Tuesday, December 24, 2024

Feliz natal

 


xarope pra tosse
tosse pra cachorro
cachorro que aqui é cão
correndo atrás
do xarope pra tosse
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onde vivo percebo que há uma mistura de alegria e tristeza pelo natal.

percebo também que sempre senti isso, mas somente aos poucos vejo esse sentimento se manifestar em outras pessoas. claro que sempre houve os que não gostam de natal e, principalmente, de fatores simbólicos cruciais aqui e ali envolvidos (e me irmano nesse sentimento)

então, como sempre fiz, reviso meus amores e deixo aqui uma cachoeira de afetos como representantes da parte que eu gosto do natal: desejo boas lutas pela construção da fraternidade, boas decisões nas relações imediatas, boas sortes no que não dependeu de suas decisões e serenidade na inexorável marcha para o amanhã junto de teus companheiros!!!

Monday, December 23, 2024

Macondo, Úrsula e Mascuito: o conflito que nos une

Dentro de cada um de nós vive Macondo, em um universo social que nos une e, ao mesmo tempo, transcende a nós todos em sua magia, fantasia e, principalmente, em sua realidade

É necessário iniciar esse texto considerando que nem todos nós já tivemos a experiência anterior da leitura da obra Cem Anos de Solidão. Portanto há alguma realidade em mim que compartilha uma Macondo com tantas diferentes pessoas; algumas que nem tem a obra como referência. Mas como vou utilizar a obra como fio de costura dessa ideia, penso que para chegar lá não posso me perder nas entradas e saídas desse perigoso pântano de ideias solitárias. Ou melhor: do "paradoxo de vivermos nossa solitária trajetória imersa em tantas convivências". Demais isso. Adorei, obrigado Mileto.

Do ponto a partir do qual eu observo o universo, além do tempo, outra faculdade que me parece bastante universal é o conflito. Temos os grandes e os pequenos, curtos e longos, avassaladores e crônicos, angustiantes e apaixonados... enfim, me parece que eu usaria a tarde toda e ainda não poderia extinguir categorias para classificar toda a sorte de conflitos que se apresentam em nosso mundo. Assim, proponho um recorte rápido para possibilitar a viagem sem devaneios extras desnecessários: há os conflitos internos de cada um de nós (ligados ao que eu quero e que posso ou não posso, e às minhas reações sobre o que se espera de mim, e que atribuo de forma simplificada ao campo da psicologia); e há os conflitos do mundo social, que abarcam toda a sorte das disputas, dos embates de opiniões, que envolvem a ordem estabelecida e os processos continuados que formataram os ambientes na configuração em que os encontramos (figuração, para citar Norbert Elias).

No caminho do herói, o conflito é exatamente o ponto onde lhe é dado a chance de seu ato grandioso. Esse parece um raro ponto positivo para enaltecer a existência de conflitos, especialmente nos dias que correm, onde a escalada dos conflitos oferece uma atmosfera omnipresente de risco iminente de destruição, individual e coletiva. 

Os obras de arte podem trazer para a superfície dos afetos conscientes os conflitos que a todos nos une (um paradoxo, por sinal, delicioso). Em toda obra de dramaturgia, observar e acompanhar o desenrolar dos conflitos é um poderoso gancho de identificação com a obra, seus personagens e situações. Creio que até aqui consegui um resumo bastante fidedigno sobre o impacto de Cem Anos de Solidão sobre mim: uma história sobre o tempo, sobre as relações em conflito e a solidão que ali se aninha, de forma inexorável, irremediável...

Então revisito Macondo, assistindo aos conflitos agora expostos em video, mas os confrontando com aqueles mesmos conflitos narrados, ainda guardados nas minhas memórias, das leituras anteriores. E percebo o quanto a tensão existente em cada conflito foi relevante para minhas percepções e imaginações. É quase como o tensionamento único de uma corda que faz produzir uma determinada sonoridade e sua duração de ressonância. (A imagem de minha sinfonia pessoal de conflitos como metáfora de minha própria singularidade foi tão arrebatadora que tive que parar um pouco saborear e escutatear sua ressonância...)


