Finalmente encontro a fundamentação que procurei durante longos anos: uma conjugação específica de conceitos e autores de referência que possam embasar (de forma suficientemente ampla e corajosa) o estudo da região fronteiriça entre o indivíduo singular e a coletividade que o acolhe e, simultaneamente, o restringe. A essa região chamo de "franja"
Pelo caminho do sociólogo Norbert Elias (1897-1990) se mostra a dupla de conceitos sociogênese e psicogênese, não como categorias antagônicas, mas complementares e mutuamente influenciados. De forma muito resumida, esses conceitos respondem pelos processos que, desde o nascimento, vão moldando os indivíduos singulares em suas características comportamentais e, ao mesmo tempo, os ambientes sociais ao quais pertencem, num processo histórico de longa duração, sem direção ou propósito pré definidos. As obras chaves aqui são O processo civilizador (1939), A sociedade dos indivíduos (1987), e Envolvimento e alienação (1983). Recontando a história das transformações sociais na Europa desde a era feudal, especialmente através da evolução dos costumes das classes dominantes, Elias constrói uma sociologia apoiada no próprio processo de mudança, no auto controle que deve restringir ações inadequadas e nos processos educacionais que vão incorporando o que vai se transformando em inadequado com o passar do tempo. Várias outras obras de Elias acrescentam valor e interesse ao estudo, porém essas três são mesmo as que contém os elementos centrais e conceituais para o estudo que vislumbro.
Na outra vertente vem Sigmund Freud (1856-1939), nome que fala por si mesmo, e que já trabalhava no aprofundamento em estudos correlatos, ao buscar os mecanismos que fazem com que cada indivíduo singular se comporte como faz, bem como a estruturação psíquica dos processos interiores que possam ser vistos como gerais para todo ser humano. As obras Mal estar na cultura (1930) e O futuro de uma ilusão (1927) oferecem cuidadosas introduções ao tema, apresentando diversos aspectos do ambiente social que afetam o indivíduo singular em sua formação psíquica. Essas introduções, de leitura e digestão relativamente fácil, ao meu ver, poderiam ser oferecidas aos estudantes de sociologia como texto introdutório, de tão valiosas e acessíveis. Freud nos oferece, nessas obras - e certamente em muitas outras -, uma visão dos processos que são essencialmente oriundos das coletividades e que moldam as restrições que cada indivíduo singular terá que enfrentar em seu âmago, exatamente para exercer o pertencimento àquelas coletividades. Avança ainda sobre aspectos importantes de como se organizam e quais as energias psíquicas elementares que coadunam aqueles processos coletivos.
Ku-Ci foi a palavra que encontrei para representar a dificuldade de tradução das palavras em alemão kultur e civilisation (e que contrapõe as nossas equivalentes cultura e civilização). Essa dificuldade, expressa em diversos textos introdutórios e explicações dos tradutores, nos oferece um espaço de reflexão entre o que fazem de nós pelos processos das coletividades (que vou simplificar como civilização) e o que podemos, de forma autônoma e consciente, fazer de nós mesmos (simplificando: cultura). Esse espaço de reflexão podem ser representado exatamente através dos elementos que nos são legados pelos processos coletivos que nos possibilitaram (e nos limitaram a) ser quem somos singularmente.
Como mencionei antes, alguns tradutores e comentadores falam sobre essa dificuldade de tradução, não somente para o português, mas também para o inglês, posto que esses conceitos em alemão parecem distintos o suficiente para serem explicitados como aparte. Na outra margem daqui, o próprio Elias, em O processo civilizador, investe boas dúzias de páginas para, por ele mesmo, explicitar a distinção que cada uma dessas palavras representa na Alemanha e na contraparte comparada pelo francês e pelo inglês na França e na Inglaterra. Essa obra, publicada originalmente em 1939 e revisitada pelo autor em uma nova e longa introdução na edição de 1968, certamente contempla alguma coisa da visão de Freud, ali referenciado algumas vezes. Talvez seja importante ainda ressaltar que Freud, ele mesmo nessas duas obras, torna explícito que essa distinção no alemão entre cultura e civilização não tem relevância para suas elaborações, e que, para todos os fins podem ser conjugadas como integradas em um só conceito.
Franja... terreno árido e difícil, posto que na fronteira entre disciplinas bem vigiadas e cujo contorno é, por definição, irregular e interpenetrado. Meu desejo é aprofundar a compreensão sobre esses (e outros aspectos) da relação entre o "eu" e "o(s) outro(s)", numa linha de estudos que passa pela leitura desses textos, seu cotejamento cuidadoso e, como método de estudo e expressão daquele desejo, a reflexão coletiva sobre aspectos que nos escapam mais fugazmente quando estamos a refletir sobre o outro de forma individual singularizada....
Agora busco o grupo que, como conjunto de indivíduos singulares possam (e desejem) formar uma coletividade de estudo sobre o tema. Tema essa que considero, por sua própria natureza e implicações, essencial para a vida em paz. Comigo mesmo e com o outro.
Aguardo com esperança e com fervor sua manifestação sobre o desejo de enfrentar esse caminho, mesmo que seja somente em parte.
