prólogo: texto (e sentimentos) em elaboração. Como se refere à relações e suas múltiplas decorrências, está aberto às transformações que virão justamente daí. Se estiver muito confuso, se for possível, me ajude...
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"meu" José Arcádio era diferente. Bem, digo era pois o vejo em pleno processo de transformação, em cada nova interação, em cada novo personagem e sua relação revisitada.
Enquanto consigo manter uma espécie de registro mental disso, me sinto a ganhar esse novo José Arcádio, assim como a cada reencontro com cada um dos meus irmãos partilhamos as novas riquezas que a vida nos tem dado. Aqui penso que achei uma importante chave de minha relação com essa obra audiovisual: se consigo reter afetos que julgo importantes ainda na esfera da consciência, posso revisitar minhas relações ao longo da linha de um tempo - ainda que esse tempo seja só meu.
Pois cada irmão que convivo hoje existe em mim como o seu presente, mas também como em todos os episódios que construíram nossa história comum. Uma queda da árvore, um corte profundo, uma despedida ardida, uma bicicleta partilhada... todos e cada um desses eventos me tem a mim e ao outro na minha lembrança afetiva e histórica.
Gosto de viver o tempo. E de pensar junto também com Heráclito, Agostinho, Caetano, Einstein, Elias sobre o tempo. Uma qualidade da vida que a todos afeta e que me parece uma das mais universais quanto à individualidade da compreensão. Em nossos dias, todo mundo sabe o que é o tempo. Em seu próprio saber, é certo, mas todos sabemos o que é o tempo (enquanto não tivermos que explicar, não é?)
Ao sentir então um José Arcádio se transformando (e transformando a mim também), através de sua relação com uma Úrsula (que até o momento não reconheço em absoluto), percebo um novo interstício a explorar com calma, cuidado e saboreio. Estou a chamar de franja a região espaço-temporal onde ficam como que acumuladas as reservas que precisamos para buscar compreender as coisas, e que podemos então considerar como "uma câmara de dúvidas".
Ao ponto: nas relações que observamos entre as outras pessoas, há sempre a possibilidade de uma compreensão frouxa a respeito do que ocorre ali. Essas observações precisam inexoravelmente guardar uma reserva para confirmação pelo tempo futuro sobre o que aconteceu ali. É claro que me refiro ao além do factual e da mera análise descritiva: se não somos mais o mesmo e nem o rio é o mesmo quando mergulhamos pela segunda vez, busco pelo que foi transformado em mim e no rio.
E quando colocamos a perspectiva das relações entre as outras pessoas, essa franja segue por caminhos muito misteriosos, posto que envolve não só a compreensão mútua entre eu e o outro, mas entre o outro e o terceiro. E vice versa. E essa imagem que cria entre o outro e o terceiro - para além da terceira margem do rio, me parece um espaço de muitos universos a explorar. Mas também um espaço profundamente reflexivo e solitário. E assim vejo um importante contributo que essa versão audiovisual me trouxe: que solidão!

Há um paradoxo na nossa solidão.
ReplyDeleteSomos criaturas criadas nos encontros ancestrais, - mãe/pai, avó/avô, bisavó/bisavô, até os primórdios da trajetória humana - mas após o corte da nossa ligação umbilical, por mais cuidados que tenhamos recebido, estamos estranhamente sós com nossas percepções e compreensões, por mais que elas sejam afetadas pela socialização e compartilhamentos culturais, a nossa presença no mundo é um fato único, irrepetível e irreversível, nesse paradoxo de vivermos nossa solitária trajetória imersa em tantas convivências. Talvez um dos motivos de todo impulso criador seja uma tentativa de, ao compartilhar nossas percepções e sensibilidade, reduzir a nossa inevitável solidão.