Tuesday, December 24, 2024

Feliz natal

 


xarope pra tosse
tosse pra cachorro
cachorro que aqui é cão
correndo atrás
do xarope pra tosse
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onde vivo percebo que há uma mistura de alegria e tristeza pelo natal.

percebo também que sempre senti isso, mas somente aos poucos vejo esse sentimento se manifestar em outras pessoas. claro que sempre houve os que não gostam de natal e, principalmente, de fatores simbólicos cruciais aqui e ali envolvidos (e me irmano nesse sentimento)

então, como sempre fiz, reviso meus amores e deixo aqui uma cachoeira de afetos como representantes da parte que eu gosto do natal: desejo boas lutas pela construção da fraternidade, boas decisões nas relações imediatas, boas sortes no que não dependeu de suas decisões e serenidade na inexorável marcha para o amanhã junto de teus companheiros!!!

Monday, December 23, 2024

Macondo, Úrsula e Mascuito: o conflito que nos une

Dentro de cada um de nós vive Macondo, em um universo social que nos une e, ao mesmo tempo, transcende a nós todos em sua magia, fantasia e, principalmente, em sua realidade

É necessário iniciar esse texto considerando que nem todos nós já tivemos a experiência anterior da leitura da obra Cem Anos de Solidão. Portanto há alguma realidade em mim que compartilha uma Macondo com tantas diferentes pessoas; algumas que nem tem a obra como referência. Mas como vou utilizar a obra como fio de costura dessa ideia, penso que para chegar lá não posso me perder nas entradas e saídas desse perigoso pântano de ideias solitárias. Ou melhor: do "paradoxo de vivermos nossa solitária trajetória imersa em tantas convivências". Demais isso. Adorei, obrigado Mileto.

Do ponto a partir do qual eu observo o universo, além do tempo, outra faculdade que me parece bastante universal é o conflito. Temos os grandes e os pequenos, curtos e longos, avassaladores e crônicos, angustiantes e apaixonados... enfim, me parece que eu usaria a tarde toda e ainda não poderia extinguir categorias para classificar toda a sorte de conflitos que se apresentam em nosso mundo. Assim, proponho um recorte rápido para possibilitar a viagem sem devaneios extras desnecessários: há os conflitos internos de cada um de nós (ligados ao que eu quero e que posso ou não posso, e às minhas reações sobre o que se espera de mim, e que atribuo de forma simplificada ao campo da psicologia); e há os conflitos do mundo social, que abarcam toda a sorte das disputas, dos embates de opiniões, que envolvem a ordem estabelecida e os processos continuados que formataram os ambientes na configuração em que os encontramos (figuração, para citar Norbert Elias).

No caminho do herói, o conflito é exatamente o ponto onde lhe é dado a chance de seu ato grandioso. Esse parece um raro ponto positivo para enaltecer a existência de conflitos, especialmente nos dias que correm, onde a escalada dos conflitos oferece uma atmosfera omnipresente de risco iminente de destruição, individual e coletiva. 

Os obras de arte podem trazer para a superfície dos afetos conscientes os conflitos que a todos nos une (um paradoxo, por sinal, delicioso). Em toda obra de dramaturgia, observar e acompanhar o desenrolar dos conflitos é um poderoso gancho de identificação com a obra, seus personagens e situações. Creio que até aqui consegui um resumo bastante fidedigno sobre o impacto de Cem Anos de Solidão sobre mim: uma história sobre o tempo, sobre as relações em conflito e a solidão que ali se aninha, de forma inexorável, irremediável...

Então revisito Macondo, assistindo aos conflitos agora expostos em video, mas os confrontando com aqueles mesmos conflitos narrados, ainda guardados nas minhas memórias, das leituras anteriores. E percebo o quanto a tensão existente em cada conflito foi relevante para minhas percepções e imaginações. É quase como o tensionamento único de uma corda que faz produzir uma determinada sonoridade e sua duração de ressonância. (A imagem de minha sinfonia pessoal de conflitos como metáfora de minha própria singularidade foi tão arrebatadora que tive que parar um pouco saborear e escutatear sua ressonância...)


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Uma vez tendo chegado ao ponto de minha reflexão através do texto acima, retorno à obra audiovisual e à você, leitor/a, para dedicar atenção a esse aspecto específico da obra. Os conflitos que encontrei na leitura do livro são contados de forma tão sensivelmente integrados aos atributos humanos de cada personagem, que suas resoluções se seguem sem produzir praticamente nenhum solavanco na fluidez da leitura. E nem havia me dado conta de quão sutil podem ter sido essas decisões nas definições da escrita. Agora percebo com clareza que o emaranhado de conflitos, diálogos, considerações e as seguintes resoluções de cada conflito da trama é fundamental para a riqueza da elaboração de cada personagem dentro de nós, seja pela identificação (positiva ou negativa) dentro do cenário do conflito, seja pela ressonância que cada conflito propõe dentro de nós (na melhor expressão da adrenalina que a vivência nos causa).

E ali está a Úrsula que ainda não havia reconhecido no filme: ao se posicionar como uma mulher forte e questionadora (muito mais do que a minha Úrsula), redesenha seus conflitos de forma a redesenhar-se a si própria até o limite de já ser, para mim, uma nova personagem. 