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Uma vez tendo chegado ao ponto de minha reflexão através do texto acima, retorno à obra audiovisual e à você, leitor/a, para dedicar atenção a esse aspecto específico da obra. Os conflitos que encontrei na leitura do livro são contados de forma tão sensivelmente integrados aos atributos humanos de cada personagem, que suas resoluções se seguem sem produzir praticamente nenhum solavanco na fluidez da leitura. E nem havia me dado conta de quão sutil podem ter sido essas decisões nas definições da escrita. Agora percebo com clareza que o emaranhado de conflitos, diálogos, considerações e as seguintes resoluções de cada conflito da trama é fundamental para a riqueza da elaboração de cada personagem dentro de nós, seja pela identificação (positiva ou negativa) dentro do cenário do conflito, seja pela ressonância que cada conflito propõe dentro de nós (na melhor expressão da adrenalina que a vivência nos causa).

E ali está a Úrsula que ainda não havia reconhecido no filme: ao se posicionar como uma mulher forte e questionadora (muito mais do que a minha Úrsula), redesenha seus conflitos de forma a redesenhar-se a si própria até o limite de já ser, para mim, uma nova personagem. 

O obra escrita me permitiu atravessar por seus inúmeros conflitos, num ritmo em que as resoluções se faziam dentro de seus contextos sociais, acomodando os interesses em disputa, as verdades em rota de colisão, e, principalmente, as visões de futuro que cada personagem haveria de ter sobre as consequências na resolução de seus conflitos. Guardo minhas mágoas ou as devolvo? Brigo por meus ideais ou abdico? Caso com Pilar ou fujo de Macondo? Assumo minhas deformidades ou as escondo?

Partindo daqueles personagens e também da relação daqueles com muitos de meus queridos, percebi que a narrativa dos conflitos e o peso com que cada ação narrada nos atinge, pode mudar de forma profunda a análise a a identificação que tenho com cada personagem. E isso pode mudar tudo dentro da minha relação com a obra. 

E o Mascuito.... quem lembra do Mascuito?

Sunday, December 22, 2024

A franja e eu (ao amigo Mileto)

prólogo: texto (e sentimentos) em elaboração. Como se refere à relações e suas múltiplas decorrências, está aberto às transformações que virão justamente daí. Se estiver muito confuso, se for possível, me ajude...

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"meu" José Arcádio era diferente. Bem, digo era pois o vejo em pleno processo de transformação, em cada nova interação, em cada novo personagem e sua relação revisitada. 

Enquanto consigo manter uma espécie de registro mental disso, me sinto a ganhar esse novo José Arcádio, assim como a cada reencontro com cada um dos meus irmãos partilhamos as novas riquezas que a vida nos tem dado. Aqui penso que achei uma importante chave de minha relação com essa obra audiovisual: se consigo reter afetos que julgo importantes ainda na esfera da consciência, posso revisitar minhas relações ao longo da linha de um tempo - ainda que esse tempo seja só meu.


Pois cada irmão que convivo hoje existe em mim como o seu presente, mas também como em todos os episódios que construíram nossa história comum. Uma queda da árvore, um corte profundo, uma despedida ardida, uma bicicleta partilhada... todos e cada um desses eventos me tem a mim e ao outro na minha lembrança afetiva e histórica.

Gosto de viver o tempo. E de pensar junto também com Heráclito, Agostinho, Caetano, Einstein, Elias sobre o tempo. Uma qualidade da vida que a todos afeta e que me parece uma das mais universais quanto à individualidade da compreensão. Em nossos dias, todo mundo sabe o que é o tempo. Em seu próprio saber, é certo, mas todos sabemos o que é o tempo (enquanto não tivermos que explicar, não é?)

