser expressivo. Usava-se o palmolive mesmo, ou o gessy. Ou o que fosse o mais barato da época, e que concorria com o sabão de coco, que eu gostava como substituto no banho, mas que também tinha restrição de uso controlado – ainda que menos impositiva do que o odor de rosas da Phebo.

Hoje penso que compreendo a cabeça de meu pai e todas as suas possíveis justificativas para que seus produtos de higiene fossem diferenciados do restante de sua família. Não posso evitar o fato de que minha (ainda) maior mágoa com ele estar nessa área (limitava fortemente meu uso de fio dental como coisa cara), percebo que sua cegueira e burrice não o deixou ver que os custos de dentista e protético foram bem maiores do que os de fio dental e boa educação de saúde bucal. E, claro, dos meus afetos e de nossa relação pai-filho.

Entretanto essa relação pai-filho não era exclusiva: havia uma boa penca de outras singularidades em formação que já contavam com algum histórico em suas relações quando chegou minha vez. E, novamente claro, tinha minha mãe não só nessa mediação, mas principalmente contribuindo com ingredientes fundamentais para que algum equilíbrio fosse possível naquele conjunto de corações e mentes díspares, agitados, espertos e impulsivos. Sendo o caçula e ainda por cima recebendo o mesmo nome de nosso pai, não é difícil imaginar o quanto esse mundo já havia se transformado desde que o primeiro filho dessa união teve seus primeiros momentos de restrição e interdição.

E o que ainda segue me fascinando nisso tudo? Ora, naquele núcleo sempre houve diversos tipos de transgressão às regras específicas impostas por nosso pai, que podiam variar desde a grande desobediência de usar sua espingarda sem sua supervisão (que demandava ser guardada exatamente como encontrada para não suscitar nenhuma dúvida desta infração) até o furto ocasional de um de seus cigarros, que apesar de ocorrer de forma cuidadosamente furtiva, sempre resvalava na dúvida se aqueles eram contados e, portanto, o furto seria notado logo na sequencia. Portanto, na minha vez já eram fartamente conhecidos diversos mecanismos de burla, assim como muitos dos controles antes pesadamente impostos e punidos já estavam relativizados e/ou relaxados, ainda que não suspensos nem removidos.

Então quais aspectos e razões levaram a que não houvesse o uso ocasional (ou simplesmente o furto) do precioso sabonete Phebo, e nem mesmo que isso fosse aventado naquela coletividade? E nem mesmo que esse assunto tenha chegado até hoje para nossa reflexão?

Ou ainda de outra forma: quais os atributos específicos e simbólicos que o sabonete Phebo tem e representa ainda naquela coletividade que nos podem servir de alimento no processo de retrospectiva e de aprendizado sobre o mundo coletivo e sobre aquela interface do “eu” aos outros, especialmente sobre as lutas pela igualdade e redução de iniquidade e o correlato respeito aos mecanismos de controle social que nos fazem sermos como somos coletivamente?