O obra escrita me permitiu atravessar por seus inúmeros conflitos, num ritmo em que as resoluções se faziam dentro de seus contextos sociais, acomodando os interesses em disputa, as verdades em rota de colisão, e, principalmente, as visões de futuro que cada personagem haveria de ter sobre as consequências na resolução de seus conflitos. Guardo minhas mágoas ou as devolvo? Brigo por meus ideais ou abdico? Caso com Pilar ou fujo de Macondo? Assumo minhas deformidades ou as escondo?

Partindo daqueles personagens e também da relação daqueles com muitos de meus queridos, percebi que a narrativa dos conflitos e o peso com que cada ação narrada nos atinge, pode mudar de forma profunda a análise a a identificação que tenho com cada personagem. E isso pode mudar tudo dentro da minha relação com a obra. 

E o Mascuito.... quem lembra do Mascuito?

Sunday, December 22, 2024

A franja e eu (ao amigo Mileto)

prólogo: texto (e sentimentos) em elaboração. Como se refere à relações e suas múltiplas decorrências, está aberto às transformações que virão justamente daí. Se estiver muito confuso, se for possível, me ajude...

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"meu" José Arcádio era diferente. Bem, digo era pois o vejo em pleno processo de transformação, em cada nova interação, em cada novo personagem e sua relação revisitada. 

Enquanto consigo manter uma espécie de registro mental disso, me sinto a ganhar esse novo José Arcádio, assim como a cada reencontro com cada um dos meus irmãos partilhamos as novas riquezas que a vida nos tem dado. Aqui penso que achei uma importante chave de minha relação com essa obra audiovisual: se consigo reter afetos que julgo importantes ainda na esfera da consciência, posso revisitar minhas relações ao longo da linha de um tempo - ainda que esse tempo seja só meu.


Pois cada irmão que convivo hoje existe em mim como o seu presente, mas também como em todos os episódios que construíram nossa história comum. Uma queda da árvore, um corte profundo, uma despedida ardida, uma bicicleta partilhada... todos e cada um desses eventos me tem a mim e ao outro na minha lembrança afetiva e histórica.

Gosto de viver o tempo. E de pensar junto também com Heráclito, Agostinho, Caetano, Einstein, Elias sobre o tempo. Uma qualidade da vida que a todos afeta e que me parece uma das mais universais quanto à individualidade da compreensão. Em nossos dias, todo mundo sabe o que é o tempo. Em seu próprio saber, é certo, mas todos sabemos o que é o tempo (enquanto não tivermos que explicar, não é?)

Ao sentir então um José Arcádio se transformando (e transformando a mim também), através de sua relação com uma Úrsula (que até o momento não reconheço em absoluto), percebo um novo interstício a explorar com calma, cuidado e saboreio. Estou a chamar de franja a região espaço-temporal onde ficam como que acumuladas as reservas que precisamos para buscar compreender as coisas, e que podemos então considerar como "uma câmara de dúvidas".

Ao ponto: nas relações que observamos entre as outras pessoas, há sempre a possibilidade de uma compreensão frouxa a respeito do que ocorre ali. Essas observações precisam inexoravelmente guardar uma reserva para confirmação pelo tempo futuro sobre o que aconteceu ali. É claro que me refiro ao além do factual e da mera análise descritiva: se não somos mais o mesmo e nem o rio é o mesmo quando mergulhamos pela segunda vez, busco pelo que foi transformado em mim e no rio.

E quando colocamos a perspectiva das relações entre as outras pessoas, essa franja segue por caminhos muito misteriosos, posto que envolve não só a compreensão mútua entre eu e o outro, mas entre o outro e o terceiro. E vice versa. E essa imagem que cria entre o outro e o terceiro - para além da terceira margem do rio, me parece um espaço de muitos universos a explorar. Mas também um espaço profundamente reflexivo e solitário. E assim vejo um importante contributo que essa versão audiovisual me trouxe: que solidão!


Friday, December 20, 2024

Quantas vezes quero ler uma obra antes de.... (para o amigo Guilherme Buendia)



Acredito que a discussão sobre transposição de uma obra da literatura para o audiovisual já deve ter sido bastante presente, mas hoje abriu-se novo capítulo em meu horizonte. A criatividade exigida pelo sorver de uma obra (que delícia: sorver) parece estar associada a um certo conteúdo interior de cada indivíduo, onde a magia da descoberta de cada história talvez passe por um caldeamento único e singular dentro de cada alma, cada espírito, até que alcance seu cérebro - e daí retorna ao pensamento coletivo recriado, revivido e reproduzido em forma de afetos e lembranças.

Ocorre que obras literárias demandam que o córtex visual e auditivo do leitor sejam acionados pela própria criação adicional paralela à obra (como será a expressão facial de tal ou tal personagem? Qual será o tamanho daquela sala? Como será o tom da voz de Úrsula?). Toda essa fabricação interior de imagens e sons (imaginação) se acrescenta ao material fornecido pelo autor em sua história. Temos então, para cada leitor, uma Macondo com suas características específicas: cores e movimentos que variam ao passar do tempo pela pena do autor, mas que também se desenvolvem a partir do que foi elaborado parcialmente pelo próprio leitor no desenrolar da trama original. 