Ao sentir então um José Arcádio se transformando (e transformando a mim também), através de sua relação com uma Úrsula (que até o momento não reconheço em absoluto), percebo um novo interstício a explorar com calma, cuidado e saboreio. Estou a chamar de franja a região espaço-temporal onde ficam como que acumuladas as reservas que precisamos para buscar compreender as coisas, e que podemos então considerar como "uma câmara de dúvidas".

Ao ponto: nas relações que observamos entre as outras pessoas, há sempre a possibilidade de uma compreensão frouxa a respeito do que ocorre ali. Essas observações precisam inexoravelmente guardar uma reserva para confirmação pelo tempo futuro sobre o que aconteceu ali. É claro que me refiro ao além do factual e da mera análise descritiva: se não somos mais o mesmo e nem o rio é o mesmo quando mergulhamos pela segunda vez, busco pelo que foi transformado em mim e no rio.

E quando colocamos a perspectiva das relações entre as outras pessoas, essa franja segue por caminhos muito misteriosos, posto que envolve não só a compreensão mútua entre eu e o outro, mas entre o outro e o terceiro. E vice versa. E essa imagem que cria entre o outro e o terceiro - para além da terceira margem do rio, me parece um espaço de muitos universos a explorar. Mas também um espaço profundamente reflexivo e solitário. E assim vejo um importante contributo que essa versão audiovisual me trouxe: que solidão!


Friday, December 20, 2024

Quantas vezes quero ler uma obra antes de.... (para o amigo Guilherme Buendia)



Acredito que a discussão sobre transposição de uma obra da literatura para o audiovisual já deve ter sido bastante presente, mas hoje abriu-se novo capítulo em meu horizonte. A criatividade exigida pelo sorver de uma obra (que delícia: sorver) parece estar associada a um certo conteúdo interior de cada indivíduo, onde a magia da descoberta de cada história talvez passe por um caldeamento único e singular dentro de cada alma, cada espírito, até que alcance seu cérebro - e daí retorna ao pensamento coletivo recriado, revivido e reproduzido em forma de afetos e lembranças.

Ocorre que obras literárias demandam que o córtex visual e auditivo do leitor sejam acionados pela própria criação adicional paralela à obra (como será a expressão facial de tal ou tal personagem? Qual será o tamanho daquela sala? Como será o tom da voz de Úrsula?). Toda essa fabricação interior de imagens e sons (imaginação) se acrescenta ao material fornecido pelo autor em sua história. Temos então, para cada leitor, uma Macondo com suas características específicas: cores e movimentos que variam ao passar do tempo pela pena do autor, mas que também se desenvolvem a partir do que foi elaborado parcialmente pelo próprio leitor no desenrolar da trama original. 

A enxurrada audiovisual de nossos tempos (especialmente as de curta e curtíssima duração) acrescentam muitas possibilidades e confirmações sobre como o mundo é e como é visto por outras pessoas. Recriações audiovisuais de eventos e situações históricas são muitas vezes criticadas a respeito da exatidão histórica das roupas e ambientes, dos trejeitos e adereços, etc. Os diálogos propriamente ditos quase sempre precisaram ser adaptados, uma vez que também quase sempre já haviam sido "atualizados" em suas sucessivas edições literárias, para manter os padrões ortográficos vigentes, etc etc. A esse aspecto específico talvez precisemos de outros debates, e fica como indício da importância da fala na (re)criação dos afetos singulares.

Excetuando-se os diálogos, todos os demais aspectos que mencionamos são como que soterrados pelas obras audiovisuais: tudo que minha própria mente havia criado das deliciosamente difíceis leituras dos Cem Anos de Solidão, a partir da obra literária original são como que confrontados com as recriações feitas pela produção do audiovisual. Até ontem, por tudo que assisti de audiovisual e por tudo que li como obra literária e suas adaptações, havia julgado que somente uma transposição que "testemunhei" contribuiu efetivamente com alguma coisa para o crescimento da obra literária: A insustentável leveza do ser, livro de Milan Kundera, filme de Philip Kaufman (recomendo muito tanto o livro como o filme, mas sugiro que leia essa crônica até o final para decidir a ordem e o tempo a dedicar a esse processo). 

