Acredito que a discussão sobre transposição de uma obra da literatura para o audiovisual já deve ter sido bastante presente, mas hoje abriu-se novo capítulo em meu horizonte. A criatividade exigida pelo sorver de uma obra (que delícia: sorver) parece estar associada a um certo conteúdo interior de cada indivíduo, onde a magia da descoberta de cada história talvez passe por um caldeamento único e singular dentro de cada alma, cada espírito, até que alcance seu cérebro - e daí retorna ao pensamento coletivo recriado, revivido e reproduzido em forma de afetos e lembranças.
Ocorre que obras literárias demandam que o córtex visual e auditivo do leitor sejam acionados pela própria criação adicional paralela à obra (como será a expressão facial de tal ou tal personagem? Qual será o tamanho daquela sala? Como será o tom da voz de Úrsula?). Toda essa fabricação interior de imagens e sons (imaginação) se acrescenta ao material fornecido pelo autor em sua história. Temos então, para cada leitor, uma Macondo com suas características específicas: cores e movimentos que variam ao passar do tempo pela pena do autor, mas que também se desenvolvem a partir do que foi elaborado parcialmente pelo próprio leitor no desenrolar da trama original.
A enxurrada audiovisual de nossos tempos (especialmente as de curta e curtíssima duração) acrescentam muitas possibilidades e confirmações sobre como o mundo é e como é visto por outras pessoas. Recriações audiovisuais de eventos e situações históricas são muitas vezes criticadas a respeito da exatidão histórica das roupas e ambientes, dos trejeitos e adereços, etc. Os diálogos propriamente ditos quase sempre precisaram ser adaptados, uma vez que também quase sempre já haviam sido "atualizados" em suas sucessivas edições literárias, para manter os padrões ortográficos vigentes, etc etc. A esse aspecto específico talvez precisemos de outros debates, e fica como indício da importância da fala na (re)criação dos afetos singulares.
Excetuando-se os diálogos, todos os demais aspectos que mencionamos são como que soterrados pelas obras audiovisuais: tudo que minha própria mente havia criado das deliciosamente difíceis leituras dos Cem Anos de Solidão, a partir da obra literária original são como que confrontados com as recriações feitas pela produção do audiovisual. Até ontem, por tudo que assisti de audiovisual e por tudo que li como obra literária e suas adaptações, havia julgado que somente uma transposição que "testemunhei" contribuiu efetivamente com alguma coisa para o crescimento da obra literária: A insustentável leveza do ser, livro de Milan Kundera, filme de Philip Kaufman (recomendo muito tanto o livro como o filme, mas sugiro que leia essa crônica até o final para decidir a ordem e o tempo a dedicar a esse processo).
Evitando me repetir sobre a importância da imaginação para o ser humano (onde minha referência principal é mesmo Rudolf Steiner), quero frisar a importância das vivências da infância na contação de histórias como fator de equipamento cognitivo e afetivo, para, a partir daí, fazer o salto direto para a leitura de livros como motor e engrenagem da imaginação humana (que está presente não só no ato de contar, mas também na recepção da contação de histórias, seja na infância, seja na vida adulta). E uma imagem, uma vez vista e elaborada, passa para a categoria de "lembrança". A imagem imaginada, além de passar para "lembrança" depois de anteriormente imaginada, vai sempre precisar passar pela reconstrução imaginativa em seu acesso posterior.
Aí vem o filme e retira de nós a possibilidade imaginativa, fornecendo os elementos perceptivos, sociais e ambientais que fazem as referências para elaboração e construção daquelas imagens, agora praticamente estéreis daquele tipo de imaginação a que me referi antes (a criação da imagem e do quadro imagético cujas raízes procuram o subjetivo e o singular, que por sua vez, procura algo do universal para sua própria referência).
Isso posto, hoje me aconteceu de ver uma obra que abriu-me nova percepção sobre o assunto: a série Cien Años de Soledad, acho que produzida mesmo pela Netflix. Todos os personagens duramente elaborados, confusamente distribuídos ao longo do tempo, meu e do livro, deliciosamente misturados pela repetição pantanosa dos nomes através das gerações, profundamente humanizados em mim em suas aparições, intercursos, ausências, forças e fraquezas, de repente me são servidos assim, inteirinhos na interpretação dos criadores audiovisuais, como que a me roubar minhas recordações latentes, latejantes e lá existentes.
Mas num esforço deliberado para reter as imagens minhas mesmas, produzidas, recriadas e relembradas pelas tantas releituras da obra, (e de certa forma facilitada pelo formato presente de mini série e suas interrupções), achei uma espécie de interstício nas camadas imaginativas. Talvez isso seja comum para algumas pessoas, especialmente as criadoras de conteúdo, talvez não. Mas para mim foi surpreendente -e muito bom- poder reter a imaginação anterior, mesmo vendo a imagem de um novo José Arcádio Buendia, tê-lo em múltiplas versões imaginárias, onde as anteriores não tenham sido completamente soterradas pelas agora fornecidas em excelente qualidade de produção audiovisual.
Toda essa forma de arqueologia mental deve ser objeto da psicologia e de ainda de outras áreas, e que vou adorar escutar de quem souber e quiser me falar a respeito. Meu ponto aqui é sobre aquele interstício que possibilitou que eu retivesse minha imaginação anterior, mesmo agora vendo o filme. Penso que isso só foi possível para mim pela experiência da leitura pelejada e repetida dessa obra. Não tenho conta das vezes que reli. Nem todas as vezes foram releituras completas (sou chegado a abrir numa página aleatória e ler tantas páginas quanto aprouver, sejam 3 ou 4, sejam 50 ou cem...). Mesmo assim, a sedimentação das imaginações anteriores pareceu se revestir como uma forma de impermeabilização das camadas imaginadas, que como que as protegeu e isolou. Daí as decorrências da pergunta-título: como será o processo dessa impermeabilização para cada um de nós? Quantas repetições de leitura teriam sido necessárias para essa percepção?
E a partir de agora: será que quero ver uma obra literária transcrita para o audiovisual antes de ler a obra? Quantas vezes? E ainda outras que não param de surgir: quem pode ser, para mim, referência opinativa sobre o tipo de obra que afeta o interstício? E mais, muito mais, que vem à minha mente para esse debate. Vou ficar feliz em encontrar quem se identificou com essas considerações e queira conversar a respeito. Você já leu o livro Cem anos de solidão?