Friday, August 8, 2025

“sabe dos riscos?”

Num vídeo curto de uma pessoa um pouco agitada que recebi recentemente surge a pergunta "seu filho de treze anos sabe dos riscos que corre nas ruas?". Nesse ponto muitas considerações se faz necessário.


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Aquele vídeo curto pregava, curto e grosso, a obediência do adolescente ao seu tutelar responsável, atenção e cumprimento de regras, etc Sendo uma simplificação bastante rápida, nem quero entrar aqui agora no conceito de “controle social” e nem na pedagogia em si, (tão maltratada, coitada!), posto que ambos abrem uma das brechas preferidas da contemporaneidade, que é a da ideologia. Já ideologia é um conceito e uma ideia que eu gosto de transitar com alguma tranquilidade... Mas simplificar a resposta por "subordinação" me lembra bem a expressão “um tiro no próprio pé”, pois a adolescência implica em uma condição (necessária até) da exploração aos limites (no caso, limites corporais, sociais, intelectivos, afetivos, etc). 

No campo da pedagogia, creio que necessitamos sim debater educação, até de forma permanente, e especialmente sob a ótica de uma educação coletiva de forma mais ampla, completa e amorosa. E pensando assim, confesso uma parte acanhada de mim que passa a maioria absoluta do tempo pensando e buscando agir como educador (seja lá o que isso possa representar aqui, ou no mundo – portanto de cunho social por excelência).

Falamos da educação e da adolescência. Faltam risco, comunicação e ideologia, certo?

Os riscos na adolescência são, de certa forma, mais relacionados com as incertezas do que risco genérico. E incertezas de naturezas diversas e em mudanças específicas não convergentes: o meio ambiente em que cada um transita, o mix contemporâneo do mundo virtual com as realidades subjacentes, os algoritmos e seus impactos imediatos, controle da comunicação não só pelos poderosos, mas também e até que ponto desconhecido, pelos próprios algoritmos em si e seus comparsas das big techs... Ou por outro lado: os atuais riscos da adolescência não serão melhor mitigados pelo aumento da subordinação aos adultos. Urge nova organização e, principalmente, compreensão sobre esses riscos e seus impactos sociais no mundo conectado. Aqui eu paro de falar sobre riscos, para não arriscar ficar chato demais....


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Agora vou buscar um ponto de conexão entre a situação presente (de receber uma mensagem como video curto – ou no caso, uma quase enxurrada deles) e o próprio assunto trazido pela pessoa agitada, que era, agora de forma estruturada, a condição dos adolescentes em relação aos riscos aos quais eles e elas estão expostos nas ruas de hoje em dia.

Trazer um assunto, qualquer assunto, e em qualquer meio ou mídia, sem uma abordagem crítica, pode até ajudar pelas possíveis novas informações e dados, mas pode também, ao mesmo tempo, confundir e atrapalhar. Nos dias de hoje, no mínimo tirando nosso tempo e inundando nossas mentes com informação que nem conseguimos processar direito. Essa é também uma das formas de embotar nossa capacidade crítica sobre qualquer coisa: inunda de informação, mistura verdade com causos e opiniões, tempera bem com a proporção de medo que o motivo pede (e os interessados possam e queiram pagar). Daí o medo passa a fazer reflexivamente parte dos próprios riscos que descreve, procura alertar e mitigar. E o medo é um afeto importante, mas totalmente deformado exatamente pela estrutura dos riscos que nas sociedades contemporâneas, se configuram e são propagandeados com diversos interesses misturados – numa mistura muito peculiar como alavanca de lucro inerente ao modo de produção capitalista.

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E deixando para depois o momento de teorizar sobre os riscos, penso que, de certa forma, é exatamente a evolução da dimensão crítica que poderia ser talvez a melhor resposta para a pergunta original ("sabe dos riscos?"). E assim penso ter chegado ao último ponto dos pensamentos de hoje: a ideologia dominante e aspectos de nosso comportamento social. Com frequência eu me pergunto o quão suscetível alguém precisa ser para abraçar (e seguir abraçando) a causa do terraplanismo? Ou negar com veemência os indícios e fatos relacionados ao aquecimento global e sua conexão com insegurança climática e aceleração dos eventos de catástrofe de “causas naturais”?