Evitando me repetir sobre a importância da imaginação para o ser humano (onde minha referência principal é mesmo Rudolf Steiner), quero frisar a importância das vivências da infância na contação de histórias como fator de equipamento cognitivo e afetivo, para, a partir daí, fazer o salto direto para a leitura de livros como motor e engrenagem da imaginação humana (que está presente não só no ato de contar, mas também na recepção da contação de histórias, seja na infância, seja na vida adulta). E uma imagem, uma vez vista e elaborada, passa para a categoria de "lembrança". A imagem imaginada, além de passar para "lembrança" depois de anteriormente imaginada, vai sempre precisar passar pela reconstrução imaginativa em seu acesso posterior.

Aí vem o filme e retira de nós a possibilidade imaginativa, fornecendo os elementos perceptivos, sociais e ambientais que fazem as referências para elaboração e construção daquelas imagens, agora praticamente estéreis daquele tipo de imaginação a que me referi antes (a criação da imagem e do quadro imagético cujas raízes procuram o subjetivo e o singular, que por sua vez, procura algo do universal para sua própria referência).

Isso posto, hoje me aconteceu de ver uma obra que abriu-me nova percepção sobre o assunto: a série Cien Años de Soledad, acho que produzida mesmo pela Netflix. Todos os personagens duramente elaborados, confusamente distribuídos ao longo do tempo, meu e do livro, deliciosamente misturados pela repetição pantanosa dos nomes através das gerações, profundamente humanizados em mim em suas aparições, intercursos, ausências, forças e fraquezas, de repente me são servidos assim, inteirinhos na interpretação dos criadores audiovisuais, como que a me roubar minhas recordações latentes, latejantes e lá existentes.

Mas num esforço deliberado para reter as imagens minhas mesmas, produzidas, recriadas e relembradas pelas tantas releituras da obra, (e de certa forma facilitada pelo formato presente de mini série e suas interrupções), achei uma espécie de interstício nas camadas imaginativas. Talvez isso seja comum para algumas pessoas, especialmente as criadoras de conteúdo, talvez não. Mas para mim foi surpreendente -e muito bom- poder reter a imaginação anterior, mesmo vendo a imagem de um novo José Arcádio Buendia, tê-lo em múltiplas versões imaginárias, onde as anteriores não tenham sido completamente soterradas pelas agora fornecidas em excelente qualidade de produção audiovisual. 

Toda essa forma de arqueologia mental deve ser objeto da psicologia e de ainda de outras áreas, e que vou adorar escutar de quem souber e quiser me falar a respeito. Meu ponto aqui é sobre aquele interstício que possibilitou que eu retivesse minha imaginação anterior, mesmo agora vendo o filme. Penso que isso só foi possível para mim pela experiência da leitura pelejada e repetida dessa obra. Não tenho conta das vezes que reli. Nem todas as vezes foram releituras completas (sou chegado a abrir numa página aleatória e ler tantas páginas quanto aprouver, sejam 3 ou 4, sejam 50 ou cem...). Mesmo assim, a sedimentação das imaginações anteriores pareceu se revestir como uma forma de impermeabilização das camadas imaginadas, que como que as protegeu e isolou. Daí as decorrências da pergunta-título: como será o processo dessa impermeabilização para cada um de nós? Quantas repetições de leitura teriam sido necessárias para essa percepção? 

E a partir de agora: será que quero ver uma obra literária transcrita para o audiovisual antes de ler a obra? Quantas vezes? E ainda outras que não param de surgir: quem pode ser, para mim, referência opinativa sobre o tipo de obra que afeta o interstício? E mais, muito mais, que vem à minha mente para esse debate. Vou ficar feliz em encontrar quem se identificou com essas considerações e queira conversar a respeito. Você já leu o livro Cem anos de solidão?