A enxurrada audiovisual de nossos tempos (especialmente as de curta e curtíssima duração) acrescentam muitas possibilidades e confirmações sobre como o mundo é e como é visto por outras pessoas. Recriações audiovisuais de eventos e situações históricas são muitas vezes criticadas a respeito da exatidão histórica das roupas e ambientes, dos trejeitos e adereços, etc. Os diálogos propriamente ditos quase sempre precisaram ser adaptados, uma vez que também quase sempre já haviam sido "atualizados" em suas sucessivas edições literárias, para manter os padrões ortográficos vigentes, etc etc. A esse aspecto específico talvez precisemos de outros debates, e fica como indício da importância da fala na (re)criação dos afetos singulares.

Excetuando-se os diálogos, todos os demais aspectos que mencionamos são como que soterrados pelas obras audiovisuais: tudo que minha própria mente havia criado das deliciosamente difíceis leituras dos Cem Anos de Solidão, a partir da obra literária original são como que confrontados com as recriações feitas pela produção do audiovisual. Até ontem, por tudo que assisti de audiovisual e por tudo que li como obra literária e suas adaptações, havia julgado que somente uma transposição que "testemunhei" contribuiu efetivamente com alguma coisa para o crescimento da obra literária: A insustentável leveza do ser, livro de Milan Kundera, filme de Philip Kaufman (recomendo muito tanto o livro como o filme, mas sugiro que leia essa crônica até o final para decidir a ordem e o tempo a dedicar a esse processo). 

Evitando me repetir sobre a importância da imaginação para o ser humano (onde minha referência principal é mesmo Rudolf Steiner), quero frisar a importância das vivências da infância na contação de histórias como fator de equipamento cognitivo e afetivo, para, a partir daí, fazer o salto direto para a leitura de livros como motor e engrenagem da imaginação humana (que está presente não só no ato de contar, mas também na recepção da contação de histórias, seja na infância, seja na vida adulta). E uma imagem, uma vez vista e elaborada, passa para a categoria de "lembrança". A imagem imaginada, além de passar para "lembrança" depois de anteriormente imaginada, vai sempre precisar passar pela reconstrução imaginativa em seu acesso posterior.

Aí vem o filme e retira de nós a possibilidade imaginativa, fornecendo os elementos perceptivos, sociais e ambientais que fazem as referências para elaboração e construção daquelas imagens, agora praticamente estéreis daquele tipo de imaginação a que me referi antes (a criação da imagem e do quadro imagético cujas raízes procuram o subjetivo e o singular, que por sua vez, procura algo do universal para sua própria referência).

Isso posto, hoje me aconteceu de ver uma obra que abriu-me nova percepção sobre o assunto: a série Cien Años de Soledad, acho que produzida mesmo pela Netflix. Todos os personagens duramente elaborados, confusamente distribuídos ao longo do tempo, meu e do livro, deliciosamente misturados pela repetição pantanosa dos nomes através das gerações, profundamente humanizados em mim em suas aparições, intercursos, ausências, forças e fraquezas, de repente me são servidos assim, inteirinhos na interpretação dos criadores audiovisuais, como que a me roubar minhas recordações latentes, latejantes e lá existentes.

Mas num esforço deliberado para reter as imagens minhas mesmas, produzidas, recriadas e relembradas pelas tantas releituras da obra, (e de certa forma facilitada pelo formato presente de mini série e suas interrupções), achei uma espécie de interstício nas camadas imaginativas. Talvez isso seja comum para algumas pessoas, especialmente as criadoras de conteúdo, talvez não. Mas para mim foi surpreendente -e muito bom- poder reter a imaginação anterior, mesmo vendo a imagem de um novo José Arcádio Buendia, tê-lo em múltiplas versões imaginárias, onde as anteriores não tenham sido completamente soterradas pelas agora fornecidas em excelente qualidade de produção audiovisual. 

Toda essa forma de arqueologia mental deve ser objeto da psicologia e de ainda de outras áreas, e que vou adorar escutar de quem souber e quiser me falar a respeito. Meu ponto aqui é sobre aquele interstício que possibilitou que eu retivesse minha imaginação anterior, mesmo agora vendo o filme. Penso que isso só foi possível para mim pela experiência da leitura pelejada e repetida dessa obra. Não tenho conta das vezes que reli. Nem todas as vezes foram releituras completas (sou chegado a abrir numa página aleatória e ler tantas páginas quanto aprouver, sejam 3 ou 4, sejam 50 ou cem...). Mesmo assim, a sedimentação das imaginações anteriores pareceu se revestir como uma forma de impermeabilização das camadas imaginadas, que como que as protegeu e isolou. Daí as decorrências da pergunta-título: como será o processo dessa impermeabilização para cada um de nós? Quantas repetições de leitura teriam sido necessárias para essa percepção? 

E a partir de agora: será que quero ver uma obra literária transcrita para o audiovisual antes de ler a obra? Quantas vezes? E ainda outras que não param de surgir: quem pode ser, para mim, referência opinativa sobre o tipo de obra que afeta o interstício? E mais, muito mais, que vem à minha mente para esse debate. Vou ficar feliz em encontrar quem se identificou com essas considerações e queira conversar a respeito. Você já leu o livro Cem anos de solidão?