Por ideologia, então, adoto a abordagem do Karl Mannheim: ideologia como produto das condições sociais e históricas, com características que tanto podem ser manipuladas para conduzir a ordem social vigente, como para possibilitar sua transformação. Na obra de Mannheim, dentro desse contexto, situam-se ainda a utopia, a construção de uma (ou mais) visão(ões) de mundo, e o princípio de que o conhecimento é situado, ou seja, é sempre condicionado pela posição social e histórica dos indivíduos que o produzem. 

Para lidar com essas complexidades das sociedades contemporâneas, respeitando valores como liberdade e respeito ao ser humano, será indispensável o amadurecimento de um senso crítico, entendido como a capacidade de filtrar e avaliar com alguma rapidez as informações que nos chegam, bem como questionar sua origem e, sempre que possível, avaliar se tem alguém interessado em ganhar alguma coisa no circuito onde as informações circulam. Daí somente depois de um “intervalo crítico”, decidir e proceder ao compartilhamento nos fóruns adequados ao nível crítico possível de cada mensagem.

Se trouxermos isso para a vida cotidiana, o “pensamento crítico” não é apenas desconfiar de informações ou ideias, mas reconhecer o pano de fundo histórico e relacional que molda até mesmo o modo como pensamos. É um exercício de perceber que o “óbvio” é quase sempre produto de um processo social longo — e que o próprio ato de criticar está inserido nessa teia.

Não será fácil. Mas penso ser mesmo o caminho para um equilíbrio qualquer no futuro. E quem sabe menos riscos para o mundo, para nossos adolescentes e nossos anciãos. Ou pelo menos que tais riscos restantes sejam mais interessantes, não é?


Monday, June 9, 2025

Fluxo: o relativo, o ralativo e...

 na luta pela existência singular, mas também na luta pelo mundo melhor que reveste nossa vida no planeta, me encontro com o termo "fluxo de caixa"....

solidamente ancorado na economia, trata-se de uma visão analítica sobre tudo o que entra e tudo o que sai no processo da vida de uma entidade. Daí estabelece-se alguns critérios fundamentais sobre a continuidade da vida em análise: será sustentável se ao longo do tempo sair menos do que entra, possibilitando poupança, investimento e também segurança para os tempos bicudos.

Para viver no mundo que vivo, preciso estar atento ao "meu fluxo de caixa", com as expectativas que me incorporam, meus compromissos assumidos, meus desejos e medos. Tudo relativo (e também ralativo) a todas as minhas relações com o mesmo mundo em que vivo...

Fico muito impressionado ao ver como as pessoas que convivo tratam seus dinheiros. E me impressiona ainda mais o recorte social que se faz ao pensarmos em todas as pessoas do mundo sob a ótica de quem tem ou não tem uma reserva de poupança.

E por conta disso, acabei pensando que o fluxo tem muitas outras camadas e significados. Dentre esses todos possíveis, pensei também no fluxo dos afetos que nos perpassam todos os dias, todos os momentos, em todas as nossas relações...

Daí cheguei ao que talvez seja o ponto de encontro disso aqui: o fluxo da caixa toráxica! Cuide bem do seu e daqueles das suas relações!

Wednesday, May 28, 2025

Consciência dos Riscos

Tempo passado e tempo futuro
Permitem apenas um pouco de consciência.
Estar consciente não é estar no tempo
Mas somente no tempo pode o momento no roseiral,
O momento no caramanchão com a chuva batendo,
O momento com as correntes de ar e as fumaças na igreja.
Ser lembrado; envolvido com passado e futuro.
Somente através do tempo o tempo é conquistado. 
T.S.Eliot 1935


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Um semestre de volta ao cotidiano no Brasil, e já me pego em alguns momentos de meditação sobre as diferenças e semelhanças da vida cá e lá. Não tem sido um exercício fácil, uma vez que isso envolve uma grande complexidade de fatores. E ainda mais: além do desafio da comparação estruturada entre duas culturas com imbricações profundas (Brasil e Portugal, no caso),  a própria dinâmica da relação entre essas duas culturas parece seguir aumentando tanto em complexidade, como em velocidade de transformação. Pense nisso...

local: gruta que chora. (eu também!)

