Wednesday, May 28, 2025

Consciência dos Riscos

Tempo passado e tempo futuro
Permitem apenas um pouco de consciência.
Estar consciente não é estar no tempo
Mas somente no tempo pode o momento no roseiral,
O momento no caramanchão com a chuva batendo,
O momento com as correntes de ar e as fumaças na igreja.
Ser lembrado; envolvido com passado e futuro.
Somente através do tempo o tempo é conquistado. 
T.S.Eliot 1935


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Um semestre de volta ao cotidiano no Brasil, e já me pego em alguns momentos de meditação sobre as diferenças e semelhanças da vida cá e lá. Não tem sido um exercício fácil, uma vez que isso envolve uma grande complexidade de fatores. E ainda mais: além do desafio da comparação estruturada entre duas culturas com imbricações profundas (Brasil e Portugal, no caso),  a própria dinâmica da relação entre essas duas culturas parece seguir aumentando tanto em complexidade, como em velocidade de transformação. Pense nisso...

local: gruta que chora. (eu também!)

O ambiente social que me sinto retornando nesse ano de 2025 tem como um dos alicerces o contínuo embate entre o direito de matar e o direito de viver*. Ainda que bastante simplificado, pode-se ver isso no conteúdo midiático a praticamente qualquer hora, qualquer dia. E num recorte também simplificado, podemos rapidamente notar o quanto as preocupações e os medos do cotidiano atuam na conformação das sociedades. 

Pronto: acho que montei uma moldura razoável onde pretendo pintar o quadro da "consciência dos riscos"

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1) Durante a infância (além dos riscos estritamente biológicos, genéticos, etc), nossos riscos são os que passam pelos filtros dos nossos cuidadores. Seu conteúdo é representado tanto pelo que fica retido nesses filtros, como pelo que passa através deles. Toda sorte de riscos permeia o processo de individuação das singularidades existenciais, desde as doenças autoimunes às contagiosas, os riscos do ambiente - imediatos ou globais, os riscos de perda dos afetos e de pertencimento, etc, e ainda a imensa gama dos riscos que os jogos e seu aprendizado nos proporcionam enfrentar, conscientemente ou não.

2) A adolescência marca a transição daquele filtro dos riscos, paulatinamente para o cuidar de si, sendo mesmo um fator chave no processo de autonomização: o adulto em preparação deve ser o próprio regulador dos riscos que participa, cria e assume. Isso se aplica tanto em sua singularidade e vida individual como, principalmente, em todas as coletividades que integra. 

3) Enfim, o agora adulto vai ser o agente social que vive os riscos no seu dia a dia: suas relações imediatas do cotidiano, suas fragilidades pessoais, suas necessidades de exposição e conquistas, etc. A atuação singular aqui poderá ser tão variada como o são cada singularidade humana, e isso já se amplia para um quadro demasiadamente complexo... 

Contudo eu acredito que podemos traçar um painel sobre a consciência que cada singularidade desenvolve sobre os riscos que participa. Certamente falo de um painel dinâmico, multifacetado e bastante complexo. 

Risco já se encontra bastante complexificado nas ciências sociais. A fronteira com a psicologia e outras ciências humanas certamente acrescenta ainda mais complexidade. Porém ao mesmo tempo oferece uma possibilidade de conexão dita ontológica (com ontologia aqui quero referir ao estudo e definição do que existe e do que é real; portanto encampa tanto o ambiente da existência social como o potencialmente vasto mundo interior de cada singularidade). 

Sentenças como "correr um risco calculado" ou "fazer o exame de risco cirúrgico" se integram ao cotidiano com significados tão imediatos para cada um, que dão a impressão de compreensão íntima e não ambígua. Mas a ambiguidade está pronta para se espalhar, tanto para dentro de cada um (endógeno) como para cada ambiente social onde aparece. 

Sobre o que chamei de endógeno não pretendo adentrar agora, pois penso ser assunto da psicologia: o que se entende por correr riscos, onde isso encontra meus medos, etc. Entretanto - e aqui mora o perigo! - exatamente na fronteira desse endógeno com os ambientes sociais é onde se processa boa parte dos fatores que alimentam, atenuam, evidenciam ou mitigam os riscos a que estamos sujeitos.

Tanto há para desenvolver a partir daqui que me sinto ao mesmo tempo motivado a seguir construindo (um livro?), mas também acanhado por ser um campo multidisciplinar em que tenho pouca bagagem para me apoiar. O que gosto mesmo é de pensar junto e de elaborar isso na fronteira mesmo do singular ao coletivo. 

Onde será que isso vai dar...?