Thursday, October 31, 2024

Porque Elias? Onde, Elias...?

Partindo de um trecho do livro A sociedade dos indivíduos posso localizar um importante ponto de contato com as ideias que preciso desenvolver. O trecho:
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"o desenvolvimento da sociedade rumo a um nível mais elevado de individualização de seus membros abre caminho para formas específicas de realização e formas específicas de insatisfação, chances específicas de felicidade e contentamento para os indivíduos e formas específicas de infelicidade e incômodo que não são menos próprias de cada sociedade.

A oportunidade que os indivíduos têm hoje de buscar sozinhos a realização dos anseios pessoais, predominantemente com base em suas próprias decisões, envolve um tipo especial de risco. Exige não apenas considerável volume de persistência e visão, mas requer também, constantemente, que o indivíduo deixe de lado as chances momentâneas de felicidade que se apresentam em favor de metas a longo prazo que prometam uma satisfação mais duradoura, ou que ele as sobreponha aos impulsos a curto prazo. Às vezes elas podem ser conciliadas, às vezes não. É possível correr riscos."

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Elias posiciona a ação do indivíduo dentro do processo civilizatório a partir da dualidade eu/nós, e o processo de internalização dos controles sociais, no movimento preliminarmente do grupo (nós) nas comunidades mais primitivas, para as limitações e possibilidades das escolhas individuais (eu) nas sociedades industrializadas densamente povoadas, cujos "sentimentos da verdadeira natureza humana vão sendo crescentemente privatizados".

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Meu ponto:

Partindo da perspectiva dos processos de longa duração e das figurações elisianas, como as representações coletivas estabeleceram e mantiveram a matriz essencial sobre a forma em que as condições de riscos são percebidas, avaliadas, mensuradas e utilizadas nas decisões dos indivíduos, especialmente as decisões onde os riscos são majoritariamente partilhados (ie, as decisões coletivas por excelência, eg. eleições representativas, vacinação coletiva, etc).


Onde encontro essa linha de pensamento em Elias:

Em A condição humana Elias refere ao cálculo estratégico que se dissemina na sociedade de corte através dos domínios das pulsões e das formas de relações em transformação, no processo de transferência do controle do grupo para o indivíduo. Em Envolvimento e alienação Elias produz um mergulho nas condições sociais e psicológicas que possibilitam (ou possibilitaram) o distanciamento reflexivo necessário para a percepção e análise da barreira eu / nós da sociedade europeia, como matriz da sociedade ocidental contemporânea. 


Em A busca da excitação aparece um revolver da atratividade que condições de risco oferecem nas sociedades contemporâneas, riscos envolvendo a si próprio e aos outros, onde as perspectivas de controle social precisam ser colocadas em perspectiva. E onde o risco se coloca como condição inerente de mediação das ações do indivíduo para com a coletividade.


Concluindo esse resumo, em Sobre o tempo aparecem conceitos importantes para o que chamo de ontologia do risco, que posso sumarizar em como as pessoas percebem e projetam os acontecimentos futuros, livro em que inaugura uma arriscada "quinta dimensão" social, entrelaçando sociologia e história de uma forma peculiar.


Como Elias chama a atenção em várias de suas obras, a filosofia parece querer tratar do mundo dos adultos sem quase nunca referir ao fato de que os adultos foram crianças anteriormente, e que o papel da socialização desse período é fundamental para o processo civilizador e para o processo de individualização (e eu acrescento: para as percepções relativas aos riscos individuais e coletivos)





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1. GPT: "a "quinta dimensão" de Elias transcende a noção de tempo cronológico ou objetivo; trata-se de um aspecto fundamental que influencia e molda as figurações humanas. É uma maneira de destacar que o tempo é tanto uma construção quanto uma força que regula o desenvolvimento da sociedade, os processos civilizadores e as dinâmicas entre o "eu" e o "nós"."


2. Numa visão marxista (mesmo que por ora superficial) podemos simplificar tudo isso em elementos da infraestrutura e da superestrutura, confere?  Mas daí resta um clássico: onde estaria o ponto de ruptura onde pessoas e coletivos se quedam ao lado da conservação das situações de dominação, onde até o fim do mundo (risco supremo) é mais factível do que o fim do capitalismo? Ou em outras palavras: de que forma as percepções de risco são criadas e manipuladas com eficiência tal que indivíduos construam representações de risco tão grotescas e desajustadas com as evidências mais óbvias que pululam e abundam...?


Wednesday, March 13, 2024

Presente dois, presente sete!

Na vida faróis, uns pra frente, outros pra trás, como diria o xará Pedro Nava. E como na analogia, faróis são dois, como nossos olhos.

Pedro também, como meu pai, e muitos outros com quem partilho nome forte, histórico, bíblico e... confuso! Ao menos na minha cabeça -de criança, ao ter que confrontar todas as raivas que ao pai se destilava (deste-lado?), e que, pelo nome me esbatia, estabanava, estrouvava, como se diz por cá.