O ambiente social que me sinto retornando nesse ano de 2025 tem como um dos alicerces o contínuo embate entre o direito de matar e o direito de viver*. Ainda que bastante simplificado, pode-se ver isso no conteúdo midiático a praticamente qualquer hora, qualquer dia. E num recorte também simplificado, podemos rapidamente notar o quanto as preocupações e os medos do cotidiano atuam na conformação das sociedades. 

Pronto: acho que montei uma moldura razoável onde pretendo pintar o quadro da "consciência dos riscos"

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1) Durante a infância (além dos riscos estritamente biológicos, genéticos, etc), nossos riscos são os que passam pelos filtros dos nossos cuidadores. Seu conteúdo é representado tanto pelo que fica retido nesses filtros, como pelo que passa através deles. Toda sorte de riscos permeia o processo de individuação das singularidades existenciais, desde as doenças autoimunes às contagiosas, os riscos do ambiente - imediatos ou globais, os riscos de perda dos afetos e de pertencimento, etc, e ainda a imensa gama dos riscos que os jogos e seu aprendizado nos proporcionam enfrentar, conscientemente ou não.

2) A adolescência marca a transição daquele filtro dos riscos, paulatinamente para o cuidar de si, sendo mesmo um fator chave no processo de autonomização: o adulto em preparação deve ser o próprio regulador dos riscos que participa, cria e assume. Isso se aplica tanto em sua singularidade e vida individual como, principalmente, em todas as coletividades que integra. 

3) Enfim, o agora adulto vai ser o agente social que vive os riscos no seu dia a dia: suas relações imediatas do cotidiano, suas fragilidades pessoais, suas necessidades de exposição e conquistas, etc. A atuação singular aqui poderá ser tão variada como o são cada singularidade humana, e isso já se amplia para um quadro demasiadamente complexo... 

Contudo eu acredito que podemos traçar um painel sobre a consciência que cada singularidade desenvolve sobre os riscos que participa. Certamente falo de um painel dinâmico, multifacetado e bastante complexo. 

Risco já se encontra bastante complexificado nas ciências sociais. A fronteira com a psicologia e outras ciências humanas certamente acrescenta ainda mais complexidade. Porém ao mesmo tempo oferece uma possibilidade de conexão dita ontológica (com ontologia aqui quero referir ao estudo e definição do que existe e do que é real; portanto encampa tanto o ambiente da existência social como o potencialmente vasto mundo interior de cada singularidade). 

Sentenças como "correr um risco calculado" ou "fazer o exame de risco cirúrgico" se integram ao cotidiano com significados tão imediatos para cada um, que dão a impressão de compreensão íntima e não ambígua. Mas a ambiguidade está pronta para se espalhar, tanto para dentro de cada um (endógeno) como para cada ambiente social onde aparece. 

Sobre o que chamei de endógeno não pretendo adentrar agora, pois penso ser assunto da psicologia: o que se entende por correr riscos, onde isso encontra meus medos, etc. Entretanto - e aqui mora o perigo! - exatamente na fronteira desse endógeno com os ambientes sociais é onde se processa boa parte dos fatores que alimentam, atenuam, evidenciam ou mitigam os riscos a que estamos sujeitos.

Tanto há para desenvolver a partir daqui que me sinto ao mesmo tempo motivado a seguir construindo (um livro?), mas também acanhado por ser um campo multidisciplinar em que tenho pouca bagagem para me apoiar. O que gosto mesmo é de pensar junto e de elaborar isso na fronteira mesmo do singular ao coletivo. 

Onde será que isso vai dar...?


Wednesday, February 12, 2025

Dogmatismo por um lado, idiotia por outro

 Tenho me dedicado ao estudo do que se chama "controle social". Área ampla e de intensa disputa, cuja primeira impressão parece confrontar a criminologia e o marxismo, via materialismo histórico. Enfrentar o conceito que pode se chamar de liberdade individual dentro dessas perspectivas tem sido um campo de desafios e prazeres da descoberta, e ainda base para acalorados debates sobre a grande merda em que estamos metidos na sociedade globalizada contemporânea...

Mídias sociais, cambridge analytica e facebook, trump e musk,  a reza ao pneu e os bonés bordados, e demais exemplos contemporâneos dos mecanismos de controle social são importantes referências na busca, mas não esgotam, por definição e excelência. Resta ao menos um espaço, tipo uma brecha, onde as consciências das individualidades singulares como que se debatem com as energias das coletividades, produzindo um estado de meta-equilíbrio (meta? epa!). Estado esse que responde pelo momento presente e seus todos riscos de qualquer possível futuro, coletivo e individual, pois...

