Num vídeo curto de uma pessoa um pouco agitada que recebi recentemente surge a pergunta "seu filho de treze anos sabe dos riscos que corre nas ruas?". Nesse ponto muitas considerações se faz necessário.
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Aquele vídeo curto pregava, curto e grosso, a obediência do adolescente ao seu tutelar responsável, atenção e cumprimento de regras, etc Sendo uma simplificação bastante rápida, nem quero entrar aqui agora no conceito de “controle social” e nem na pedagogia em si, (tão maltratada, coitada!), posto que ambos abrem uma das brechas preferidas da contemporaneidade, que é a da ideologia. Já ideologia é um conceito e uma ideia que eu gosto de transitar com alguma tranquilidade... Mas simplificar a resposta por "subordinação" me lembra bem a expressão “um tiro no próprio pé”, pois a adolescência implica em uma condição (necessária até) da exploração aos limites (no caso, limites corporais, sociais, intelectivos, afetivos, etc).
No campo da pedagogia, creio que necessitamos sim debater educação, até de forma permanente, e especialmente sob a ótica de uma educação coletiva de forma mais ampla, completa e amorosa. E pensando assim, confesso uma parte acanhada de mim que passa a maioria absoluta do tempo pensando e buscando agir como educador (seja lá o que isso possa representar aqui, ou no mundo – portanto de cunho social por excelência).
Falamos da educação e da adolescência. Faltam risco, comunicação e ideologia, certo?
Os riscos na adolescência são, de certa forma, mais relacionados com as incertezas do que risco genérico. E incertezas de naturezas diversas e em mudanças específicas não convergentes: o meio ambiente em que cada um transita, o mix contemporâneo do mundo virtual com as realidades subjacentes, os algoritmos e seus impactos imediatos, controle da comunicação não só pelos poderosos, mas também e até que ponto desconhecido, pelos próprios algoritmos em si e seus comparsas das big techs... Ou por outro lado: os atuais riscos da adolescência não serão melhor mitigados pelo aumento da subordinação aos adultos. Urge nova organização e, principalmente, compreensão sobre esses riscos e seus impactos sociais no mundo conectado. Aqui eu paro de falar sobre riscos, para não arriscar ficar chato demais....
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Agora vou buscar um ponto de conexão entre a situação presente (de receber uma mensagem como video curto – ou no caso, uma quase enxurrada deles) e o próprio assunto trazido pela pessoa agitada, que era, agora de forma estruturada, a condição dos adolescentes em relação aos riscos aos quais eles e elas estão expostos nas ruas de hoje em dia.
Trazer um assunto, qualquer assunto, e em qualquer meio ou mídia, sem uma abordagem crítica, pode até ajudar pelas possíveis novas informações e dados, mas pode também, ao mesmo tempo, confundir e atrapalhar. Nos dias de hoje, no mínimo tirando nosso tempo e inundando nossas mentes com informação que nem conseguimos processar direito. Essa é também uma das formas de embotar nossa capacidade crítica sobre qualquer coisa: inunda de informação, mistura verdade com causos e opiniões, tempera bem com a proporção de medo que o motivo pede (e os interessados possam e queiram pagar). Daí o medo passa a fazer reflexivamente parte dos próprios riscos que descreve, procura alertar e mitigar. E o medo é um afeto importante, mas totalmente deformado exatamente pela estrutura dos riscos que nas sociedades contemporâneas, se configuram e são propagandeados com diversos interesses misturados – numa mistura muito peculiar como alavanca de lucro inerente ao modo de produção capitalista.
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E deixando para depois o momento de teorizar sobre os riscos, penso que, de certa forma, é exatamente a evolução da dimensão crítica que poderia ser talvez a melhor resposta para a pergunta original ("sabe dos riscos?"). E assim penso ter chegado ao último ponto dos pensamentos de hoje: a ideologia dominante e aspectos de nosso comportamento social. Com frequência eu me pergunto o quão suscetível alguém precisa ser para abraçar (e seguir abraçando) a causa do terraplanismo? Ou negar com veemência os indícios e fatos relacionados ao aquecimento global e sua conexão com insegurança climática e aceleração dos eventos de catástrofe de “causas naturais”?
Por ideologia, então, adoto a abordagem do Karl Mannheim: ideologia como produto das condições sociais e históricas, com características que tanto podem ser manipuladas para conduzir a ordem social vigente, como para possibilitar sua transformação. Na obra de Mannheim, dentro desse contexto, situam-se ainda a utopia, a construção de uma (ou mais) visão(ões) de mundo, e o princípio de que o conhecimento é situado, ou seja, é sempre condicionado pela posição social e histórica dos indivíduos que o produzem.
Para lidar com essas complexidades das sociedades contemporâneas, respeitando valores como liberdade e respeito ao ser humano, será indispensável o amadurecimento de um senso crítico, entendido como a capacidade de filtrar e avaliar com alguma rapidez as informações que nos chegam, bem como questionar sua origem e, sempre que possível, avaliar se tem alguém interessado em ganhar alguma coisa no circuito onde as informações circulam. Daí somente depois de um “intervalo crítico”, decidir e proceder ao compartilhamento nos fóruns adequados ao nível crítico possível de cada mensagem.
Se trouxermos isso para a vida cotidiana, o “pensamento crítico” não é apenas desconfiar de informações ou ideias, mas reconhecer o pano de fundo histórico e relacional que molda até mesmo o modo como pensamos. É um exercício de perceber que o “óbvio” é quase sempre produto de um processo social longo — e que o próprio ato de criticar está inserido nessa teia.
Não será fácil. Mas penso ser mesmo o caminho para um equilíbrio qualquer no futuro. E quem sabe menos riscos para o mundo, para nossos adolescentes e nossos anciãos. Ou pelo menos que tais riscos restantes sejam mais interessantes, não é?