O primeiro farol do caminho tinha também uma caminha que me acolhia: irmã mais velha com responsalidade de sobra, cabeça no lugar e fome de viver como poucos. Aliás, não só de viver, mas também uma imensa fome de justiça e correção, de equilíbrio e de conhecimento, e certamente outras tantas que nem sei dizer, não sei se ví. Vi, alias; vi, ví e vivi... Há uma gratidão tão grande aqui que as vezes até me assusta pelas construções de significados tão amplos, diversos e enigmáticos. Exatamente contigo aprendi ainda a buscar os sentidos materiais da existência. Daí que, sempre que me encontro com mistérios que me parecem muito profundos e enigmáticos, me assusto cadim novamente...

Em seguida outro farol potente e iluminado, arca de tantas expectativas alanhadas, e que, quase sempre, as ultrapassou com folga... Raciocínio matemático, matemágico, conexão causal bem estabelecida, desafios ininterruptos na sua própria busca pelo caminho, que, pelo caos da existência nem precisava de mais gente pra atrapalhar. Mas tinha bastante. Competência de realização, realizações amplas e rápidas, me mostrou que o caminho tem sim um lado do mérito, que deve ser respeitado, que pode ser realizável - e que cobra seus preços. Mostrou também que essas conquistas precisam estar alinhadas com o coração. E que esse alinhamento é dos mais difíceis para qualquer pessoa - ainda que seja menos difícil para uns do que para outros, pois afinal, o que tratamos aqui são as relações. E relação acarreta contato. E "se há contato, há atrito!"

Por contraste, sigo pelo contraste das idades: quando pequeno eu dormia num quarto com o irmão imediatamente mais velho do que eu - ainda que já houvesse aqui quatro anos de diferença. Foste meu primeiro exemplo a seguir: introspecção e alegria interna, compromisso consigo próprio sem egoísmo, leitura absorta e planos infalíveis autossuficientes... Sempre escutei de ti, antes de qualquer outro, a visão da vida que o futuro confirmaria. Amigos fartos, (sempre os melhores!), admiradores e respeitosos, alegradores dos ambientes, sempre coletivizadores, como tu. São tantos a nomear, que vou escolher somente um, como símbolo daqueles muitos: saudades de Eduardo, lindo e admirado por homens e mulheres, sorrisão e alegria de viver.... Em um episódio de minhas memórias, quando assisti tua queda do paraíso (12 metros medidos!) e saíste ileso num inacreditável espaço justo entre megalitos... Em seguida, exatamente com Eduardo, foste navegar alegre e misterioso pelas brumas de um avalon que já não existe mais. Saudades de não poder mais revisitar isso junto contigo e com Eduardo, escutando aquela boa e sonora risada, entre os outros muitos bons amigos...

Meu primeiro herói é uma pessoa que mudou muito com a vida - e foi mudado por ela. Sorriso fácil, encantamento infinito pelo mar e pelo bem, parceiro e lealdade para toda a vida, me ensinou a confiar. Assim, só: confiar. Contigo voei alto, caí, sobrevivi, voei de novo. Assim! Se não tivesse sido assim, talvez nem fosse. Mas foi. E histórias pra contar. Na minha casa de origem sempre teve material para leitura para todas as idades (viva por mais isso, Marilita!). Mas história contada, aprendi a gostar contigo. E sigo contando até hoje, numa "soberania na noite neon" que abre espaço pra tocar junto, rir até gargalhar e ficar nas lembranças todas sem sofrer.

Depois, enigmas. Complementariedades sobre contrariedades. Semelhanças em cabimento, aparências que se sobrepunham pela altura, disputa acirrada... Se a idade me aproxima de uma, a afetuosidade, da outra. Amigos e obstinação, uma e outra. Nem sei se é justo unir essa combinação em um texto único, mas a proximidade geográfica de longa duração (que já não há) me fez ver alguma coisa de proximidade dentro de mim, que penso que ainda necessito elaborar. E laborar. A gente nunca sabe precisamente o que a infância legou em nossas convivências. Mas poder assistir outras convivências, a mim, ajuda a elaborar. E aqui há fartura, sempre houve. Partilhar amigos, talvez roupas, talvez sapatos. Saber receber, acolher, saber brigar. Brigar mesmo sem saber, dividir banquinho, choratório, biscoito bis, pavê de chocolate, quindim, festa de aniversário. Conferir nota de compra, pegar cocacola no draivin, fantágua, suflê de cenoura, café com leite negado, corre cada um prum lado, bicicleta, tio Júlio, Socorro!... Muitas memórias do dia a dia que fazem como que uma base que dá sentido para as aventuras do de vez em quando. Dividir o que parecia pouco, mas que sempre foi o suficiente. Fazer o pouco virar muito, sobrar. Sobrar marilita, tão pouca, tão farta, tão verdadeira em suas próprias confusões. E nas minhas... Pronto, achei o que procurava, aqui nesse bafo da onça de meu coração: vocês me trazem mamãe em sua complementariedade, contrariedade, bondade e enormidade de coração. É bom fazer o bem. Quer menos...?