Entre o "preciso me manifestar" e o "não posso me manifestar" florescem tipos de  microorganismos, fungos, vírus, bactérias, numa espécie de flora meta-intestinal (epa!!), campo de batalha pela melhor digestão possível da(s) realidade(s) circundantes, e que, em última instância, concorre para as decisões do dia a dia daquelas mesmas singularidades, sejam conscientes ou não.

O desafio, por um lado, é compreender que a idiotia existe e precisa ser considerada nesse estudo. Portanto, com gente que reza no quartel, que está convencida de que a terra é plana e que tem chip na vacina, recomendo Paulo Freire, paciência e meditação. Por outro lado, buscar soluções sociais (ou ferramentas, ou mecanismos de explicação, etc) desconsiderando as individualidades singulares que se engajam na disputa, como por exemplo, por uma educação sem ideologia (ou sem religião), parece igualmente nos aproximar da idiotia, agora pelo lado do dogmatismo. (Esse artigo não vai servir para aprofundar esses conceitos, de idiotia e dogmatismo; então fica abaixo o que o chatgpt define....)

Freud oferece bons insights sobre o lado da individualidade (especialmente nas obras O futuro de uma ilusão e Mal estar na cultura, ambas obras curtas e de leitura razoavelmente fácil). Ressalto dali a definição clara de que todos nós temos uma forma de ódio contra o coletivo, que afinal representa tudo que nos é interditado. Norbert Elias oferece uma visão do processo da civilização, que vai nos enfiando goela abaixo as interdições e demais comportamentos que nos mantém em nossos papéis sociais. Marcuse explora e explica em boa medida onde e como os prazeres mais fundamentais (do Freud) são utilizados pelas ideologias dominantes (do Marx) como ferramentas de manutenção da dominação social. Essas ideias, até aqui, me parecem claras e sem disputa. 

Daí a tentar explicar parte da massa europeia (todos com pelo menos12 anos de escola e literacia básica, além do bem estar social do séc XXI), com seus discursos de ódio, negacionismo quanto à covid-19 e apoio à idiotia assumida de André Ventura e similares que-tais, me provoca a buscar onde é que inteligência se meteu? Teria sido naquela brecha que menciono acima?

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do gpt:
Por favor defina idiotia:
""Idiotia" é um termo que pode ter diferentes significados dependendo do contexto:

  1. No sentido coloquial – Refere-se à falta de inteligência, discernimento ou bom senso. Pode ser sinônimo de tolice ou estupidez.

  2. No sentido médico (arcaico) – Antigamente, "idiotia" era um termo usado para descrever uma deficiência intelectual severa, mas esse uso está obsoleto e foi substituído por classificações médicas mais adequadas.

  3. No sentido filosófico e histórico – Em sua origem na Grécia Antiga, "idiotes" era um termo para cidadãos que não participavam da vida pública e política, sendo usados para designar indivíduos focados apenas em interesses privados.

O contexto define se a palavra tem um uso mais pejorativo ou técnico."

Por favor defina dogmatismo:

"Dogmatismo é a atitude ou posição que considera certas ideias, princípios ou crenças como verdades absolutas, inquestionáveis e imutáveis, sem permitir espaço para dúvidas, críticas ou revisões.

O termo pode ser usado em diferentes contextos:

  1. Filosofia – Refere-se à corrente de pensamento que aceita a possibilidade do conhecimento absoluto, em oposição ao ceticismo, que questiona a certeza do conhecimento.

  2. Religião – Representa a adesão rígida a doutrinas e princípios considerados sagrados e inquestionáveis.

  3. Ciência e Política – Pode indicar uma postura inflexível, onde uma teoria ou ideologia é aceita sem considerar novas evidências ou argumentos contrários.

No geral, o dogmatismo é frequentemente visto como uma barreira ao pensamento crítico e ao progresso do conhecimento."





