Sunday, March 22, 2026

Proporções & contrastes: síndrome de Poliana, ou quando acho que já não tenho mais como ajudar você

Como quase todos nós, eu classifico o mundo. Há uma divisão quase sempre bem definida em meu campo de visão: tem os mais altos do que eu, os outros são mais baixos; tem os mais leves do que eu, os outros são mais pesados; tem os mais ricos do que eu, os outros são mais pobres...

Entrada provocativa para a perspectiva de riqueza que quero evidenciar. Para o presente caso escolho trabalhar com o conceito de empoderamento (ou seja, ganho de poder), que em nossa sociedade capitalista fica quase que sempre circunscrito na questão econômico-financeira. Reconheço sua relevância (até para nosso uso aqui), mas mais do que isso, busco a transcendência do poder para ultrapassar a linha do "eu posso ajudar você", mais do que pela doação de alguma grana, ou ainda pela sinalização de que posso ajudar você caso você precise (afinal as propagandas dos bancos há muitos anos se posicionam nesse lugar: um banco amigo, que vai te ajudar nos momentos difíceis - a que custo, hein?)


A+B: quase sem perceber eu vejo o mundo com olhos de como eu poderia ajudar aquela pessoa? Percebo claramente um grupo relativamente grande que não precisa de minha ajuda, aí incluídos os que não querem minha ajuda, os que consideram que eu não tenho como ajudar e os que não aceitam ajuda de ninguém (ou pelo menos não pedem ajuda nunca, talvez pelo medo do efeito "custo do banco" nas relações sociais ultra individualizadas de nosso tempo). Porém ainda assim me percebo num conjunto de pessoas cuja proporção ao conjunto da humanidade está na posição de privilégio intenso: me sinto com poder de ajudar uma parcela enorme da população - da minha cidade, do meu bairro, do mundo... Mas consigo muito pouco no dia a dia, além do elementar e essencial do ser cordial e de limpar o canto que sujou.

Agora  quero retirar todo o aspecto material mais direto (não se trata mais de emprestar, ou mesmo dar algum dinheiro), e concentrar nas ajudas que fazem parte do que eu chamo de a parte mais nobre da teia de relações sociais: as contribuições positivas que recebi de você - e de quase todos os demais - com quem convivi esses anos todos. E que busquei repartir irmamente, como dizia minha mãe.

Daí retorno às proporções. Tenho três irmãos e três irmãs, assim como meus irmãos. Porém minhas irmãs já não tem a mesma sorte proporcional. Apesar de todos serem mais velhos do que eu, a idade já poderia nos unir mais do que separar. Mas tentar ajudar a todos se perde na balbúrdia infeliz do que, ao invés de se consolidar como um coletivo, se estilhaça a cada nova tentativa, em sete mil pedaços de singularidades travestidas de individualidades....

E seguindo nas proporções, nunca antes no mundo houve uma proporção tão grande de "mais velhos" do que mais novos: idosos e anciões agora são bastante comuns, alguns com cuidadores, outros não, mas sempre a necessitar de algum tipo de ajuda da coletividade, uns mais do que eu, outros menos. Eu ainda sigo tentando ajudar a quem reconheço com necessidade onde me sinto com alguma competência. Mas não é fácil.

Por esses dias me invadiu novamente uma sensação bem desconfortável, que faz parte do título desse texto: apesar de já ter tentando muitas vezes, agora sinto que não tenho mais como ajudar você. Mas dessa vez não me conformei. Deixei essa sensação fermentando dentro de mim, tentei trocar percepções com minha amada, matutei... Na tentativa de explicar, elaborei exemplos e alternativas, condições específicas e gerais, planos mirabolantes e conceitos psicológicos, autonomização e interdependências, utopias e distopias.

Cheguei talvez na "tríplice fronteira" do sistema eu-tu-mundo, onde as relações apresentam alguma coisa que pode se parecer com o que acontece no núcleo atômico: há uma poderosa força de atração que nos mantém juntos. Porém nas pequenas escalas dos núcleos singulares, há também a força de repulsão que é até bem mais conhecida: cargas de mesmo sinal se repelem. 


Nessa escala talvez a pergunta "como posso ajudar você hoje?" não só não faz sentido, como já participa até mesmo da força de repulsão, tornando a ajuda não só improdutiva, como muitas vezes impossível. Ou pior: se limitando ao (potencialmente) horroroso reducionismo de "será que dinheiro ajudaria?" 


Escolhi a imagem da flauta com chapéu na beira de um rio (no Caraça!), para simbolizar através da música a minha gratidão ao mundo pelas ajudas todas que recebi. Talvez não tenha sido de você de forma direta, talvez eu esteja enganado. Mas foram tantos e tantos os apoios que tive para que hoje eu possa dizer "eu toco flauta" que minha gratidão se expande ao infinito, até àquela fronteira da minha dificuldade em poder ajudar você. 

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mandalas feitas em papel maché, e pintadas por Míriam Leite