Duas almas ainda se juntaram no caminho da fraternidade, o povo do W: Walter e Oswaldo me mostraram que ser irmão é também construir: com alegria pela presença, com afeto, vontade e respeito. Com limite, briga e algum excesso. Com contraste, sem traste, traste... E triste... Hoje triste pela ausência de vadinho, alegre pela presença de walter. Conquistar corações e mentes por caminhos distintos dos de irmãos de pai e mãe. Conquistar meu coração e minha mente, mostrar que sempre cabe mais um nisso tudo -para além da marilita, é claro!- sendo diferente dela, sendo homem na lide, sendo frágil na luta, sendo forte na presença. Como uma cola de argamassa, vocês me presentearam com a matéria de observação que interliga o dentro e o fora, sem descontinuidade. Como uma solda. Solda bem feita que só fui aprender a fazer com vocês dois, cada um ao seu jeito. 

Gratidão!

Wednesday, February 14, 2024

Presente

de Deus

preparar para a transcendência , e nem precisa acreditar


de Darwin 

entender que o processo leva tempo, aliás, um tempão


do destino 

encontrar o buraco que eu caí ontem... e aprender a ver


de meus muitos irmãos

diferenças, diferenças, semelhanças, diferenças, semelhanças, semelhanças


do mercado, marcado

prisão e liberdade, hoje e ontem, seguro e risco, posse, compartilhar e sempartilhar


da maturidade

rever, reouvir, resentir, recheirar, retocar


da ousadia

conformar, indignar, reformar, tentar. Cair e levantar. Levitar 


das parceiras

gozar junto, fazer e acontecer, desfazer e chorar, refazer e aprender a refazer e a desfazer


das parcerias

foco e contexto


da escola

separar, juntar, classificar, aprender, apreender e ficar apreensivo


da escola técnica

diferenças, semelhanças, serviço militar obrigatório. Fraternidade e competição, sempetição




da escola dos outros

dificuldade espalhada, compartilhamento espelhado, burrice atrapalhada. Lição de história e estórias 


da longevidade

ganhar o mundo, ver ficar grande, ficar pequeno, perder o mundo, se perder do mundo, encolher, escolher


da vida

presentear!

notas:
Trancendente: [Do lat. transcendente.], Adj. (Aurélio séc XXI) 
 1. Que transcende; muito elevado; superior, sublime, excelso:    
 2. Que transcende do sujeito para algo fora dele. 
 3. Que transcende os limites da experiência possível; metafísico
 4. Filos.  Que se eleva além de um limite ou de um nível dado. 
 5. Filos.  Que não resulta do jogo natural de uma certa classe de seres ou de ações, mas que supõe a intervenção de um princípio que lhe é superior. [Opõe-se, neste caso, a imanente.]  
 6. Filos.  Que ultrapassa a nossa capacidade de conhecer. 
 7. Filos.  Que é de natureza diversa da de uma dada classe de fenômenos.
  Darwin na Wikipedia: Charles Robert Darwin, FRS (pronúncia inglesa: /'dɑː.wɪn/; Shrewsbury, 12 de fevereiro de 1809 — Downe, Kent, 19 de abril de 1882) foi um naturalista britânico que alcançou fama ao convencer a comunidade científica da ocorrência da evolução e propor uma teoria para explicar como ela se dá por meio da seleção natural e sexual.1 Esta teoria culminou no que é, agora, considerado o paradigma central para explicação de diversos fenômenos na biologia.2 Foi laureado com a medalha Wollaston concedida pela Sociedade Geológica de Londres, em 1859.
Darwin começou a se interessar por história natural na universidade enquanto era estudante de Medicina e, depois, Teologia.3 A sua viagem de cinco anos a bordo do brigue HMS Beagle e escritos posteriores trouxeram-lhe reconhecimento como geólogo e fama como escritor. Suas observações da natureza levaram-no ao estudo da diversificação das espécies e, em 1838, ao desenvolvimento da teoria da Seleção Natural.4 Consciente de que outros antes dele tinham sido severamente punidos por sugerir ideias como aquela, ele as confiou apenas a amigos próximos e continuou a sua pesquisa tentando antecipar possíveis objeções. Contudo, a informação de que Alfred Russel Wallace tinha desenvolvido uma ideia similar forçou a publicação conjunta das suas teorias em 1858.5
Em seu livro de 1859, "A Origem das Espécies" (do original, em inglês, On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or The Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life), ele introduziu a ideia de evolução a partir de um ancestral comum, por meio de seleção natural.1 Esta se tornou a explicação científica dominante para a diversidade de espécies na natureza. Ele ingressou na Royal Society e continuou a sua pesquisa, escrevendo uma série de livros sobre plantas e animais, incluindo a espécie humana, notavelmente "A descendência do Homem e Seleção em relação ao Sexo" (The Descent of Man, and Selection in Relation to Sex, 1871) e "A Expressão da Emoção em Homens e Animais" (The Expression of the Emotions in Man and Animals, 1872).
Em reconhecimento à importância do seu trabalho, Darwin foi enterrado na Abadia de Westminster, próximo a Charles Lyell, William Herschel e Isaac Newton.6 Foi uma das cinco pessoas não ligadas à família real inglesa a ter um funeral de Estado no século XIX.
  Destino, no Aurélio Séc. XXI: destino: [Dev. de destinar.], S. m. 
 1. Sucessão de fatos que podem ou não ocorrer, e que constituem a vida do homem, considerados como resultantes de causas independentes de sua vontade; sorte, fado, fortuna. 
 2. P. ext. Aquilo que acontecerá a alguém; futuro. 
 3. Fim ou objeto para que se reserva ou designa alguma coisa; aplicação, emprego. 
 4. Lugar aonde se dirige alguém ou algo; direção.  
  Levitar, segundo Aurélio Séc. XXI: [Do lat. *levitu, por levatus, part. pass. de levare, 'levantar', + -ar2.], V. int. 
 1. Erguer-se (pessoa ou coisa) acima do solo, nas experiências mágicas, ou como que em tais experiências, sem que nada visível a sustenha ou suspenda: &  &   
V. t. d. 
 2. Erguer, como nessas experiências: &   
  Estória: corruptela de história. Foi uso comum nas décadas de 1970 a 1990, pela semelhança do inglês story (em contraposição à history), e chegou a ser dicionarizado pelo Aurélio. Atualmente foi removido deste dicionário, e não faz parte da língua oficial.