Monday, January 27, 2025

Mal estar na Ku-Ci: a franja e seu valor

Finalmente encontro a fundamentação que procurei durante longos anos: uma conjugação específica de conceitos e autores de referência que possam embasar (de forma suficientemente ampla e corajosa) o estudo da região fronteiriça entre o indivíduo singular e a coletividade que o acolhe e, simultaneamente, o restringe. A essa região chamo de "franja"

Pelo caminho do sociólogo Norbert Elias (1897-1990) se mostra a dupla de conceitos sociogênese e psicogênese, não como categorias antagônicas, mas complementares e mutuamente influenciados. De forma muito resumida, esses conceitos respondem pelos processos que, desde o nascimento, vão moldando os indivíduos singulares em suas características comportamentais e, ao mesmo tempo, os ambientes sociais ao quais pertencem, num processo histórico de longa duração, sem direção ou propósito pré definidos. As obras chaves aqui são O processo civilizador (1939), A sociedade dos indivíduos (1987), e Envolvimento e alienação (1983). Recontando a história das transformações sociais na Europa desde a era feudal, especialmente através da evolução dos costumes das classes dominantes, Elias constrói uma sociologia apoiada no próprio processo de mudança, no auto controle que deve restringir ações inadequadas e nos processos educacionais que vão incorporando o que vai se transformando em inadequado com o passar do tempo.  Várias outras obras de Elias acrescentam valor e interesse ao estudo, porém essas três são mesmo as que contém os elementos centrais e conceituais para o estudo que vislumbro.

Na outra vertente vem Sigmund Freud (1856-1939), nome que fala por si mesmo, e que já trabalhava no aprofundamento em estudos correlatos, ao buscar os mecanismos que fazem com que cada indivíduo singular se comporte como faz, bem como a estruturação psíquica dos processos interiores que possam ser vistos como gerais para todo ser humano. As obras Mal estar na cultura (1930) e O futuro de uma ilusão (1927) oferecem cuidadosas introduções ao tema, apresentando diversos aspectos do ambiente social que afetam o indivíduo singular em sua formação psíquica. Essas introduções, de leitura e digestão relativamente fácil, ao meu ver, poderiam ser oferecidas aos estudantes de sociologia como texto introdutório, de tão valiosas e acessíveis. Freud nos oferece, nessas obras - e certamente em muitas outras -, uma visão dos processos que são essencialmente oriundos das coletividades e que moldam as restrições que cada indivíduo singular terá que enfrentar em seu âmago, exatamente para exercer o pertencimento àquelas coletividades. Avança ainda sobre aspectos importantes de como se organizam e quais as energias psíquicas elementares que coadunam aqueles processos coletivos.

Ku-Ci foi a palavra que encontrei para representar a dificuldade de tradução das palavras em alemão kultur e civilisation (e que contrapõe as nossas equivalentes cultura e civilização). Essa dificuldade, expressa em diversos textos introdutórios e explicações dos tradutores, nos oferece um espaço de reflexão entre o que fazem de nós pelos processos das coletividades (que vou simplificar como civilização) e o que podemos, de forma autônoma e consciente, fazer de nós mesmos (simplificando: cultura). Esse espaço de reflexão podem ser representado exatamente através dos elementos que nos são legados pelos processos coletivos que nos possibilitaram (e nos limitaram a) ser quem somos singularmente.

Como mencionei antes, alguns tradutores e comentadores falam sobre essa dificuldade de tradução, não somente para o português, mas também para o inglês, posto que esses conceitos em alemão parecem distintos o suficiente para serem explicitados como aparte. Na outra margem daqui, o próprio Elias, em O processo civilizador, investe boas dúzias de páginas para, por ele mesmo, explicitar a distinção que cada uma dessas palavras representa na Alemanha e na contraparte comparada pelo francês e pelo inglês na França e na Inglaterra. Essa obra, publicada originalmente em 1939 e revisitada pelo autor em uma nova e longa introdução na edição de 1968, certamente contempla alguma coisa da visão de Freud, ali referenciado algumas vezes. Talvez seja importante ainda ressaltar que Freud, ele mesmo nessas duas obras, torna explícito que essa distinção no alemão entre cultura e civilização não tem relevância para suas elaborações, e que, para todos os fins podem ser conjugadas como integradas em um só conceito.

Franja... terreno árido e difícil, posto que na fronteira entre disciplinas bem vigiadas e cujo contorno é, por definição, irregular e interpenetrado. Meu desejo é aprofundar a compreensão sobre esses (e outros aspectos) da relação entre o "eu" e "o(s) outro(s)", numa linha de estudos que passa pela leitura desses textos, seu cotejamento cuidadoso e, como método de estudo e expressão daquele desejo, a reflexão coletiva sobre aspectos que nos escapam mais fugazmente quando estamos a refletir sobre o outro de forma individual singularizada....

Agora busco o grupo que, como conjunto de indivíduos singulares possam (e desejem) formar uma coletividade de estudo sobre o tema. Tema essa que considero, por sua própria natureza e implicações, essencial para a vida em paz. Comigo mesmo e com o outro.

Aguardo com esperança e com fervor sua manifestação sobre o desejo de enfrentar esse caminho, mesmo que seja somente em parte.

Tuesday, January 14, 2025

Duzentos anos de solidão: dobrando a aposta

A morte de José Arcadio Buendía (no livro), com a intenssíssima chuva de flores que se seguiu sobre Macondo, em meu íntimo como que multiplicou a morte, não exatamente em quantidade, mas especialmente em qualidade.


A enxurrada de notícias e novidades da era midiática parece ter arrefecido as conversas sobre a série Cem Anos de Solidão, e em especial, para mim, sobre as críticas comparativas ao texto do Garcia Marquez. Alias, ainda não vi comentarios sobre o personagem Marquez (coronel Gerineldo Marquez, valente e sensível, apaixonado por Amaranta na maturidade).

O "museu de grandes novidades" contemporâneo, que já escanteou o próprio Cazuza para um passado quase remoto, incorpora a obra audiovisual do livro norol das produções recentes. De minha parte eu gostaria de saber o alcance da série no aspecto comparativo entre os que haviam lido o livro antes e os que enfrentavam a história como novidade (ou seja, não conheciam previamente o texto). Meu avô dizia que um bom livro se lia primeiro a cavalo (como num trote, de forma rápida), e depois, com mais vagar, fazendo uma leitura a pé, parando para ver a vista sempre que desejar. Assim a ansiedade de saber onde a história vai dar cede espaço para a degustação do caminho e das sutilezas que podem ser encontradas.

Eu venho andando pelas sendas do livro novamente. Degustação fina. Quase um tapa com luva de pelica na enxurrada midiática que mencionei acima. Não se degusta nada correndo (a não ser, talvez, o próprio ato de correr). E esse pensamento me trouxe outra obra emblemática, de peso equivalente: Mal estar na cultura, Freud (1930). Nos aproximamos dos cem anos de lançamento dessa segunda obra, e seu conteúdo parece tão atual (e mal digerido socialmente) quando deve ter sido à época. Em terceira releitura, é igualmente uma degustação fina, ainda que de outra espécie e safra. Cada parágrafo tem conteúdo e precisão, objetivo e propósito, e sem empolação alguma que dificulte seu entendimento. Apenas densidade e urgência que a maturidade de Freud (com 74 anos de idade) precisava como que exalar, numa espécie de consolidação superficial de suas observações sobre a sociedade daqueles indivíduos (com licença e apud Norbert Elias). 

Tanta coisa pra ler, tanto video pra assistir, e eu aqui, querendo caminhar lentamente por obras centenárias... Então ao revisitar a ligação dessas obras, e estabeleço outras tantas ligações: o centenário de meu pai e seu sistema de aprendizado pela perda; minha Macondo de todo dia, aqui ou em solo velho europeu, com suas guerras e fuzilamentos quase pueris; as estratégias humanas de fuga ao medo da finitude que a tudo perpassa; e, finalmente, Beto Guedes & Ronaldo Bastos numa obra que aprecio muito: O sal da terra, que contém uma visão de mundo maravilhosa (na ingenuidade própria da época de sua feitura) e tem um trecho assim:

"Vamos precisar de todo mundo,
Pra banir do mundo a opressão,
Para construir a vida nova,
Vamos precisar de muito amor."

E não era exatamente isso que José Arcadio Buendía estava buscando quando saiu à procura de um lugar para se fixar após sua luta com Prudêncio Aguilar, que culminou com a fundação de Macondo?

Monday, January 13, 2025

Sabonete Phebo: lições & ilações

Equanimidade, igualdade, respeito às diferenças, autoridade e poder. O assunto é quente e escorregadio, posto que o respeito às diferenças esbarra mesmo na demanda pelo tratamento igualitário. O inferno é conseguir discernir bem onde e como isso se processa, e justamente naquela interface muito problematizável entre o “eu” e os outros, seja nas relações de um para um, de um para poucos ou nas de um para muitos.