Tuesday, February 13, 2024

Ondas gravitacionais, ondas afetivas

 isso parte de uma experiência / revelação à beira de um lago / praia fluvial, cuja superfície estava parada tipo espelho e meus movimentos produziram ondas que se propagaram  pela superfície contra a corrente, enquanto a corrente seguia seu curso com vigor (na praia fluvial da Ratoeira).

Da mesma forma que foram necessárias muitas décadas para se confirmar a previsão das ondas gravitacionais, que de certa forma "comunica" (ou interconecta) grandes distâncias dimensionais, agora se apresenta a conexão entre os seres humanos na forma das ondas afetivas, que procedem de cada ser humano e se espalha ao seu redor, informando, interagindo, refletindo e amplificando as ondas afetivas presentes no ambiente.

Teria ainda toda a parte ligada à antroposofia e à ciência espiritual a desenvolver. Aqui ficaremos somente nos conceitos da ciência dita convencional.

As emoções individuais causam "pressão" como ondas de choque no ambiente onde os seres humanos se encontram. Essas ondas, apesar de extremamente sutis, são percebidas pelos demais seres humanos, de forma consciente ou não (pois se somam como informações adicionais aos demais modos de percepção, como visão, audição, sugestão, etc).

Apesar de ainda ser necessário maior investigação acerca do "espectro" dessas ondas de choque, pode-se considerar que uma parte extremamente sensível desse "espectro" tem como mediador principal o medo individual. O medo, dentro dos processos psico sociais de cada pessoa, integra componente universalmente reconhecido por talvez todas as formas animais da terra (ao menos o que se diz como "as formas superiores", como vertebrados, mamíferos, etc), e se recombina interiormente em cada indivíduo com seu próprio espectro (?seria possível o paralelo com as "raias" espectrográficas individuais das estrelas? Ou o desvio para o vermelho nas distâncias luminares?).

Dentro da camada cultural contemporânea, o medo encontra outro componente coletivo de grande relevância na composição do espectro individual, que manteremos a denominação de amor, mas que pode ser ampliando para um conceito similar aos afetos espinosanos do "alegrar" e "entristecer". Esse amor emana essencialmente a qualidade de atração e repulsão para as "frequências espectrais" que o ser envia ao ambiente (talvez comparável à fase da onda - v. AM/FM, mas demanda aprofundamento de conceituação e/ou analogias mais variadas para evolução conceitual).

Aqui chegamos ao ponto onde a imagem se encaixa no quadro geral da sociologia do risco: o risco como conceituado aqui, é o principal mediador do medo como fator gerador das ondas afetivas. O risco afeta, pelo menos a forma, a amplitude, o foco e a direção, talvez entre muitos outros aspectos, as ondas afetivas lançadas ao ambiente humano.

O risco, como elemento social que é, participa na codificação e na decodificação dos constituintes espectrais dentro de sua área de abrangência, e com todas as interferências ambientais passíveis de interpretação pelos seres humanos, tanto ao nível biológico, como em toda e qualquer camada psico sócio antropológica que possa ser enquadrada como linguagem (será esse o termo?).

Por fim para agora, as ondas afetivas, mediadas de forma reptiliana pelo risco, atuam em cada indivíduo como pressão de medo / controle, bem como, recombinado, como fator de união interessada (defesa comum, associação contra facção contrária, proteção paga, etc) ou como mola de construção afetiva-cognitiva (mundo melhor, ética a respeitar ou modificar, etc)

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Carta para um ex-amigo

Sofrimento... a polarização política que assistimos nos últimos anos e que teve seu episódio mais recente nas eleições de outubro/2022 (Lula derrotando Bolsonaro por uma margem mínima de votos) contém um pesadelo. Sob qualquer ângulo que se escolha, será um pesadelo. Que ainda terá desdobramentos, em sua qualidade de pesadelo (social, coletivo e alguns mais, como pretendo evidenciar a seguir)

Eu considero que tive um grande privilégio por não ter convido localmente sob a presidência Bolsonaro. Morando em Portugal durante todo esse mandato, acompanhei o desenrolar das coisas pela mídia internacional, pelos canais sociais, e pelos contatos dos amados que conheço e respeito, e que ficaram no Brasil, vivendo esses anos duríssimos. Desta forma também não tive muitas oportunidades de contato com quem havia votado em Bolsonaro em 2018. Desde sempre meu lado era claro: esse então candidato declarava abertamente apoio a um torturador, e dos conhecidos por ser dos mais atrozes e cruéis. 