De fato, essa interface pertence a um campo acinzentado, dominado academicamente pela psicologia. Entretanto seu processo de construção, assim como o propriamente do “eu” se ancora no ambiente social coletivo da criação, do aprendizado e das restrições impostas, que eu agora considero como parte do campo de estudo denominado controle social. 


Em minha história pessoal o sabonete Phebo é uma instituição. Seu cheiro muito peculiar não só rescende na casa toda, como denota um bom banho tomado, alguma aura de tradição e o simbolismo de uma coisa relativamente cara, cujo uso me era vedado na infância, posto que reservado exclusivamente para o uso de meu pai (e zelosamente guardado por minha mãe para que não se desviasse desse uso preconizado). Até hoje, marca agora internacionalizada e sabonete multi saborizado, segue sendo um símbolo de status que referencia um produto caro, ainda que não de segmento premium (ou de boutique), cujo acesso é possível para a classe média, ainda que com restrições para o uso do dia a dia. 

Ora, nem eu e, até onde eu saiba, nenhum de meus seis irmãos éramos muito chegados ao banho, atividade que consumia tempo precioso de descobrir a vida e por isso (antes da adolescência) era ação de se livrar rapidamente no menor tempo possível. Portanto o consumo familiar de sabonete para esse uso não deveria ser expressivo. Usava-se o palmolive mesmo, ou o gessy. Ou o que fosse o mais barato da época, e que concorria com o sabão de coco, que eu gostava como substituto no banho, mas que também tinha restrição de uso controlado – ainda que menos impositiva do que o odor de rosas da Phebo.

Hoje penso que compreendo a cabeça de meu pai e todas as suas possíveis justificativas para que seus produtos de higiene fossem diferenciados do restante de sua família. Não posso evitar o fato de que minha (ainda) maior mágoa com ele estar nessa área (limitava fortemente meu uso de fio dental como coisa cara), percebo que sua cegueira e burrice não o deixou ver que os custos de dentista e protético foram bem maiores do que os de fio dental e boa educação de saúde bucal. E, claro, dos meus afetos e de nossa relação pai-filho.

Entretanto essa relação pai-filho não era exclusiva: havia uma boa penca de outras singularidades em formação que já contavam com algum histórico em suas relações quando chegou minha vez. E, novamente claro, tinha minha mãe não só nessa mediação, mas principalmente contribuindo com ingredientes fundamentais para que algum equilíbrio fosse possível naquele conjunto de corações e mentes díspares, agitados, espertos e impulsivos. Sendo o caçula e ainda por cima recebendo o mesmo nome de nosso pai, não é difícil imaginar o quanto esse mundo já havia se transformado desde que o primeiro filho dessa união teve seus primeiros momentos de restrição e interdição.

E o que ainda segue me fascinando nisso tudo? Ora, naquele núcleo sempre houve diversos tipos de transgressão às regras específicas impostas por nosso pai, que podiam variar desde a grande desobediência de usar sua espingarda sem sua supervisão (que demandava ser guardada exatamente como encontrada para não suscitar nenhuma dúvida desta infração) até o furto ocasional de um de seus cigarros, que apesar de ocorrer de forma cuidadosamente furtiva, sempre resvalava na dúvida se aqueles eram contados e, portanto, o furto seria notado logo na sequencia. Portanto, na minha vez já eram fartamente conhecidos diversos mecanismos de burla, assim como muitos dos controles antes pesadamente impostos e punidos já estavam relativizados e/ou relaxados, ainda que não suspensos nem removidos.

Então quais aspectos e razões levaram a que não houvesse o uso ocasional (ou simplesmente o furto) do precioso sabonete Phebo, e nem mesmo que isso fosse aventado naquela coletividade? E nem mesmo que esse assunto tenha chegado até hoje para nossa reflexão?

Ou ainda de outra forma: quais os atributos específicos e simbólicos que o sabonete Phebo tem e representa ainda naquela coletividade que nos podem servir de alimento no processo de retrospectiva e de aprendizado sobre o mundo coletivo e sobre aquela interface do “eu” aos outros, especialmente sobre as lutas pela igualdade e redução de iniquidade e o correlato respeito aos mecanismos de controle social que nos fazem sermos como somos coletivamente?