Aqui já está reiterado meu lado, mas insisto: para mim é absolutamente insuportável, sob qualquer circunstância, apoiar um torturador. Menos ainda para me representar para qualquer coisa que seja. Torturador é torturador e precisa ir a julgamento sério – coisa que o Brasil ainda nunca fez (e que tenho esperança que esse dia não tarde). 

Assim, aos meu conhecidos que votaram em Bolsonaro em 2018 fica minha declaração de decepção completa e absoluta. E de nenhuma intenção de voltar a ter qualquer contato até que essa realidade esteja superada, ou seja, que o assunto tortura seja encarado frontalmente comigo e que se argumente com seriedade, consistência e lógica (e, claro, com sensibilidade humana) como você pode apoiar uma pessoa que tem um torturador emérito como ídolo declarado. Sem isso não há nenhuma chance a vista para reaproximação afetiva

Em 2022 travou-se uma batalha entre a continuidade do projeto de Bolsonaro, já depois de um mandato que teve uma pandemia de covid19 no meio, caos na saúde, casos de vacina ainda a ser investigado, a reunião ministerial de “passa boi passa boiada”... E mortes, muitas mortes que poderiam ser evitadas. Daqui de Portugal (onde não houve nenhuma morte de conhecido meu), acompanhei com horror a morte de vários amigos próximos, alguns primos e muitos conhecidos. Em agosto de 2021 fiz a última contagem desses conhecidos diretos que haviam morrido pela covid, e somaram, os amigos meus e de minha companheira à época, 86 pessoas que relembramos pelo nome, com pesar e tristeza infinita, não apenas pela pandemia, mais como essas mortes se deram. Mas isso é, no quadro geral, pequeno, se comparado com os descaminhos por atacado do período.

O problema que resta de forma inequívoca será então como faremos, enquanto sociedade, para reencontrar o caminho das informações que sejam confiáveis e que possam de alguma forma substanciar qualquer debate que tenha como propósito reduzir essa polarização.

[nota: originalmente esse texto tinha uma pessoa específica como destinatário, mas que ao construir o texto, percebi que não aconteceria essa remessa. Daí virou esse post aqui. O fato motivador foi um audio que recebi em resposta a uma sugestão de apoio às apurações sobre tentativas de golpe de estado após as eleições de 2022, que elegeram Lula. Abaixo transcrevi de forma documental o audio recebido, para que me lembre as formas argumentativas e os argumentos mesmos que me motivaram]

-início de transcrição-
... essa matéria... a princípio você veio com uma matéria que era sobre eleições em nosso país, né? E que é um troço que pega muito na veia... a gente vai falar sobre isso...

E aí você veio com esse assunto que... assim: toda vida importa, não é cara? Claro que importa. E o mundo está cheio de mazelas... e essa mazela está um pouco longe da nossa realidade, do Brasil

E ai eu perguntei o que é isso porque você veio com um outro assunto primeiro que foram as eleições em nosso país, e isso foi muito punk... eu fiquei surpreso de você achar... enfim, apoiar Lula.

Eu aprendi com você a gostar da Petrobrás. E foi a primeira empresa que ele arrebentou. Inclusive, nessa primeira semana de governo, só os “falar” dele, a Petrobrás teve um prejuízo na bolsa que dava para bancar seis anos de bolsa família.... é uma coisa de louco...

Quando você me mandou aquela mensagem eu pensei “não sei o que ele tá vendo de lá...” porque nossa imprensa aqui já era, velho! Foi totalmente corrompida. A Globo perdeu a concessão desde o ano passado e logicamente que o Bolsonaro não ia renovar porque ela tem uma dívida imensa com o Estado. A Globo, entre aspas, funcionava como uma estatal, não é amigo? O governo que bancou sempre aquela onda toda e sempre teve uma dívida muito grande, então ela resolveu apoiar o cara... então as coisas que estão acontecendo aqui, a grande mídia não fala, ou não dá a devida importância, quando não distorce.

Amigo, a situação do país está muito esquisita... Primeiro porque esse cara nunca poderia ser presidente porque ele é um réu condenado em 17 processos, por 19 juízes, em todas as instâncias. Então, logicamente o sistema fez uma manobra para recolocar ele no lugar.

E aí é complicado, porque com isso tem que calar pessoas. Hoje em dia nós temos presos políticos: temos artistas, temos jornalistas, temos deputados... e até um líder xavante, preso... Nenhum deles tem direito à defesa, porque os advogados não tem acesso aos processos... processos que não existem, ou são ilegais...

Então é isso, cara... Eu não sei... o rumo está muito esquisito, tá uma... pra gente que era criança e que viveu sob uma ditadura, a ditadura agora é civil: as pessoas estão sendo cassadas, a imprensa está sendo calada... e é isso! Sinceramente amigo, o negócio aqui está muito esquisito.
Não sei as notícias que você recebe, mas parece que não são as mesmas que eu sobre o que está acontecendo em nosso país..

-fim da transcrição-